PATRIMÔNIO

Legado gráfico da África ocidental nos porões de Minas

Especialistas e historiadores concluem que mural descoberto em 2019, em parede de casarão de Ouro Preto, representa um "painel mortuário" em memória de mulher escravizada proveniente da Costa da Mina

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Um mural descoberto há sete anos no porão de um sobrado do Centro Histórico de Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, ganha as primeiras conclusões a partir da pesquisa de especialistas. Ao destacar a importância dos “desenhos parietais” (feitos na parede), em baixo relevo, o professor de história da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Francisco Eduardo de Andrade, afirma não haver similar no Brasil.

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“Trata-se de uma raridade, algo singular, de valor inestimável para o patrimônio brasileiro. Ainda não encontramos nada semelhante”, diz o docente que trabalhou, na investigação, com a professora Mariza de Carvalho Soares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em história da escravidão e África, e a arqueóloga Cláudia Plens, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Uma das conclusões da equipe é que seria um “painel mortuário” em memória de uma escravizada proveniente da Costa da Mina. “Talvez nunca saibamos quem é essa suposta mulher agora relembrada, nem a autoria. Há desenhos que parecem feitos por outras pessoas em outros momentos”, conta o professor. Para ele, torna-se fundamental que representantes do poder público conheçam o mural e confiram sua importância a fim de se garantir a preservação bem rapidamente, pois há sinais de perigo.

Desenhos em baixo relevo em paredes do porão de casarão na rua Direita, no centro histórico de Ouro Preto, (MG), retratam aves pernaltas, entre outras figuras
Desenhos em baixo relevo retratam aves pernaltas, entre outras figuras Jair Amaral/EM/D.A Press. Brasil. Ouro Preto - MG. Desenhos em paredes do porao de uma casa sendo reformada que pode ser da epoca da escravidao, na rua Direita, 134.

No limite

Em visita ao local, a equipe notou sinais de perigo para o patrimônio. “A casa ao lado do sobrado, que fica bem no limite da parede onde fica o painel, está em péssimas condições, e o porão do sobrado se encontra embargado há anos. A ideia é chamar a atenção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Prefeitura de Ouro Preto e de outros órgãos para proteção do que existe lá”, ressalta Andrade. Ele esclarece que a decodificação do painel e a análise do conteúdo, da mensagem, são conjecturais, “mas conjecturas a partir de comprovações, de maneira consistente, seguindo um método de análise comparativa. Não é mera opinião”.

Na época da descoberta do mural, uma pessoa da família de proprietários informou que a preservação do legado gráfico se deu graças à localização do compartimento do casarão que, anteriormente, tinha saída para a Rua das Flores e era ventilado, impedindo a deterioração pela umidade e o tempo.

Embora preliminares, as conclusões dos pesquisadores jogam luz sobre o legado gráfico característico da arte parietal específica da África ocidental. Segundo os três especialistas, “as inscrições comporiam uma seleção de episódios da vida de uma africana escravizada proveniente da Costa da Mina para apresentar um painel mortuário dedicado à sua memória”. A investigação da sua trajetória, em Vila Rica, atual Ouro Preto, considerou o espaço social e econômico entre os séculos 18 e 19, “conectando a morada de casas na qual o painel foi encontrado à rua, paróquia e vila”.

Arte parietal

Revelado em primeira mão pelo Estado de Minas em 29 de setembro de 2019, o painel fica num casarão localizado na Rua Conde de Bobadela, popularmente chamada Rua Direita. Naquele ano, uma equipe de arqueologia e restauração da superintendência em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) esteve na propriedade particular para iniciar estudos sobre os desenhos que ocupam área de 3,70 metros de altura por 1,79m de largura. O mural foi cadastrado, pela autarquia federal, como sítio arqueológico “Inscrições Afrodiaspóricas”.

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Conforme o documento elaborado pela autarquia federal, os grafismos foram feitos sobre argamassa de revestimento da parede de pedras. Estão em cena desenhos de um mamífero de grandes proporções, duas aves pernaltas, uma embarcação a vela, desenho de 13 personagens agrupadas e duas perto de um pilão e torres.

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