BH cria ruas em homenagem a Henry Borel e vítimas de feminicídio
Rua no Bairro Rio Branco homenageia menino cuja morte levou à criação de lei nacional de proteção à infância; Eliane de Grammont também é homenageada
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Seis ruas e uma praça ganharam novos nomes em Belo Horizonte. Publicadas no Diário Oficial do Município (Dom), as leis que estabelecem os novos endereços o menino Henry Borel, cuja morte deu origem a uma legislação nacional de proteção à infância, e duas mulheres ligadas vítimas da violência de gênero: Priscila Mundim e Eliane de Grammont.
As novas denominações atingem vias nos bairros Novo Tupi, Jardim Vitória, Novo Aarão Reis, Rio Branco, Vista do Sol e Jardim Felicidade. A maioria dos projetos foi apresentada pelo vereador Neném da Farmácia (MOBILIZA).
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Rua Henry Borel
A Lei nº 12.091 denomina como Rua Henry Borel a antiga Rua X, no Bairro Rio Branco, em Venda Nova. A norma homenageia Henry Borel Medeiros, menino que tinha apenas quatro anos quando morreu, em 8 de março de 2021, no Rio de Janeiro.
Inicialmente, o caso foi tratado como um possível acidente doméstico, mas os laudos do Instituto Médico-Legal apontaram uma realidade muito diferente. A criança apresentava 23 lesões espalhadas pelo corpo, incluindo fraturas, hemorragia interna e sinais de violência extrema incompatíveis com uma queda.
As investigações concluíram que Henry era vítima de agressões recorrentes dentro de casa. O então padrasto, o ex-vereador Dr. Jairinho, foi acusado de homicídio qualificado, tortura e coação no curso do processo. A mãe do menino, Monique Medeiros, também respondeu à Justiça por omissão.
O julgamento terminou em junho de 2026. Jairinho foi condenado a quase 44 anos de prisão por homicídio qualificado e tortura. Já Monique recebeu perdão judicial após o crime ser desclassificado para homicídio culposo por omissão na tortura.
A repercussão nacional levou à criação da Lei Henry Borel, que ampliou os mecanismos de proteção às crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica, estabelecendo protocolos de atendimento, medidas protetivas e reforçando a atuação integrada entre órgãos de saúde, assistência social, educação e segurança pública. O caso também motivou a criação do Instituto Henry Borel, dedicado ao acolhimento de crianças em situação de vulnerabilidade e à conscientização sobre a violência infantil.
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Rua Priscila Mundim
Outra homenagem que chama atenção é a criação da Rua Priscila Mundim, oficializada pela Lei nº 12.089. A antiga Rua 2469, no Bairro Jardim Vitória, na região Nordeste de BH, passa a levar o nome da auxiliar administrativa Priscila Azevedo Mundim.
Priscila tinha 46 anos quando foi assassinada, em agosto de 2025, dentro do apartamento onde morava, no Bairro Padre Eustáquio, Região Noroeste de Belo Horizonte. O corpo foi encontrado no quarto com sinais de espancamento e estrangulamento.
Rodrigo Caldas, policial penal afastado desde 2024 e namorado da vítima havia cerca de cinco meses, é acusado pelo crime. Em junho de 2026, a Justiça decidiu que ele vai a júri popular. Ele confessou ter matado Priscila e teve a prisão preventiva decretada dias após o crime, estando preso desde então.
O caso gerou forte comoção em Minas Gerais. Mãe de dois filhos – um jovem de 22 anos e uma menina de 10 –, Priscila era auxiliar administrativa em uma empresa no Bairro Camargos. Familiares a descreveram como uma mulher trabalhadora, generosa e extremamente dedicada aos filhos.
Antes de trabalhar na área administrativa, ela havia atuado como vendedora em shopping centers. Segundo familiares, foi justamente a relação de confiança construída por meio da família do namorado que fez com que ela acreditasse estar vivendo um relacionamento seguro.
Rua Eliane de Grammont
Já a Lei nº 12.093 transforma a antiga Rua 2, no Bairro Vista do Sol, na Região Nordeste de BH, em Rua Eliane de Grammont, resgatando uma das histórias mais marcantes da luta contra a violência de gênero no Brasil.
Cantora de MPB, Eliane tinha apenas 26 anos e era mãe de uma menina de um ano e oito meses quando foi assassinada durante um show, em 30 de março de 1981, pelo ex-marido, o cantor Lindomar Castilho, conhecido pelo sucesso "Você é doida demais", trilha sonora da série “Os normais”, da TV Globo.
Depois de colocar fim a um relacionamento marcado por ciúmes, agressões e controle sobre sua carreira artística, Eliane havia decidido retomar os palcos. Na madrugada do crime, ela se apresentava na boate Belle Époque, em São Paulo, interpretando a música "João e Maria", de Chico Buarque, quando Lindomar entrou armado e efetuou diversos disparos contra ela diante do público.
Mesmo socorrida, a cantora morreu a caminho do hospital. O músico Carlos Randall, que a acompanhava no palco, também foi baleado ao tentar impedir o ataque.
O julgamento, realizado em 1984, tornou-se um marco para o movimento feminista brasileiro. Do lado de fora do Tribunal de Justiça de São Paulo, manifestantes protestavam contra a cultura que culpabilizava mulheres assassinadas pelos próprios companheiros. Faixas com frases como "Não se mata quem dá a vida" e "Bolero de machão é só na prisão" marcaram o ato.
A defesa de Lindomar utilizou argumentos semelhantes aos empregados em outros casos famosos da época, tentando responsabilizar a própria vítima pelo crime. Ainda assim, ele foi condenado a 12 anos e dois meses de prisão. Cumpriu cerca de sete anos em regime fechado e deixou a prisão na década de 1990.
Décadas depois, o caso de Eliane continua sendo lembrado como um dos episódios que impulsionaram mudanças na forma como o Judiciário e a sociedade passaram a enxergar os assassinatos de mulheres motivados por relações de poder e violência de gênero.
A discussão iniciada naquela época contribuiu para o fortalecimento do movimento que, anos depois, culminaria na criação da Lei do Feminicídio e, posteriormente, na decisão do Supremo Tribunal Federal que proibiu o uso da tese da chamada "legítima defesa da honra" em julgamentos.
Outras homenagens
As novas leis também reconhecem trajetórias de dedicação à comunidade. A professora Iracema Prado da Silva dá nome à antiga Rua A, no Bairro Novo Tupi, na região Norte da capital. Durante cerca de 25 anos, promoveu acesso à educação para centenas de crianças, muitas delas oriundas de famílias em situação de vulnerabilidade.
O desembargador Geraldo Senra Delgado, falecido em 2016, passa a dar nome à antiga Rua Trinta e Nove, no Bairro Novo Aarão Reis, também na Região Norte.
No mesmo bairro, a antiga Praça 4292 agora se chama Praça Fabiano Floriano Menezes, em reconhecimento ao líder comunitário que atuou em projetos sociais voltados à promoção da saúde e ao apoio de famílias em situação de vulnerabilidade.
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Já a antiga Rua 41, no Bairro Jardim Felicidade, na Região Norte, passa a se chamar Rua Maria Costa de Jesus. Conhecida pela venda de salgados, Maria sustentou a família durante anos com seu trabalho e tornou-se uma figura bastante querida na comunidade. Além da homenagem, a mudança facilita a identificação da via, que anteriormente era conhecida apenas por sua numeração.