Era um 25 de janeiro comum. Helena Taliberti caminhava pelas salas do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, quando uma notificação vibrou na tela do celular: uma barragem havia se rompido em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela enviou mensagens para os dois filhos. Não houve respostas. Sete anos após a tragédia na Mina Córrego do Feijão, que deixou 272 pessoas mortas, além do vazamento de rejeitos de minério na bacia do Rio Paraopeba, a economista lança “Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes” (Editora Ofício da Palavra), uma obra de 207 páginas que transcende a dor pessoal para erguer um farol coletivo contra o esquecimento.  

Naquele dia de 2019, os filhos de Helena, Camila, então com 33 anos, e Luiz, com 31, a nora Fernanda (grávida do primeiro neto) e o ex-marido com a atual esposa estavam na pousada Nova Instância, a única varrida do mapa pelo mar de lama. Eram turistas que foram conhecer o Instituto Inhotim, localizado na cidade. Os corpos foram encontrados nos dias seguintes. “Poderia ter acontecido com qualquer pessoa. Não foi um luto normal quando você perde a família inteira”, recordou Helena. Sem sinal dos familiares, o aperto no peito tomou conta. No dia seguinte, ela veio a Minas Gerais. Ao chegar em BH, deparou-se com o caos e a dor dilacerante que unia centenas de famílias. 

A ideia do livro nasceu do contato com a comoção alheia. Assustada com a dimensão da tragédia e tocada pelos relatos de dezenas de pessoas que a abordavam para dizer como tinham sido impactadas, Helena começou a registrar tudo em um bloco de notas no celular. A nota recebeu o título provisório de “Para quê serviu”. “Eu percebi que não foi uma tragédia que atingiu apenas a minha família. Na missa de sétimo dia em São Paulo, a igreja lotou com mais de 500 pessoas e muitas ficaram do lado de fora. Eu achei que tinha que escrever sobre isso”, contou em entrevista ao Estado de Minas.

Tecer a memória

Revisitar três décadas de lembranças para condensá-las no papel exigiu um esforço ao longo de um ano e meio de escrita. “Foi muito difícil”, confessou. Helena poliu cada linha para evitar que a obra se tornasse um fardo para o leitor. “Teve momentos em que tive que refazer muita coisa. Eu pensava: ‘isso aqui, quem ler vai se debulhar em lágrimas, vamos voltar um pouquinho’. Eu não queria que fosse um livro pesado, queria um relato curto e, de certa forma, leve na medida do possível”, explicou.

O processo contou com a escuta atenta de mulheres que inspiraram sua jornada. A jornalista Cristina Serra, autora de obra sobre a tragédia de Mariana, trouxe o rigor técnico e a ética da investigação; a escritora Daniela Arbex, autora de Arrastados, dividiu uma conversa de cinco horas que selou uma amizade entre elas e inspirou a estrutura narrativa do texto. A psicóloga Maria Helena Pereira Franco e o marido de Helena, Vagner Diniz - responsável pelo posfácio do livro -, ajudaram a delimitar o fim da escrita. “Até o momento em que a editora e a minha psicóloga falaram: ‘agora para, o livro está terminado’.” 

O produto final, que já está à venda no site da editora Ofício das Palavras, repercutiu rapidamente. Amigas e leitoras da economista têm se reconhecido nas páginas que abordam a maternidade solo, a reconstrução familiar e a força feminina. “Espero que seja mesmo um livro que acolha essas dores e confusões de sentimentos que a gente passa. Que as pessoas leiam e se sintam representadas”, disse.

Germinar

Junto à família e amigos, Helena fundou o Instituto Camila e Luiz Taliberti (ICLT), entidade que promove mostras de cinema, exposições artísticas e ações culturais em defesa do meio ambiente e em memória das 272 vítimas. Para ela, o livro é um manifesto de denúncia para garantir que as vidas perdidas não tenham sido em vão. “Ninguém vai trazer meus filhos de volta. A vida da gente mudou e não tem a menor perspectiva de você se sentir plenamente feliz novamente. Mas essa tragédia nunca pode ser esquecida. Eu acredito na justiça brasileira e as pessoas envolvidas precisam ser responsabilizadas”, afirmou. 

O título da obra, segundo ela, reflete a urgência de manter a pauta viva contra as sucessivas tentativas de apagamento histórico. Para as novas gerações e leitores futuros, Helena deixa uma convocação sobre o afeto e a preservação ambiental.“Para quem é pai e mãe: amem incondicionalmente os seus filhos, eles são verdadeiros milagres. E para as novas gerações: a vida humana tem que estar em primeiro lugar sempre, acima de qualquer atividade econômica ou empresa. As sementes são muito poderosas, elas trazem dentro de si todas as informações para se tornarem o que vieram ser. ‘Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes’ é o renascer sempre, é cuidar da memória para que nunca seja esquecida”, conclui.

Programação dos Lançamentos:

  1. Ouro Preto (Fórum das Letras):

  • Data/Horário: 17/10 (sábado), às 11h30

  • Local: Anexo do Museu da Inconfidência (Rua Antônio Pereira, 33, Centro)

  • Atividade: Roda de conversa "O que permanece" com Helena Taliberti, Daniela Arbex e Fabíola Moulin.

  • Belo Horizonte (Encontros Singulares):

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