ENTREVISTA – Angelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto

"Ouro Preto resiste a tudo e não perde o seu caráter"

Angelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto pela quinta vez, fala sobre os desafios de administrar a cidade, que é Patrimônio da Humanidade e símbolo da história de Minas Gerais

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Nascido em Belo Horizonte, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, ou simplesmente Angelo Oswaldo, como é conhecido na vida pública, fez de Ouro Preto, na Região Central de Minas, um lar e também um propósito político. Em 2024, ele foi reeleito para o cargo de prefeito do município, pelo PV, onde exerce o quinto mandato como chefe do executivo. As gestões foram marcadas por políticas de preservação do centro histórico da cidade, que desde 1938 é tombado em âmbito federal pelo Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan) e, em 1980, se tornou o primeiro bem do Brasil inscrito na lista do Patrimônio Mundial da Unesco. Famoso tanto pela extensão quanto pela singularidade das igrejas e do casario, o conjunto arquitetônico é um dos principais pólos turísticos do estado.

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Formado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1971 e graduado no Instituto Francês de Imprensa, em Paris, em 1975, Angelo Oswaldo, além de gestor público, também é escritor, curador de arte, jornalista profissional e advogado. Já ocupou cargos de chefe de gabinete do Ministério da Cultura (1986-1988), presidente do Iphan, entre 1985 e 1987, e membro dos conselhos do Iphan (1994-2002), Fundação de Arte de Ouro Preto (1971-1981) e Patrimônio Cultural da Prefeitura de Belo Horizonte (1989-1992). Em entrevista ao EM Minas, produção da TV Alterosa e Estado de Minas, ele fala sobre a própria trajetória e a preservação do patrimônio de Minas Gerais.

Quais são os desafios de se administrar uma cidade que é patrimônio da humanidade?
Eu sempre fui muito ligado a Ouro Preto, tenho um grande amor pela cidade e terminei por me dedicar plenamente a ela, mesmo trabalhando em outras frentes. Nunca deixei de ter uma ligação muito estreita com essa cidade, que emociona muito. Quando se fala em história, em sentimento de brasilidade ou de mineiridade, todos nós nos reportamos a Ouro Preto naturalmente. Ali há duas figuras emblemáticas, que estão vinculadas à cidade e estão evidenciadas: é só andar pela cidade que você vai encontrá-las. Uma delas é Aleijadinho, que tem até o título de patrono da arte do Brasil. Antônio Francisco Lisboa nos deixou monumentos como a Igreja de São Francisco de Assis. O outro é o Tiradentes. A estátua dele está lá, foi erguida na praça em 1894, logo no início da República. O Tiradentes foi o Cristo republicano; ele que abençoou a proclamação da República como um herói e um mártir nacional. Ele aparece com a barba, a barba de Cristo. O condenado à morte, naquele tempo, tinha que ter a cabeça e a barba raspadas, para a corda não ter o pretexto de não funcionar.


Há muitas discussões sobre a verdadeira face de Tiradentes...
Antes, ele não teria usado barba, porque era militar, era alferes da cavalaria. E foram encontradas, entre os bens dele, duas navalhas, quando ele deixa a prisão na Ilha das Cobras, no Rio, e vai para a Cadeia Velha, esperar o momento de ir para o Largo da Lampadosa e ser enforcado. Então, essa figura está lá em Ouro Preto, por toda parte. Aqui, a Casa de Gonzaga, ali a Casa de Cláudio Manuel, aqui a Ponte de Marília. Você anda por Ouro Preto e vai encontrando Aleijadinho e Tiradentes. E as pessoas se emocionam muito.

O fato de Ouro Preto ter se tornado Patrimônio Mundial contribuiu para a preservação?
Ouro Preto cresceu, e cresceu mal muitas vezes, desordenadamente, mas o corpo histórico da cidade permanece ali. Temos um centro histórico extenso, dentro de uma garganta formada por duas grandes montanhas – a Serra de Ouro Preto e a Serra do Itacolomi. Aquela cidade vem dos 12 arraiais mineradores, garimpeiros primitivos que em 1711 foram reunidos pelo governador de São Paulo e Minas, Antônio de Albuquerque, criando Vila Rica. Esses arraiais, que são os bairros de Ouro Preto, permanecem sempre guardando a feição histórica.

E o tombamento contribuiu para a preservação?
Contribuiu para a valorização de Ouro Preto, para a consciência de que é uma cidade importantíssima, e desperta o sentido de responsabilidade, não só nas autoridades, mas no morador, na moradora, no cidadão em geral, e no próprio turista, que tem uma atitude respeitosa diante dessa cidade. A cidade é impactante. Nós recebemos turistas do mundo inteiro e todos reconhecem esses valores de Ouro Preto. O Lúcio Costa, o grande arquiteto que deu consultoria ao Iphan, o urbanista de Brasília, dizia: "Ouro Preto resiste a tudo". Porque as coisas se modificam, há problemas, mas a cidade não perde o seu caráter. É esse caráter de cidade setecentista, da cidade mais importante do século XVIII, da capital do ouro, das Minas Gerais do ouro e dos diamantes. Essa cidade que está lá e a gente sente, além de ser o espaço em que trabalhava o Aleijadinho e o cenário em que aconteceram os encontros mais importantes, toda a trama da chamada Inconfidência Mineira.

O sr. preside a Associação das Cidades Históricas de Minas. São quantas? Há outras do quilate de Ouro Preto?
Temos 50 filiadas à Associação das Cidades Históricas. Na verdade, toda cidade é histórica, porque toda pessoa tem sua história, toda cidade tem uma trajetória, como ela evoluiu no tempo. Cataguases está na Associação, e eu falo que é a Ouro Preto do século 20, pelos modernistas que foram lá. Os grandes arquitetos brasileiros, Oscar Niemeyer, os irmãos Roberto, Bolonha, Toledo, Portinari projetou uma praça com azulejos. Todos os grandes artistas e arquitetos estiveram em Cataguases em um período importante, nas décadas de 1940 e 1950, financiados pelos grandes industriais de Cataguases. E nós temos cidades como Diamantina, que também é Patrimônio Mundial, declarada monumento mundial pela Unesco em 1999. Temos belezas em Sabará, Mariana, Congonhas, Caeté – a Igreja de Caeté é magnífica, além do centro histórico –, o Serro, que foi a primeira cidade tombada pelo Iphan, em 1938.

Para a cidade histórica, o turismo histórico é desenvolvimento e dinheiro?
O turismo é uma grande atividade econômica, que tem uma capilaridade enorme: ele injeta recursos na comunidade. Do ponto de vista da tributação, estimula muito a informalidade, então pode ser que a prefeitura não arrecade muito com o turismo, mas ela vê a multiplicação dos postos de trabalho, vê uma injeção de recursos na vida econômica do município, e isso é muito positivo, acaba havendo um retorno de uma forma ou de outra. O turismo hoje, por exemplo, em Ouro Preto, é uma grande fonte de emprego. As pessoas perceberam isso no tempo da pandemia, quando tivemos quase 6 mil pessoas sem poder exercer sua atividade. Entre guias de turismo, motoristas de táxi, garçons, artesãos da pedra-sabão, os joalheiros que trabalham com o topázio imperial – que é uma pedra genuína de Ouro Preto –, a florista que levava flores para os restaurantes e para os casamentos nas igrejas, tudo parou. Uma série de atividades que move a economia, que injeta recursos não só na cidade, mas nos nossos 12 distritos. O município de Ouro Preto é extenso.

O sr. presidiu o Iphan: como avalia hoje o Brasil, da década de 1980 para cá? Evoluímos? Estamos conservando o nosso patrimônio com sustentabilidade?
Percebo que hoje há uma consciência maior. Há um cuidado, um zelo mais apurado. Inclusive, o Ministério Público (MP) passou a atuar fortemente nesse campo, também. Mas, ao mesmo tempo, há poucos investimentos oficiais; somos carentes de alguns programas. O governo federal tem o PAC das Cidades Históricas, que voltou, mas muito lentamente. E do estado, só o Ministério Público atua no plano estadual, de maneira que há necessidade de maiores investimentos, porque isso traz renda e recursos para o estado. O turismo injeta recursos em todo o circuito econômico e vai contribuir para manter a economia em vibração. Ouro Preto ainda depende muito da mineração, mas nós temos trabalhado muito na diversificação da economia. O turismo é um dos eixos fundamentais. Temos também os serviços, outro tipo de indústria com uma diversificação empresarial significativa, mas para Minas Gerais e para as cidades históricas, o turismo que é o eixo capaz de impulsionar o desenvolvimento, sobretudo para aquelas cidades que não são mineradoras.

O sr. é membro da Academia Mineira de Letras e, recentemente, fez a saudação na posse do Márcio Borges, do Clube da Esquina, que também se tornou imortal...
A posse do Márcio Borges foi realmente muito emocionante, porque foi a chegada do Clube da Esquina à Academia. O Jacyntho Lins Brandão, que é um grande intelectual e nosso presidente, disse o seguinte: "Uma academia é um club, no sentido inglês da palavra. E sendo uma academia de letras, é um lugar adequado para um letrista. Então, é maravilhoso que a Academia recebesse o Clube da Esquina e o letrista Márcio Borges". Quem resumiu melhor essa história toda foi o nosso presidente: foi uma alegria receber o Márcio e toda essa geração.

O sr. é, antes de mais nada, um gestor cultural: passou pelo Ministério da Cultura e dirigiu institutos, patrimônios e museus, foi secretário de Estado e prefeito. O que é mais difícil para o gestor público: ser prefeito, ministro ou secretário?
Parece que é mais difícil ser prefeito, porque estou lá pisando no chão real. O secretário de estado já está um pouco distante, está vendo o território; Minas Gerais é maior do que a França, então a pessoa tem que fazer um esforço grande para mergulhar, senão fica distante da realidade. E no ministério também. Eu sempre procurei ter uma visão de conjunto do território em que tinha que atuar, mas o prefeito está no chão, é quem faz a gestão direta.

As novas gerações já nasceram teclando: isso prejudica a formação?
Esse é um problema enorme do mundo inteiro, porque todos vão voltar a ser neandertais curvos, virados para o celular. Eu imagino os problemas que a França tem enfrentado, porque a França resistiu até hoje a fazer uma reforma ortográfica. Lá tem muita letra dobrada e a escrita tem regras gramaticais muito complexas e preservadas. O país está tendo que lidar com a dificuldade dos jovens com a escrita. E nós vemos também aqui, no Brasil, mesmo com todas as facilidades criadas pelas sucessivas reformas ortográficas, muita dificuldade na escrita. Houve um empobrecimento do ensino, um enxugamento, tentaram fazer uma coisa bem simples e direta, mas mais concisa.

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E o sr. é otimista? Tem esperança?
Tenho, sou otimista. Acho que, se perdemos por um lado, ganhamos por outro. As pessoas falam que Ouro Preto foi descaracterizada em alguns lugares porque a cidade não cresceu bem, mas o corpo histórico foi muito valorizado, grandes restaurações se promoveram, mesmo nos diversos patrimônios de Minas Gerais. Na cidade de Congonhas, a acrópole é uma maravilha, toda restaurada. Diamantina é encantadora, o Serro, o conjunto da Pampulha. É uma pena que não esteja sendo utilizado: o antigo cassino, que foi o Museu de Arte, tão bem recuperado no tempo da Priscila Freire, não está devidamente utilizado. Nós temos Inhotim, que é um espetáculo. E poderíamos ter muito mais. A Angela Gutierrez criou o Museu do Oratório em Ouro Preto e o Museu de Sant'Ana em Tiradentes, no prédio da cadeia, que é maravilhoso. Além do Museu de Artes e Ofícios em Belo Horizonte, que talvez seja o museu mais emblemático. No Brasil não há outro lugar que conte a história do que a mão do povo construiu no país como o Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação. 

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