O Natal de 2025 se aproximava quando o caminhoneiro Joelson Pereira Leite, de Montes Claros, se acidentou no trajeto de Cabo Santo Agostinho (PE) para Simões Filho (BA), pela BR-101. Depois que o caminhão tombou em uma curva, a 100 quilômetros do destino, a carga de ração para pets foi totalmente saqueada. O veículo teve perda total e o motorista, sem conseguir comprar outro, passou a trabalhar aos 50 anos como empregado no transporte de madeira. Mas o que foi um enorme prejuízo para Joelson está longe de ser uma situação isolada: além dos riscos para vidas, que não podem ser mensurados economicamente, acidentes com veículos de carga acarretam altos prejuízos para trabalhadores e empresas de transporte de mercadorias, gerando perdas diretas para a indústria, o setor agrícola e o comércio, onerando também o consumidor.
O transporte de cargas, fundamental para o escoamento de 65% das riquezas nacionais para portos, armazéns e pontos do comércio e da indústria, sofre com insuficiência de investimentos em segurança. Mais de 44% das mortes em rodovias federais do país nos últimos três anos e meio tiveram envolvimento de veículos pesados de transporte, segundo levantamento exclusivo divulgado pelo Estado de Minas ao longo da série de reportagens “Cargas de risco”.
Já no campo econômico, os sinistros nas rodovias federais brasileiras geraram, em 2025, um custo estimado de R$ 16,82 bilhões, segundo levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT) com base em dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Desse total, aproximadamente R$ 6,36 bilhões estão relacionados a acidentes com mortes, R$ 9,98 bilhões a acidentes com vítimas e R$ 480,5 milhões a ocorrências sem vítimas.
Diretora-executiva da CNT, Fernanda Rezende salienta que, embora não exista uma estimativa específica para o transporte rodoviário de cargas dentro desse universo, os impactos para o setor são significativos. “Como o modo rodoviário responde por cerca de 65% da movimentação de cargas do país, os acidentes provocam atrasos nas entregas, perdas de mercadorias, interrupções de rotas, aumento dos custos operacionais e dos seguros, além da indisponibilidade de veículos e motoristas”, explica.
Ela ressalta que os reflexos negativos atingem toda a cadeia produtiva do país. “Um acidente envolvendo caminhões pode comprometer o abastecimento de indústrias, centros de distribuição, supermercados e exportações, gerando prejuízos que ultrapassam os danos materiais imediatos”, exemplifica, ainda que o percentual de veículos de carga envolvidos em sinistros seja baixo em relação aos veículos leves e motocicletas.
Para as transportadoras, os custos da insegurança e dos acidentes vão muito além dos reparos nos caminhões envolvidos, destaca a diretora da CNT. “Entre as despesas diretas estão a recuperação ou substituição de veículos, o pagamento de franquias de seguro, indenizações, despesas médicas e trabalhistas, remoção de veículos e contratação de apoio operacional”, observa.
“Há ainda custos indiretos que podem ser ainda mais expressivos, como a perda ou avaria das mercadorias transportadas, atrasos na entrega, descumprimento de contratos, interrupção das operações, aumento do valor dos seguros e veículos parados para manutenção ou perícia. A transportadora perde capacidade operacional, reduz sua produtividade e pode precisar contratar serviços terceirizados para cumprir suas demandas”, relata.
Péssimas estradas
A Pesquisa CNT de Rodovias apontou que 62,1% da extensão rodoviária avaliada apresentou algum tipo de deficiência e que a infraestrutura precária reduz a eficiência logística e aumenta os custos operacionais para o transporte de cargas em cerca de 31,2%, comprometendo a competitividade do país.
Entre os principais gargalos verificados estão pavimentos desgastados, com buracos, deformações na pista, sinalização inadequada, acostamentos inexistentes, travessias urbanas congestionadas, pistas simples em corredores de grande movimentação, pontes estreitas e curvas acentuadas. “Além dos riscos à segurança, essas condições aumentam o consumo de combustível, o desgaste dos veículos e o tempo das viagens”, ressalta a diretora-executiva da CNT.
Fernanda Rezende destaca ainda que, como mostrou o Estado de Minas, a precariedade das rodovias contribui diretamente para os acidentes com veículos de carga. “Os condutores são particularmente sensíveis às condições da infraestrutura rodoviária. Pistas deterioradas, ausência de acostamentos, sinalização insuficiente, curvas perigosas e pontes estreitas reduzem as margens de segurança para a circulação dos veículos e, em especial, dos caminhões. Esses fatores aumentam o risco de saídas de pista, tombamentos, colisões e perda de controle do veículo”, pontua.
Riscos para a vida e a saúde financeira
Motoristas de caminhões e carretas envolvidos em desastres, quando não se tornam vítimas, passam meses sem trabalho devido aos danos parciais ou à perda total dos seus veículos. Foi o que comprovou o caminhoneiro Joelson Pereira Leite, natural de Montes Claros, no Norte de Minas, que aparece no início desta reportagem. “Quando ocorre o acidente, ficamos sem renda, mas os boletos continuam chegando e as despesas até aumentam”, afirma.
Após tombar na BR-101, no município de Alagoinhas (BA), em 2 de dezembro de 2025, o caminhão dele teve perda total. A seguradora reembolsou valor correspondente a 80% do veículo. Sem conseguir adquirir outro, dois meses depois Joelson voltou a trabalhar como motorista de carreta, mas como empregado, transportando madeira de eucalipto de Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, para o Nordeste do país.
O caminhoneiro afirma que, quando ocorreu o acidente, rodava a uma velocidade de 65 quilômetros por hora. “Sei que não tive culpa. Mesmo assim, sofri uma mudança drástica em minha vida”, relata. “Acidente com o caminhão na estrada é coisa que não desejo nem para o pior inimigo. A gente trabalha a vida inteira. Aí, quando acontece, em poucos segundos a gente perde tudo.”
Joelson enfrentou outra situação que amplia os prejuízos decorrentes dos acidentes: o saque. Ele conta que a carga de ração que transportava foi toda saqueada imediatamente após o caminhão tombar. Avaliada em R$ 480 mil, a mercadoria era segurada e a multinacional dona dos produtos foi ressarcida. O que não deixa de representar transtornos para a empresa e para o destinatário do material, além de onerar o custo geral do seguro.
Batida e ferimentos
Outro que amargou prejuízos – e não apenas financeiros – com desastre na estrada foi o caminhoneiro Ronie Alexandre Paz, de 43 anos, morador de Montes Claros. Em 4 de setembro de 2019, ele seguia de Recife para Betim, na Grande BH, com uma carga de peças para a fábrica da Fiat. Ao passar pela BR-030, entre Brumado e Guanambi, na Bahia, o caminhão bateu violentamente contra um carro pequeno que parou na pista.
Ronie sofreu fraturas no joelho e no fêmur de uma das pernas. Conseguiu se recuperar depois de seis meses de tratamento, mas os seus prejuízos foram elevados. “Tive que me desfazer de uma carreta para pagar as contas após o acidente”, conta. O caminhão, que teve perda total, tinha seguro, mas a seguradora demorou cinco meses para ressarcir o valor do bem, segundo o motorista, que só voltou ao trabalho na estrada sete meses depois, em outro caminhão, que adquiriu.
Transportando alimentos, bebidas e autopeças entre o Sudeste e o Nordeste, ele reclama que também sofre perdas financeiras frequentes com paralisações motivadas por desastres em rodovias, especialmente na BR-251 e na BR-116. “Já fiquei várias vezes parado na estrada por causa de acidentes”, relata.
Fontes de renda perdidas
Com 38 anos de trabalho na estrada, Paulo Sérgio Rocha, de 57, natural de São João do Paraíso, no Norte de Minas, foi vítima de dois tipos de ocorrências que elevam os riscos e as perdas financeiras no transporte de cargas: roubo e acidente. Ele conta que era proprietário de uma carreta, com a qual fazia transporte de cimento de Montes Claros, também no Norte mineiro, para Salvador.
Em meados de 2025, o veículo era dirigido por outro motorista quando teve um problema no motor. O caminhoneiro parou em um posto de combustíveis às margens da BR-116, no município de Águas Vermelhas, deixou a parte da carreta com a carga de cimento no estacionamento e seguiu com o cavalo mecânico para Vitória da Conquista (BA), a fim de consertar o veículo. Perto do destino, homens armados renderam o condutor e levaram o veículo de carga. O caminhoneiro foi colocado em um carro e liberado em Feira de Santana (BA), três dias depois.
Paulo Sérgio diz que a carreta, que custou R$ 670 mil, tinha seguro. Porém, a seguradora alegou que houve erro no registro da ocorrência policial e até hoje não pagou pelo roubo, afirma. O processo segue na Justiça.
O pequeno empresário e transportador conta que vendeu uma caminhonete Hilux e outros bens e adquiriu um caminhão Volvo, por R$ 510 mil. Mas, há cerca de três meses, o veículo se envolveu em um engavetamento, também na BR-116, entre Vitória da Conquista (BA) e Cândido Sales (BA), e não rodou mais. Continua no conserto, com despesa paga pela seguradora (uma cooperativa).
Sem poder rodar por conta própria, há dois meses Paulo Sérgio passou a trabalhar como empregado, no transporte de madeira de São João do Paraíso para Candeias, na Região Metropolitana de Salvador. “É muito difícil enfrentar o que passei com o roubo da carreta e o acidente com o caminhão. Numa situação dessa, se a gente não tiver a cabeça no lugar, acaba fazendo uma besteira”, declara o transportador, que é casado e pai de três filhos.
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A frota mineira
Segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), Minas Gerais tem uma das maiores frotas de veículos de carga do Brasil. O estado conta com aproximadamente 750 mil caminhões registrados. Quando são incluídos os caminhões-trator usados em combinações de veículos de carga, a frota supera
1 milhão de veículos destinados ao transporte de produtos. O setor de transporte rodoviário de cargas gera cerca de 138 mil empregos formais em Minas Gerais e movimenta mais de R$ 50 bilhões por ano, informa o sindicato do setor.
