Morre Jürgen Habermas, um dos filósofos mais influentes de sua geração
Filósofo e sociólogo alemão morreu neste sábado (14/3), aos 96 anos, em Starnberg, perto de Munique
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FOLHAPRESS - O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do mundo, morreu neste sábado (14/3), aos 96 anos, em Starnberg, perto de Munique. A informação foi confirmada pela Suhrkamp Verlag, editora que publicava seus livros.
Habermas era de uma família simpatizante do nazismo e membro da Juventude Hitlerista. Aos 15 anos, integrou a milícia de jovens e idosos recrutados para resistir à invasão da Alemanha no fim da 2ª Guerra Mundial. Anos depois, ele se tornou um dos principais filósofos da Escola de Frankfurt, formada por pensadores judeus exilados do país para fugir da perseguição nazista.
Nascido em 18 de junho de 1929 em Dusseldorf, em uma família protestante muito tradicional, Habermas era o filho do meio do casal Ernst e Grete. O garoto foi submetido na infância a duas cirurgias corretivas da fissura palatina. De origem genética, essa má-formação no céu da boca dificultou sua fala e seus relacionamentos, tornando-o um jovem tímido e, mais tarde, uma adulto que aprendeu a lidar com seu comportamento retraído. Esse problema o sensibilizou para elaborar uma filosofia com foco na importância da comunicação para uma sociedade democrática.
Pouco antes de ele concluir o ensino fundamental, sua família se mudou para Gummersbach, nos arredores de Colônia, cidade onde seu pai se tornou diretor da Câmara de Indústria e Comércio.
Com o fim da guerra, os julgamentos em Nuremberg tornaram públicos filmes sobre os campos de concentração. As imagens do assassinato sistemático de milhões de judeus e outros perseguidos pelo nazismo afetaram profundamente o jovem Jürgen, que fora criado somente sob o horizonte de referência da sociedade nazista.
"Vimos de repente que havíamos vivido em um sistema político criminoso", disse Habermas quatro décadas depois em uma entrevista ao filósofo britânico Peter Dews, publicada no livro "Autonomia e Solidariedade", de 1986.
"O antissemitismo é um assunto sobre o qual Habermas tem sido particularmente vigilante", disse Richard Bernstein, seu amigo e professor de filosofia da Universidade de Nova York, em uma entrevista ao jornal "Los Angeles Times" em 1994. "Nunca conheci um não judeu mais sensível -intelectual e pessoalmente- do que ele a esse assunto."
Filosofia
Determinado a se dedicar à filosofia, em 1949 Habermas entrou na Universidade de Göttingen. Para ampliar sua formação, em 1950 se transferiu para Zurique, na Suíça, onde concluiu o curso no ano seguinte, e em 1951 seguiu para Bonn. Em 1954, seu currículo incluía disciplinas de história, psicologia e economia, além do doutorado em filosofia com uma tese sobre o pensamento de Friedrich Schelling.
Nessa cidade que viria a se tornar a capital da Alemanha Ocidental, ele começou a trabalhar em 1952 como freelancer para o jornal Frankfurter Algemeine Zeitung e para o Handelsblatt, diário especializado em economia.
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No ano seguinte ele escreveu um artigo que teve grande repercussão, sobre a filiação ao nazismo em 1933 durante um ano pelo filósofo Martin Heidegger, considerado um dos mais importantes pensadores do século 20.
Em Bonn Habermas conhece Ute Wesselhoeft, com quem se casou em 1955 e teve três filhos, Tilmann, Rebekka e Judith.
No ano em que nasceu o primeiro filho, o jovem casal se mudou para Frankfurt, onde Habermas começou a trabalhar no Instituto para a Pesquisa Social, vinculado à universidade daquela metrópole. Fundado em 1928, o centro agregara a corrente filosófica que antes da guerra teve seu nome associado ao da cidade.
Retornados do exílio, estavam de volta ao instituto Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse. Antes da guerra o grupo contara também com a participação de Friedrich Pollock, Erich Fromm e do simpatizante Walter Benjamin, que se suicidou na fronteira da França com a Espanha. Todos de origem judaica.
Escola de Frankfurt
O que caracterizava o pensamento da Escola de Frankfurt era a adesão ao marxismo, mas com a crítica à tradição dos partidos comunistas e também à concepção de ciência vigente nos anos 1930. Para os frankfurtianos, a economia, a história, a sociologia e outras ciências humanas não deveriam perseguir o modelo das ciências naturais, como a física, a biologia, a química e outras.
Desse modo, a chamada Teoria Crítica se tornou um contraponto a outra escola, conhecida como positivismo lógico, neopositivismo ou Círculo de Viena. O nome da corrente se referia à capital austríaca, onde se reuniam seus expoentes, como Moritz Schlick, Rudolf Carnap e Otto Neurath, entre outros.
O projeto neopositivista consistia basicamente em buscar livrar o conhecimento de equívocos decorrentes do mau uso da lógica e da linguagem.
As atividades do Círculo de Viena se encerraram em 1936, quando a Alemanha anexou a Áustria e Schlick foi assassinado por nazistas. A corrente perdeu sua identidade após a guerra devido também às críticas contundentes ao seu projeto por pensadores que participaram por algum tempo das discussões com o grupo, como Ludwig Wittgenstein e Karl Popper.
O livro "Teoria Tradicional e Teoria Crítica", de 1937, de Horkheimer, é considerado o manifesto da contraposição frankfurtiana não só ao positivismo lógico, mas também às demais concepções acerca do conhecimento limitadas ao modelo cartesiano.
No pós-guerra, com esse referencial da teoria crítica já consolidado, Adorno, Horkheimer e Marcuse se concentraram na crítica à indústria cultural e à alienação da sociedade.
Habermas, porém, direcionou o foco da teoria crítica principalmente para o tecnicismo, ou seja, para a ideologia da aplicação a qualquer custo das aplicações tecnológicas da ciência, guiadas principalmente por interesses empresariais e não da sociedade.
Ciência política
Antes disso, Habermas elaborou sua dissertação para habilitação em ciência política, que foi rejeitada por Horkheimer, que exigiu mudanças no texto. O orientador discordou da crítica do jovem, que atribuiu à Escola de Frankfurt um ceticismo e um desprezo pela cultura moderna que a teriam paralisado na ação política.
Habermas não acatou as exigências de Horkheimer e deixou o instituto em 1959. Transferiu-se para a Universidade de Marburg, onde começou a lecionar e finalizou sua dissertação sob a orientação do jurista e cientista político marxista Wolfgang Abendroth.
Concluído em 1961, o trabalho foi publicado no ano seguinte com o título "Mudança Estrutural da Esfera Pública". Em seguida, ele se transferiu para a Universidade de Heidelberg, onde ficou até 1964, ano de seu retorno ao instituto em Frankfurt, onde sucedeu Horkheimer, já aposentado.
Além de criticar os interesses econômicos por trás das aplicações da tecnologia, Habermas também fez campanha com Marcuse contra a Guerra do Vietnã. E reprovou extremistas do movimento estudantil alemão na década de 1960. Nos anos seguintes, parte dessa tendência optou pelo terrorismo da Fração do Exército Vermelho, mais conhecida como grupo Baader-Meinhof.
Após publicar "Conhecimento e Interesse", em 1968, Habermas permaneceu em Frankfurt até 1971, quando saiu, desgastado com as manifestações estudantis. Depois de um semestre na Universidade de Princeton, nos EUA, ele passou a trabalhar no Instituto Max Planck para Estudos do Mundo Técnico-Científico, em Starnberg, perto de Munique.
Após publicar outros estudos, o filósofo lançou "Teoria da Ação Comunicativa", em 1981. Nessa obra ele explica que os interesses emancipatórios dependem da autorreflexão para que as pessoas estabeleçam modos de comunicação visando tornar razoáveis suas interpretações e reivindicações.
Aplicado à política, o conceito de ação comunicativa propõe uma "democracia deliberativa", na qual as instituições e as leis devem ser abertas à livre reflexão e à discussão pela sociedade. Habermas se aposentou em 1994 em Frankfurt.
Habermas publicou ainda "O Futuro da Natureza Humana" em 2003, três anos após a cerimônia midiática de divulgação do sequenciamento do genoma humano por pesquisadores norte-americanos e britânicos ao lado do presidente Bill Clinton, dos EUA, e do primeiro ministro Tony Blair, do Reino Unido.
Nesse livro, o filósofo questionava o otimismo a partir do desenvolvimento da biotecnologia e seus riscos para a constituição de uma ética individual de auto-compreensão.
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Em face de todas as incertezas da política, da economia e do próprio conhecimento para o futuro da sociedade, a filosofia de Habermas preserva a racionalidade moderna sem perder de vista a crítica do tecnicismo e do predomínio dos interesses empresariais que nas democracias ocidentais ainda confundem o crescimento da economia com o bem-estar da humanidade.