Setembro ainda é, normalmente, um mês de pouca chuva em Belo Horizonte. As primeiras pancadas mais frequentes costumam aparecer apenas no fim do mês. Neste ano, porém, o cenário está diferente. Em apenas 14 dias, a Região do Barreiro, em Belo Horizonte, já acumulou 155,2 milímetros, ou seja, 315,4% acima da média climatológica esperada para todo o mês.

A quantidade de chuva chama atenção não apenas pelo volume, mas pela frequência e intensidade dos temporais. Nesse domingo (13/9), a chuva veio acompanhada de ventos fortes e provocou estragos em diferentes pontos da regional. Na manhã desta segunda-feira (14), ainda era possível encontrar ruas com enxurradas e lama, imóveis atingidos e moradores tentando conter a entrada de água nas casas.

Diante do acumulado e da previsão de novas chuvas, a Região do Barreiro está sob alerta de risco geológico forte até esta quarta-feira (16/9). A condição indica possibilidade de ocorrências como deslizamentos de terra, quedas de muros e desabamentos em áreas mais vulneráveis.

Segundo o meteorologista Lizandro Gemiacki, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o comportamento deste mês é atípico porque frentes frias têm conseguido avançar mais para o norte de Minas Gerais e influenciar áreas que normalmente ainda estariam sob um padrão mais seco.

“Setembro normalmente ainda é um período de seca, então a climatologia de chuvas ainda é pequena. As primeiras pancadas normalmente começam mais para o final do mês”, explica.

Neste ano, porém, essas frentes frias chegaram à metade sul do estado e também influenciaram o Sul de Minas, o Triângulo Mineiro e a região Central, onde está Belo Horizonte. Lizandro afirma que ainda não é possível apontar uma causa climatológica única para o comportamento.

Por que o Barreiro recebe tanta chuva?

A presença das frentes frias ajuda a criar as condições para a chuva, mas não explica sozinha por que determinados pontos de Belo Horizonte recebem temporais mais intensos. No Barreiro, a resposta passa também pelas características do território.

Segundo Lizandro, a região sofre influência da área da Serra do Rola-Moça. O relevo interage com a circulação atmosférica, enquanto o aquecimento durante o dia contribui para a formação das chamadas áreas convectivas, associadas às pancadas mais fortes.

“Geralmente, para ter um evento de chuva assim, juntam-se condições de média e grande escala com condições locais”, afirma.

Ele explica que a combinação entre aquecimento, umidade e orografia (influência do relevo na atmosfera), associada à instabilidade de grande escala, pode favorecer chuvas mais intensas no Barreiro. Assim, não é apenas a presença de uma frente fria que explica o maior volume de chuva, mas a interação entre as condições locais, como as circulações de vale e montanha e o aquecimento diurno, e os sistemas atmosféricos de grande escala.

Temporal deixou rastro de destruição

A intensidade dessas chuvas ficou evidente no temporal de domingo. Na Vila Pinho, parte do telhado da Escola Municipal Vila Pinho foi arrancada pela força do vento e caiu na Rua José Francisco Pereira. As aulas e as atividades da unidade foram suspensas hoje. Equipes da Defesa Civil estiveram no local para avaliar os danos.

A força do vento também atingiu casas próximas. Moradora da região há 40 anos, a auxiliar de produção Silene Duarte, de 47, conta que estava em casa com outras cinco pessoas, entre elas quatro crianças, quando o temporal atingiu o imóvel.

“Parece que caiu um raio aqui dentro de casa. A gente estava jantando. Eu só conseguia acolher os meninos. E o telhado veio voando, tudo da escola e dos vizinhos, caiu tudo em cima da minha casa”, relata.

A água também invadiu a casa de Silene. Segundo a moradora, foi preciso quebrar parte do concreto do imóvel para permitir que a água acumulada pudesse escoar. Nas ruas próximas, restos de móveis ficaram espalhados após a inundação de outras residências.

Na Vila Santa Rita, parte da parede e do muro de uma empresa desabou na Rua Córrego Capão da Posse. Ninguém ficou ferido. Nesta segunda-feira, equipes da Prefeitura trabalhavam na limpeza do local.

No Tirol, a reportagem encontrou moradores ainda lidando com os efeitos do temporal. Na Rua José Moreira, uma enxurrada carregava água barrenta pela via, enquanto sacos de areia eram colocados nas entradas de casas para tentar conter a água. Em outro ponto, um homem tentava retirar uma telha presa à fiação de uma residência.

Os impactos se somam aos transtornos registrados na quinta-feira (10/9), quando o Barreiro também teve chuva muito forte, com alagamentos e veículos ilhados em vias como a Rua Sebastião Moreira e a Avenida Senador Levindo Coelho.

E a chuva vai parar?

Ainda não. A previsão indica que a instabilidade deve continuar nos próximos dias. Segundo Lizandro, Belo Horizonte terá chuva até quarta-feira (16/9).

Nesta segunda e terça-feira (15/9), a previsão é de céu nublado e chuva a qualquer hora. Na quarta, pode haver períodos de abertura e aumento da temperatura, mas o aquecimento associado à umidade pode provocar novas pancadas no fim da tarde e à noite.

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Essas pancadas podem vir acompanhadas de rajadas de vento, raios, trovões e granizo. Na quinta e sexta-feira, a tendência é de muita nebulosidade, com chuva fraca ou chuvisco ao longo dos dias.

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