Vacina mineira contra a malária tem testes em humanos aprovados pela Anvisa
Imunizante Vivaxin é voltado para a forma de malária que predomina no Brasil, causada pelo protizoário Plasmodium vivax
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Totalmente brasileira, a vacina Vivaxin, contra a malária, poderá começar a ser testada em humanos. Desenvolvida pelo CTVacinas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório Cristália, o imunizante recebeu sinal verde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nesta quarta-feira (7/10).
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A Resolução-RE nº 3.956, de 6 de outubro de 2026, deferiu duas petições do CTVacinas relacionadas à Vivaxin: o Dossiê de Desenvolvimento Clínico de Medicamento e o processo de pesquisa clínica. Tal decisão autoriza o avanço da avaliação em humanos.
Os testes em humanos, classificados como estudo de fase 1, têm como objetivos avaliar a segurança, as reações à aplicação e a capacidade da Vivaxin de estimular uma resposta imunológica. Os resultados deverão fornecer novas evidências sobre o comportamento do imunizante e, assim, servirão para orientar as próximas etapas do desenvolvimento, necessárias para avaliar a proteção contra a doença.
A Vivaxin é voltada para a forma de malária que predomina tanto Brasil quanto em outros países da América e também da Ásia, causada pelo Plasmodium vivax, espécie do parasita para a qual ainda não há vacina disponível em parte alguma do mundo.
Nos países da África subsaariana, o protozoário mais comum é outro: o P. falciparum, que também causa a doença. As duas vacinas contra a malária recomendadas atualmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M, foram desenvolvidas justamente para essa espécie, e não para o Plasmodium vivax.
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“Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território e, com isso, também contribuir com a eliminação da malária na América Latina”, avalia Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas. O pesquisador também destaca a relevância de uma futura vacina para países asiáticos afetados pela malária vivax.
Para o pesquisador, desenvolver uma vacina contra a malária vivax representa uma oportunidade de reduzir os efeitos da doença sobre a saúde, a renda e a rotina das populações expostas à transmissão. “Ela tem um impacto socioeconômico importante, porque a pessoa doente não pode trabalhar”, afirma Gazzinelli.
O desenvolvimento tem apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), além do Ministério da Saúde (MS), por meio do Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL), voltado ao desenvolvimento de soluções nacionais para os desafios em saúde.
Protocolo dos testes
O protocolo prevê testes com 48 participantes saudáveis, com idades de 18 a 59 anos, sem infecção prévia por malária. Serão avaliadas três dosagens da candidata, com grupos que receberão Vivaxin ou placebo. O esquema prevê três aplicações, com intervalo de 28 dias entre elas.
O Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte, aparece no cadastro como local do estudo. O acompanhamento previsto é de 360 dias, com avaliações clínicas e monitoramento dos participantes.
Problema mundial
Os dados do Relatório Mundial da Malária 2025, da OMS, revelam aproximadamente 9,9 milhões de casos de malária por P. vivax em 2024. Nas Américas, essa espécie respondeu por 63,1% dos casos estimados de malária naquele ano, evidenciando a relevância de uma vacina direcionada ao parasita.
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A transmissão ocorre principalmente pela picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles. Febre, calafrios e dor de cabeça estão entre os sintomas mais comuns. Em áreas de transmissão, o adoecimento interfere na rotina das famílias e pode afastar as pessoas de suas atividades de trabalho.
O P. vivax também apresenta uma característica que dificulta o controle: formas do parasita podem permanecer dormentes no fígado e voltar a provocar episódios de malária, mesmo sem uma nova picada infectante. Por isso, o tratamento precisa combater tanto a infecção no sangue quanto essas formas latentes, para prevenir recaídas.
Embora o P. falciparum esteja associado à maior parte dos casos graves, a malária vivax também pode causar complicações e morte. O Ministério da Saúde destaca, entre os riscos, anemia grave, problemas respiratórios e ruptura do baço. O diagnóstico e o tratamento oportunos são fundamentais para reduzir a gravidade da doença.
Brasil
No Brasil, foram registrados 118.037 casos de malária contraídos no território nacional em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Mais de 99% dos casos autóctones se concentram na região amazônica, onde o enfrentamento da doença também envolve desafios de acesso ao diagnóstico, ao tratamento e às ações de prevenção.
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O país mantém um Plano Nacional de Eliminação da Malária, com a meta de interromper a transmissão local da doença até 2035. Uma vacina contra o P. vivax, caso tenha sua segurança e eficácia demonstradas ao longo do desenvolvimento, poderá acrescentar uma ferramenta às estratégias de controle do mosquito, diagnóstico e tratamento.