O Bloco Babadan Banda de Rua denunciou, por meio das redes sociais, que o diretor musical e trompetista do coletivo, William Pajé, foi agredido por Camilo Gan, ex-membro do grupo, no fim de junho. Um boletim de ocorrência foi registrado na polícia.

Segundo a nota, o desentendimento de Gan com o bloco vem se estendendo desde seu desligamento em 2021. O ex-membro, por sua vez, afirmou que a versão do bloco é "apenas uma parte da história" e que a situação não deve ser analisada "por um único relato".

O caso ocorreu na última segunda-feira (29/6) no Samba do Arco. O evento geralmente acontece embaixo do Viaduto Santa Tereza, na Região Leste de Belo Horizonte, mas, na ocasião, foi realizado no Bairro Concórdia, na Região Nordeste da capital.

Segundo o relato do coletivo, o suspeito esperou William se afastar de outros membros do grupo para poder confrontá-lo com um empurrão. De acordo com testemunhas, o trompetista caiu no chão. Ele foi segurado por um segurança do bar Baticum até que Camilo chutou a boca da vítima. Ainda segundo a nota, o autor correu para dentro de um bar para fugir. 

O Baticum divulgou nota em que repudia os atos de violência física, verbal ou psicológica e reitera que a casa pauta as suas atividades pelos valores e respeito mútuo. Eles ressaltam que os atos ocorreram em via pública, fora das dependências internas do estabelecimento, o que foge do controle da administração local.

"Ademais, o profissional de segurança citado na narrativa dos fatos não integrava a equipe do Baticum na referida data, tampouco exercia qualquer função a comando ou em nosso benefício durante o evento", diz. "Cabe menção ao fato de que o portão do estabelecimento ficou aberto até a finalização do último show na rua, a fim de proporcionar maior conforto às mais de 700 pessoas que se fizeram presentes no evento. A livre circulação de pessoas no perímetro interno do bar se deu de forma pacífica, em atmosfera convivial", indicou a nota.

A Baticum informou que, em contato com a empresa de segurança, coletou as imagens para identificar os responsáveis pelo conflito e entregará, caso seja demandada, pelas autoridades responsáveis.

A reportagem também entrou em contato com a vítima e o bloco para saber possíveis motivações para o conflito, mas não obteve respostas até a publicação desta matéria.

O outro lado

Ao Estado de Minas, Camilo Gan relatou que William teria começado a discussão com um empurrão e que ele apenas reagiu. Outras pessoas se envolveram na briga para evitar maiores conflitos.

Ele detalhou que a relação dos dois se estendeu profissional e pessoalmente por anos, porém se deteriorou depois de sua expulsão do bloco. E disse que foi retirado do coletivo sem nenhum dos seus direitos garantidos, afirmando ser um dos fundadores, principalmente do caráter "afrobetizador" do movimento.

"Diante das circunstâncias que envolveram esse desligamento, decidi buscar, na esfera judicial, o reconhecimento dos meus direitos e propriedades intelectuais. Infelizmente, ao longo dos últimos anos, eu e algumas pessoas ligadas a mim fomos alvos de constantes provocações e ofensas", disse.

Em nota nas redes sociais, Gan esclarece que os desentendimentos entre ele e outros membros do coletivo são de conhecimento de muitas pessoas e começaram desde muito tempo. "Desentendimentos por que eu me senti lesado por inúmeros motivos que não vou listar aqui. Justamente por esse histórico, acredito que os fatos recentes não podem ser analisados de maneira isolada, desconsiderando todo o contexto que os antecede."

Nota de Camilo Gan sobre acusação de agressão Redes Sociais/Reprodução
Nota de Camilo Gan sobre acusação de agressão Redes Socias/Reprodução
Nota de Camilo Gan sobre acusação de agressão Redes Sociais/Reprodução

O artista finaliza a nota ressaltando que não alimentará discussões públicas sobre o ocorrido. "É importante lembrar que toda história possui diferentes versões, e a verdade somente pode ser construída a partir da análise completa dos acontecimentos, e não apenas de um único relato. Seguirei tratando esse assunto com responsabilidade, respeito e dentro dos limites da lei", conclui.

Já o coletivo enfatiza que adotará medidas judiciais e extrajudiciais para resguardar a integridade física e moral de seus membros. "Reafirmamos nosso compromisso com a cultura, o respeito, o diálogo e a convivência pacifica, valores que sempre nortearam a trajetória do coletivo", diz na nota.

Na publicação do bloco, diversas pessoas, incluindo músicos da cena de Belo Horizonte e perfis oficiais, como o da casa de show Autêntica, lamentaram o ocorrido e prestaram solidariedade ao coletivo.

Os envolvidos 

O Bloco Babadan Banda de Rua é presença marcante no carnaval de Belo Horizonte. Ele foi criado em 2018, e sua banda é composta por 30 músicos e uma ala de dança. O repertório inclui músicas de artistas mineiros e arranjos autorais, que passam por ritmos como samba, afrobeat, jazz, funk e soul. 

William Pajé, vítima da agressão, é diretor musical e trompetista do coletivo. Ele também participa do bloco de rua Então, Brilha! e acompanha a banda Lagum em turnê. 

Camilo Gan é figura presente na cultura belo-horizontina. Hoje ele participa do Bloco Afro Magia Negra, além do Samba do Terreiro como programador. Em 2024, representou o bloco em homenagem na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A solenidade, segundo a então deputada Beatriz Cerqueira (PT), ocorreu porque o bloco "arrastou o público com seus toques de tambores, trazendo para o carnaval a luta contra o racismo".

Ele também foi homenageado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com o título doutor honoris causa em 2022 pela contribuição à propagação da cultura negra na capital. Ele esteve ao lado de outros 51 guardiões da cultura preta, que eram artistas, praticantes de religiões de matriz africana, indígenas e autoridades do Reinado.

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*Estagiário sob supervisão do subeditor Thiago Prata

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