“Aprendi a sonhar com esse forro. Sentia vontade de ver, de contemplar e não imaginava que eu seria um dos responsáveis pelo retorno dos fragmentos à capela hoje”, afirmou Maycon Ribeiro, fiel da paróquia e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Ritápolis, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais. Ele comemora o retorno dos fragmentos do forro original da Paróquia de Santa Rita de Cássia. As peças foram retiradas e vendidas na segunda metade da década de 1970 e, após o trabalho em conjunto de diferentes instâncias, foram localizadas e devolvidas ontem (16/7) à igreja, local que jamais deveriam ter saído. Cada peça mede, com a moldura, 1,68m de altura por 1,17m de largura.
A entrega das telas contou com a participação do pároco da capela Geraldo Sérgio França, membros da comunidade e por representantes do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) – órgão responsável por intermediar esse processo de devolução.
Desenhadas por Joaquim José da Natividade, por volta de 1800, as duas obras que representam Santo Agostinho e São Jerônimo foram encontradas no início de abril deste ano. Uma pessoa viu as telas em um antiquário em São Paulo e suspeitou que elas poderiam ser as partes faltantes da capela.
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Ela então entrou em contato com o artista Carlos Magno de Araújo – responsável pelas réplicas dos quadros instalados na paróquia –, que pediu apoio ao município. A intenção era reunir evidências que comprovassem que as pinturas de fato faziam parte do forro original da capela tombada pelo município e pertencente ao Núcleo Histórico de Ritápolis.
Maycon Ribeiro destacou que a retirada de obras do local era recorrente e que até mesmo alguns sacerdotes que passaram pela paróquia vendiam os itens para investir, ou não, na igreja. “Em 1998, foram roubadas as imagens de Santa Rita, São José, São Sebastião e São Manuel. As duas primeiras retornaram, as outras duas não foram recuperadas”, lamenta. “A de São Sebastião tinha um significado muito importante. Ela assistiu ao batismo de Tiradentes, na capela que recebia o seu nome, em Santa Rita do Riacho, onde é a atual Ritápolis”, conta.
Maycon nasceu em 2001 e, por isso, não conheceu as telas no forro original, apenas por meio das histórias contadas por quem um dia teve a oportunidade de ver. “As pessoas se lembravam do forro e falavam entusiasmados, com a esperança de um dia contemplá-lo novamente”, destacou.
Em 2020, o sacerdote da época solicitou que fosse feita uma réplica da pintura no forro, baseada em imagens fotográficas e em relatos orais de pessoas que haviam visto a pintura original. O responsável pela obra foi o artista Carlos Magno de Araújo.
A releitura das peças produzidas por Magno, assim como na obra original, Santa Rita de Cássia aparece sentada, enquanto recebe o estigma da Cruz de Cristo. Anjos compõem a cena. Nos quatro cantos estão representados os quatro doutores da Igreja: Santo Agostinho, São Jerônimo, Santo Ambrósio e São Gregório.
“Foi uma emoção indescritível receber essas peças hoje. Para mim, paroquiano, foi como uma benção, mesmo compreendendo o valor histórico por trás daquelas obras”, diz Maycon.
Ação do MP
A movimentação do Ministério Público para o resgate das telas começou a partir de uma denúncia feita à instituição, que acolheu a representação sobre “a comercialização do bem cultural integrado descaracterizado”. O setor técnico do órgão apurou as publicações do antiquário e viu que os bens estavam sendo vendidos presencialmente na capital paulista, no evento “SP - Arte 2026”, em abril deste ano no Parque do Ibirapuera.
"Ao comparar os bens à venda em evento presencial, no estande do antiquário, notamos significativa semelhança com imagens fotográficas obtidas do forro original", disse Paula Novais, historiadora, especialista em cultura e arte e conservadora-restauradora da Coordenadoria de Patrimônio Cultural (CPC) do MPMG.
O Ministério Público, então, fez uma recomendação ao comércio para retirar as postagens que faziam menção à venda das telas, catalogou os dados completos dos detentores das peças e os encaminhou à CPC.
Depois disso, foi feita uma reunião entre o órgão mineiro e os procuradores do antiquário, que informaram o desejo de doar as peças de volta à paróquia. Foi assinado um Termo de Compromisso em adesão à “Campanha Boa Fé” – iniciativa que estimula a devolução de bens, que foram retirados dos locais de origem.
As obras, primeiramente, foram entregues à CPC, que fez a avaliação e a conferência dos bens. As fotografias de monóculos antigos e as medições dos vazios deixados na igreja também foram alvo de estudos, assim como o contato com os representantes da comunidade de Ritápolis. A partir das análises, foram identificados padrões nas feições das figuras, na composição das cenas e nas escolhas de cores, que eram similares às das outras obras do autor. Pinturas feitas em São João del-Rei foram usadas como base comparativa.
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*Estagiário sob supervisão da editora Vera Schmitz
