Antes de ser presa por falsidade ideológica em Santa Catarina, Amanda Maria Souza de Oliveira, 37 anos, aplicou o golpe de se passar por adolescente em várias cidades mineiras, inclusive em Belo Horizonte. Na capital, ela foi acolhida em uma casa de apoio do Projeto ComPaixão em 2017, onde chegou com cerca de duzentos ferimentos causados por agulhas.

Delma Soares, diretora do projeto, contou ao Estado de Minas que uma voluntária estava dando uma palestra sobre o trabalho de acolhimento e entregou cartões de visita para as pessoas ali presentes. Uma delas era Amanda. 

“Ela veio de uma demanda de uma adolescente em extrema pobreza, morando na rua, com o corpo cheio de feridas de agulhas. Independente da idade dela, se era adolescente ou não, eu fiz o acolhimento como eu acolheria qualquer outra mulher que viesse na minha instituição”, afirma Soares. 

Seguindo o protocolo de atendimento do projeto, nos primeiros dias foi providenciado o acolhimento inicial com alimentação adequada, roupas limpas e um local para dormir. De acordo com Delma, Amanda se apresentou como “Karol”, e contou que havia fugido de uma casa de prostituição onde era abusada sexualmente e torturada com agulhas de costura. Ela afirmou, que tinha catorze anos e não tinha documentos. 

Amanda tinha cerca de 200 agulhas inseridas em várias partes do corpo e alguns ferimentos estavam infeccionados. Por isso, ela foi levada para atendimento médico no Hospital Odilon Behrens. Ali, a questão da idade dela não foi um problema: “nenhum deles ficou impressionado com a idade. Tanto os médicos quanto os residentes ficaram impressionados que ela tinha mais de 200 agulhas no corpo. Mas ninguém se preocupou com a idade dela”.

Comportamento infantilizado

A diretora do projeto conta que Amanda apresentava comportamento compatível com uma pessoa no início da adolescência e usava principalmente roupas com personagens e laços no cabelo.

“Teve uma época que eu estava sem roupa de doação de adolescente. Aí ela não queria vestir roupas de adulto porque ela era adolescente. Ela gostava de se infantilizar em tudo, então a gente dava a ela blusa de bichinhos, arquinho, lacinhos, maquiagem, essas coisas que adolescente gosta”, diz.

Ela modelava também o jeito de falar e costumava chamar as responsáveis pelo ComPaixão de “tias” e usava um tom de voz mais fino, com gírias usadas pelos jovens. Entretanto, Delma acredita que Amanda vem se infantilizando cada vez mais, uma vez, que no caso de Santa Catarina, apresentava comportamentos compatíveis com os de uma criança. “Comigo ela não tomava mamadeira nem pedia Danone, nada desse comportamento tão infantilizado. Ela tinha um comportamento de adolescente”, conta Delma.

A diretora acredita que parte da história contada por Amanda seja real, o que explicaria o comportamento infantilizado. “Eu acredito que uma parte dessa história, de ter sido abusada e violentada, seja real. Que tenha sido tão cruel que ela permaneceu como criança”, reflete.

Falta de documentos

Delma conta que, em casos de abuso sexual ou de violência doméstica, é comum as mulheres não portarem seus documentos, uma vez que eles podem ter sido destruídos ou estarem com parceiros ou pais abusivos, justamente para dificultar que a vítima formalize uma denúncia. Por isso, o Projeto ComPaixão oferece o serviço de apoio para que as mulheres acolhidas tirem uma nova documentação junto à Polícia Civil.

Entretanto, Amanda enrolava e dizia que tinha medo de ir para o Conselho Tutelar e ser encontrada pelas pessoas que a levariam de volta à prostituição forçada. “Enquanto isso ela foi ficando com a gente. Eu tenho toda documentação, acionei a promotoria, levei o caso ao Conselho Tutelar. Eu fiz todos os trâmites legais”, afirma. “Legalmente, todos os órgãos competentes estavam cientes que ela estava aqui comigo”, completa.

Quando a situação ficava insustentável, Amanda fugia e, depois de um tempo, voltava. Essas idas e vindas dela na casa de apoio duraram cerca de dois anos, o que dificultou que descobrissem seu verdadeiro nome e idade.  

Suspeita 

Delma conta que, em alguns momentos, chegou a suspeitar que Amanda seria mais velha do que seu comportamento sugeria, mas não havia como provar. A certeza veio durante a estadia da suposta adolescente na casa dela em dezembro de 2018. 

Durante a época de Natal e Ano Novo, é comum que as crianças sejam apadrinhadas e passem as festas na casa de colaboradores do projeto. Nesse ano, todas menos Amanda foram escolhidas. Então, Delma decidiu levá-la para casa durante o período. 

Porém, um tio da diretora, que vivia em Vitória (ES), estava com o quadro de saúde muito delicado e ela precisou viajar para a cidade dele. Quando avisou a Amanda que ela precisaria voltar para a casa de acolhimento, a postura dela mudou drasticamente. 

“A fala e o comportamento dela foram de uma mulher adulta. Onde ela passava, ela quebrava as coisas da minha casa. E por ser gordinha ela é muito forte. Aí quando a Polícia Militar chegou ela incorporou de novo a adolescente”, relata.

Pouco tempo depois, Amanda foi embora do abrigo e Delma não teve notícias por quase dois anos, quando um colega, que é oficial de Justiça, contou-lhe que havia encontrado a certidão de nascimento da suposta adolescente e comprovado que ela, na verdade, era uma mulher de 31 anos.

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“Por um lado eu acho que ela tem que cumprir pena no sistema prisional pelos delitos que cometeu, afinal ela enganou muitas pessoas. Mas por outro lado, a gente tem uma mulher que passou por dezenas de instituições e nunca recebeu tratamento da saúde mental”, opina. 

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