Mundo precisa pensar no dia seguinte a Donald Trump, diz ex-conselheiro da ONU
Para Marc Weller, choque provocado pelo retorno do presidente dos EUA à Casa Branca começa a perder força. ONU mais fraca, guerras no Oriente Médio e ascensão da China exigem que Brasil se prepare para novo cenário
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a tutela americana sobre a Venezuela e o cerco cada vez mais intenso contra Cuba, os Estados Unidos de Donald Trump colocam em prática sua interpretação da doutrina Monroe, que hoje prega a hegemonia de Washington nas Américas, em especial na América Latina.
Para Marc Weller, ex-conselheiro da ONU que atuou na mediação de conflitos nos Bálcãs, no Sudão, na Síria e no Iêmen, a situação se complica pelo fato de que muitos governos de direita na América Latina apoiam Trump. Segundo ele, esses líderes descobrirão que isso significa "perder sua liberdade".
Para ele, também já é hora de olhar para o dia seguinte e se preparar para o que vai acontecer quando o americano deixar de novo a Casa Branca. "O choque do retorno de Trump ao poder está passando", diz.
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Weller, que é diretor do Centro de Governança Global e Segurança da Chatham House, famoso think tank britânico, esteve no Brasil para o Paraty Dialogues, evento de debates sobre multilateralismo organizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
Ele conversou com a Folha por telefone sobre as ações dos EUA no Oriente Médio, a ascensão da China como grande potência e o papel do Brasil no cenário internacional hoje.
Folha - Há cerca de seis meses surgia o Conselho da Paz, órgão materializado por desejo de Trump e visto, na época, como tentativa de substituir as Nações Unidas. Ainda existe um risco de que isso aconteça?
Marc Weller - Nenhum. Lembre-se de que mesmo os americanos tiveram que ir ao Conselho de Segurança da ONU para conferir alguma legitimidade ao Conselho da Paz. É bastante provável que o entusiasmo com esse órgão diminua drasticamente no momento em que Trump deixar a Casa Branca -como você sabe, ele é o presidente vitalício do Conselho, mas imagina-se, por conta de sua idade, que não desempenhará essa função para sempre.
Há, contudo, cada vez mais arranjos temporários que ameaçam - ou, em alguns casos, efetivamente tornaram obsoleto - o papel da ONU em negociações de paz. Eu fui conselheiro jurídico da ONU para negociações de paz por muitos anos. Na minha época, as Nações Unidas sempre tinham primazia. Mas não houve muitos sucessos nos últimos anos.
Folha - Por que isso aconteceu?
Marc Weller - Acho que o Conselho da Paz é uma formalização dessa tendência. O outro elemento é que [o órgão] não participou de outras iniciativas de Trump além de Gaza. Era de se esperar que ele fizesse o que as iniciativas de Trump normalmente não fazem, isto é, ir além de apenas dizer "farei a paz" e usar seu poderio econômico, que adquiriu por meio das imensas doações que estão recebendo, e conquistar avanços reais.
Mas isso não ocorreu, e agora a credibilidade do Conselho depende inteiramente do desfecho da guerra em Gaza. Digo, os seus negociadores conseguiram um esboço de um desarmamento [do Hamas]. Foi quase surpreendente. Mas então eles se esqueceram de combinar com Israel. Não é um trabalho muito profissional.
Folha - Binyamin Netanyahu disse que as Forças Armadas israelenses não se retirarão de Gaza até que o desarmamento do Hamas seja concluído. Isso foi essencialmente uma rejeição do plano de paz de Trump. Por que o senhor acha que Netanyahu correu o risco de enfurecer o presidente dos EUA?
Marc Weller - Bem, ele sabe que o Trump não pode fazer muito a respeito. Pode criticar Netanyahu, pode causar uma pequena crise, mas em última análise os EUA não têm capacidade de punir Israel de verdade, dada a opinião pública interna sobre [o Estado judeu].
Mas acho que Netanyahu também vê que os EUA estão distraídos com o Irã, um conflito que tem muito a ver com o Líbano, é claro, mas menos com Gaza. E Washington, bem como a comunidade internacional, só consegue prestar completa atenção em uma coisa de cada vez. Então acho que Israel sentiu que poderia rejeitar o plano e talvez conseguir algo dos EUA em troca de, no fim, apoiar o desarmamento gradual do Hamas.
Folha - O que Israel poderia conseguir dos EUA?
Marc Weller - Um acordo no qual o Hamas passa por um desarmamento mais vigoroso ou mais célere do que o esperado enquanto Israel se retira não de maneira simultânea, como pede o plano de paz atual, mas vagarosamente.
Uma realidade sobre negociações é a seguinte: você sempre encampa uma posição muito distante do que espera conseguir ao fim. Se houver progresso, os israelenses podem terminar em algum lugar entre o que dizem e o que o Conselho de Paz propôs, ou eles podem não estar dispostos a cooperar porque acham que ninguém pode dizer a eles o que fazer em temas de segurança nacional.
Folha - Alguns analistas dizem que a guerra no Irã está para os EUA como a crise do Canal de Suez de 1956 esteve para o Reino Unido, e que Netanyahu pode ter corrido esse risco para se preparar para um momento em que Washington se retira do Oriente Médio e que Israel precisa se tornar menos dependente dos americanos. O senhor acha que isso faz sentido?
Marc Weller - Acho que Israel sempre será dependente dos americanos, e uma retirada americana do Oriente Médio não significaria abandonar Israel. Pode significar apoio renovado aos acordos de Abraão para construir uma lista de países que os EUA consideram confiáveis. Essa nova aliança pode conter o Irã sem a presença ostensiva dos EUA, mas não enxergo um mundo no qual os americanos abandonam seu comprometimento absoluto em proteger Israel.
Além disso, os EUA querem realizar uma "virada para a Ásia", mas foram arrastados de volta para a Europa, com a Guerra da Ucrânia, e para o Oriente Médio, por causa do Irã. E acho que tudo vai depender da forma como Washington passa a enxergar a China daqui para frente.
É possível dizer que é um erro excluir a China da comunidade internacional, assim como foi um erro fazer o mesmo com a Rússia, que concluiu que não tinha nada a ganhar se participasse de forma construtiva de um sistema que os rejeitou depois da guerra do Kosovo, em 1999.
Está claro que os chineses estão em ascensão e se tornarão uma potência dominante de qualquer forma, mas talvez seja uma boa ideia, enquanto eles ainda estão dispostos a liderar esforços em prol do direito internacional e dos princípios da ONU, não tratá-los como inimigos e tentar cooperar.
Folha - Mas o senhor não diria que a China parece mais comprometida com o sistema ONU do que a Rússia na época?
Marc Weller - A Rússia estava tentando voltar a ser reconhecida como uma grande potência após a destruição da União Soviética. Estava cooperando com o Ocidente em muitas questões, incluindo a do Kosovo, até o último momento, quando houve a intervenção da Otan. Depois disso os russos concluíram que o sistema era dominado por outros.
A China está em uma posição diferente e tem uma oportunidade de desempenhar um papel construtivo. Os chineses se comprometeram com o que chamam de retorno aos princípios da ONU. Na verdade, trata-se de um retorno aos princípios de soberania e não intervenção do século 19, sem ênfase em direitos humanos. Mas é, pelo menos, um comprometimento com uma ordem internacional baseada na lei.
Folha - É possível que o Ocidente tenha uma relação construtiva com a China se Pequim adotar uma postura mais incisiva em relação a Taiwan?
Marc Weller - Acho que é preciso encorajar a China a não fazer isso se quiser nos mostrar que é verdadeira sua visão de retornar aos princípios da Carta das Nações Unidas. Pequim sabe da existência dessa linha vermelha que, espera-se, eles não vão cruzar. Mas existe o risco de que, não estando suficientemente envolvidos no sistema internacional, eles avaliem não ter muito a perder se conquistarem Taiwan, pagando por isso com uma década de isolamento do Ocidente.
Os taiwaneses veem o exemplo de Hong Kong, que foi devolvida [pelo Reino Unido] com promessas de que seu sistema democrático não seria abolido. Infelizmente, essas promessas foram quebradas, e a confiança em uma integração suave entre os dois lados do estreito de Taiwan foi prejudicada.
Mas é preciso estabilizar as relações. Taiwan precisa parar de dizer, a cada ciclo eleitoral, que vai declarar independência unilateralmente. Isso é muito perigoso e não ajuda ninguém. A China precisa demonstrar que buscar relações mais próximas com Taiwan não significa integração forçada. E o Ocidente precisa oferecer o tipo de cooperação na área de segurança e em outras para que Pequim tenha algo a perder se utilizar a força.
Folha - O senhor disse que a China poderia mediar o fim da guerra do Irã. Que alternativas os EUA têm para encerrar o conflito sem escalada? O Irã aceitaria um retorno ao status quo anterior à guerra?
Marc Weller - Que status quo seria esse? A situação mudou muito. O potencial nuclear do Irã foi severamente reduzido, mas não destruído, e perdemos a chance que tínhamos com o acordo de 2015 de conter o Irã com supervisão internacional, que estava funcionando. Será extremamente difícil retornar a esse ponto.
A outra questão é o estreito de Hormuz. A China é dependente de importações de petróleo, assim como muitos países no mundo. Se quer se apresentar como líder do Sul Global, poderia se envolver nas negociações com o Omã para que o resultado não seja um acordo que ameace a liberdade de navegação. Isso tornaria Pequim uma potência construtiva, desmentindo a visão de que os chineses são inimigos do Ocidente.
O Brasil, por exemplo, está em excelente posição para ajudar na reconstrução de um consenso razoável. O país tem uma célebre história de propostas sobre reformas da ONU, a retomada da observância do direito internacional e a questão climática. O choque do retorno de Trump ao poder está passando. Já há uma sensação de que, em dois anos e meio, ele estará fora do poder, e precisamos nos preparar para o que acontece depois disso.
Folha - Falando sobre o Brasil, o governo brasileiro está muito preocupado com a forma como a Casa Branca vem falando sobre a doutrina Monroe, esse retorno do "domínio americano" no Hemisfério Ocidental...
Marc Weller - Os países latino-americanos deram muita sorte. Eles não passaram por processos de libertação nacional no século 20 [durante a Guerra Fria]. Tornaram-se independentes cem anos antes.
A doutrina Monroe originalmente significava que esses países não poderiam sofrer intervenção externa. Não significa que os EUA deveriam governar as Américas. Mas essa é a forma como ela foi reformulada, o que é inaceitável. Os desdobramentos na Venezuela vêm sendo rejeitados pela comunidade internacional, até porque a mudança de regime não levou ao retorno da democracia, pelo menos por enquanto.
O problema é que há muitos governos de direita na América Latina dispostos a apoiar o governo Trump. Eles descobrirão que isso significa concordar com a perda da própria liberdade. Por isso, o papel do Brasil de levantar a chama da independência é de suma importância.
Folha - Por fim, professor, quem o senhor acha que deveria ser o próximo secretário-geral da ONU?
Marc Weller - Não sei. Temos perfis muito diferentes entre os candidatos. Só me encontrei com três, e não posso fazer comentários. É claro que a expectativa é que seja uma mulher. Acho que seria uma grande decepção o contrário, o que é uma pena para [Rafael] Grossi [chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU, e candidato apoiado pela Argentina], um excelente diplomata e um político clássico. Mas acho que até mesmo ele reconhece que escolher uma mulher seria bom.
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Raio-X | Marc Weller, 65
Nasceu em Hamburgo, na Alemanha, mas é cidadão do Reino Unido e mora em Cambridge. É diretor do Centro de Governança Global e Segurança da Chatham House, um dos institutos de pesquisa mais antigos do mundo. Também é professor de direito internacional da Universidade de Cambridge. Foi o mediador sênior do Departamento de Assuntos Políticos da ONU, em Nova York, e trabalhou como conselheiro sênior das Nações Unidas em negociações dos conflitos na Síria, Kosovo e Sérvia, Sudão e Sudão do Sul, e Iêmen.