Um mês após o feminicídio ocorrido na Praça Manoel Bandeira, sob o Viaduto Murilo Rubião, no bairro Cidade Nova, em Belo Horizonte, a Polícia Civil concluiu que a vítima vivia sob um relacionamento marcado por controle excessivo, ciúme, possessividade e violência psicológica. Morta a tiros pelo marido enquanto praticava exercícios físicos na manhã de 17 de maio, a mulher já havia manifestado o desejo de se separar, mas enfrentava um companheiro que não aceitava o fim da relação. O crime deixou as duas filhas do casal órfãs.
As conclusões fazem parte do inquérito finalizado pela Polícia Civil e apresentado nesta quinta-feira (25/6). Embora o autor tenha morrido após o crime, a investigação reconstruiu a dinâmica dos fatos, apontou que o assassinato foi premeditado e identificou sinais de violência que, segundo os investigadores, antecederam o desfecho fatal.
Segundo a delegada Ariadne Elloise Coelho, responsável pelas investigações, o caso deixou um rastro de vítimas além da mulher assassinada.
"Temos duas meninas, uma adolescente e uma criança, que perderam a mãe e perderam o pai. Temos vítimas indiretas, a família da vítima e a família do autor também. É um caso muito grave e muito complicado", afirmou a delegada.
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As investigações apontaram que a empresária vivia um relacionamento marcado por violência psicológica, controle excessivo e ciúmes. Apesar de nunca ter procurado a polícia ou solicitado medida protetiva, familiares relataram que ela enfrentava uma rotina de restrições impostas pelo companheiro.
"O que a gente tem pelos depoimentos familiares é que ela vivia uma situação de violência psicológica muito grande. Ele controlava tudo, era extremamente possessivo, extremamente ciumento e não deixava que ela tivesse redes sociais ou qualquer tipo de interação social fora da relação", disse.
Segundo a Polícia Civil, a vítima já havia manifestado a familiares o desejo de encerrar o relacionamento de 16 anos. Os depoimentos também indicam que ela teria sofrido ameaças e relatado um episódio de violência sexual praticado pelo companheiro.
O inquérito concluiu que a ausência de registros formais não significava ausência de violência.
"Esse caso deixa muito evidente que o desfecho fatal nem sempre é precedido de registros formais. Não havia denúncia, não havia ocorrência policial, não havia medida protetiva. Isso não significa ausência de violência e não significa ausência de sofrimento por essa vítima", ressaltou a delegada.
Relembre o caso
O feminicídio ocorreu na manhã de 17 de maio. O casal morava em Sabará e tinha duas filhas, de 6 e 13 anos. Pessoas próximas descreviam os dois como discretos e afirmavam nunca ter presenciado discussões ou episódios de violência.
Naquele dia, a mulher praticava exercícios físicos na Praça Manoel Bandeira quando foi surpreendida pelo marido. Conforme a investigação, ela foi abordada de forma inesperada e sem qualquer possibilidade de defesa.
"Ela estava totalmente vulnerável. Adotou uma posição de rendição, levantou as mãos, e mesmo assim foi atingida por múltiplos disparos de arma de fogo", afirmou a investigadora.
Os laudos apontaram que a empresária sofreu 12 ferimentos provocados por projéteis. Os disparos atingiram principalmente regiões vitais, como coração, pulmões e fígado. Também houve ferimentos nos braços, compatíveis com uma reação instintiva de defesa.
Testemunhas relataram que o homem trocou o carregador da arma e continuou atirando contra a vítima antes de fugir do local.
Após o feminicídio, ele deixou um bilhete indicando onde estava o veículo utilizado na ação e caminhou cerca de 400 metros até a Rua João Gualberto Filho, no bairro Sagrada Família, onde foi encontrado morto pouco tempo depois.
Crime foi premeditado
Para a Polícia Civil, não há dúvidas de que o crime foi planejado. "A ação dele foi toda planejada. Foi premeditada", afirmou a delegada.
Segundo as investigações, antes do feminicídio o homem enviou mensagens para familiares e para grupos de convivência. Ele também escreveu uma carta manuscrita de seis páginas, na qual deixou orientações sobre o futuro das filhas, a destinação dos bens da família e sua interpretação sobre os motivos que o levaram a cometer o crime.
A corporação apreendeu o documento durante as investigações e analisou o conteúdo para compreender a dinâmica dos fatos.
Durante a coletiva, a delegada enfatizou que as justificativas apresentadas pelo autor na carta não interferem na caracterização do feminicídio. Segundo ela, o homem alegava uma suposta traição da companheira, situação que sequer foi comprovada.
"Existindo ou não, isso não ameniza, não atenua e não interfere no enquadramento legal. O que ocorreu foi um feminicídio", afirmou.
Ela ressaltou ainda que argumentos utilizados para justificar crimes contra mulheres não encontram respaldo na legislação brasileira.
A investigação também descartou qualquer participação de terceiros. Os exames toxicológico e de alcoolemia apresentaram resultado negativo, indicando que o autor não havia consumido álcool nem substâncias psicoativas antes dos fatos.
Para a investigadora, os laudos reforçam "a consciência, a tranquilidade, a premeditação e a ausência de participação de terceiros nessa situação".
Autor era CAC e portava duas armas
O homem possuía registro de CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) desde 2018.
No veículo utilizado por ele foram encontradas duas armas de fogo. Uma pistola calibre .38 TPC foi utilizada no feminicídio. Já uma pistola calibre .380 permaneceu no porta-malas e não chegou a ser usada.
Os policiais também localizaram munições e documentos relacionados ao transporte das armas.
Segundo a Polícia Civil, o autor portava guias de trânsito, documento que autoriza apenas o deslocamento entre a residência e o estande de tiro.
"Não era isso que estava acontecendo. O que temos aqui é um crime premeditado", destacou a delegada.
Alerta para sinais de violência
A delegada fez um alerta para que familiares, amigos e a sociedade estejam atentos aos sinais de violência psicológica, especialmente comportamentos de controle, isolamento, possessividade e ciúme excessivo.
"Muitas vezes esses sinais são naturalizados e confundidos com preocupação, afeto, pedidos de desculpas e promessas de mudança", afirmou.
Ela destacou que identificar esses comportamentos precocemente pode evitar tragédias.
"A sociedade tem que acolher sem julgamento, acreditar nos relatos dessas mulheres e orientá-las a buscar proteção. Quanto mais rápido a gente conseguir identificar esses sinais e pedir apoio, mais provável que a gente não chegue nesse desfecho fatal."
Os diferentes rostos da violência
A Lei Maria da Penha contempla cinco tipos de violências contra mulheres no âmbito conjugal e familiar, que vão muito além das agressões físicas:
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Violência física: atos que causam dano à integridade corporal, como espancamento, estrangulamento, queimaduras e uso de armas.
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Violência sexual: coação ou força para manter relações sexuais não consentidas, impedir o uso de contraceptivos ou forçar abortos.
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Violência psicológica: ações que causam dano emocional, diminuem a autoestima e controlam a mulher por meio de humilhações, ameaças, isolamento e perseguição.
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Violência patrimonial: controle abusivo sobre bens e recursos da mulher, destruição de documentos, privação econômica e danos a objetos pessoais.
- Violência moral: difamações, calúnias, injúrias e ataques à reputação e dignidade da mulher.
Onde buscar ajuda presencial
Além dos canais telefônicos, as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) são pontos físicos para registrar boletins de ocorrência e solicitar medidas protetivas de urgência. Quando não houver uma DEAM na cidade, qualquer delegacia de polícia tem a obrigação de registrar o caso.
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Após a denúncia, a vítima pode solicitar medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. Entre elas estão o afastamento do agressor do lar, a proibição de contato por qualquer meio e a suspensão da posse de arma de fogo. O pedido é feito na delegacia e encaminhado à Justiça, que analisa a solicitação com urgência.
