Repórter especial do Estado de Minas/UAI (2011), com passagens por Folha de SP (stringer Europa 2011), Agora SP (2010-2011) e Hoje em Dia (2004-2010).
Sempre envolvido em grandes reportagens e séries em áreas como meio ambiente, segurança pública, tran
Canoistas, esportistas em caiaques e standup paddle navegam pelo espelho d'água da Barragem de Rio de Pedras. Reclamam das embarcações motorizadas crédito: Fernando Piancastelli/TantoExpresso
E uma das formas de trazer iniciativas que preservem o lago é com remos e navegando por ele. No domingo (7/6), ambientalistas e moradores da região participam do 1º Desafio Caboclo D'Água de Remo no Projeto Caboclo D'Água, às margens da Represa Rio de Pedras.
Promovido pela articulação entre Associação Sumo da Terra, CRALMG, Projeto Caboclo D'Água e Festival Das Montanhas e Águas de Minas, o evento incentiva a ocupação consciente e a preservação ambiental do território. O lago de Rio de Pedras está inserido na bacia do Rio das Velhas, um sistema responsável por fornecer mais de 60% da água consumida em Belo Horizonte e por suprir quase metade da demanda de toda a Região Metropolitana.
Voltado para a comunidade local, visitantes e atletas amadores, o desafio oferece aos participantes a prática segura de esportes náuticos aliada a uma programação cultural que inclui premiação, gastronomia e shows a partir das 16h, na Cervejaria Acuruí.
O objetivo seria trazer para a água os ambientalistas e os amantes de esportes de natureza para juntos buscar a preservação da represa de Rio de Pedras. “Vivemos uma situação delicada, sem ordenamento, com invasão de veículos náuticos. Então a ideia foi trazer o pessoal da bike, da escalada, da trilha para o esporte náutico, para que criem essa consciência de preservação das águas e o esporte possa seguir com condições”, afirma o canoísta e ativista Rodrigo de Angelis, idealizador do projeto Caboclo D’Água.
E a etapa pode ter sequências de provas em vários rios de Minas Gerais. “Fizemos uma em Lapinha da Serra para defender o espelho d'água. Queremos fazer mais etapas, como na Lagoa dos Ingleses, na represa de Taboão, em Santa Rita de Ouro Preto e outros mais”, afirma de Angelis.
O desafio foi estruturado sob o lema "Mais amor, menos motor". A iniciativa surge como uma resposta ao uso desordenado de embarcações motorizadas de alta potência, como lanchas e motos aquáticas, que agravam a degradação da lagoa nos últimos anos.
A passagem dos veículos motorizados gera ondas que impactam diretamente nas margens e barrancos do lago, trazendo riscos de desabamentos de várias áreas, entre elas áreas de preservação permanente (APP). As manobras e o empuxo desses motores aceleram o deslocamento de sedimentos e intensificam o assoreamento do espelho d'água.
Ao longo de sua história o lago perdeu boa parte de seu volume para o assoreamento devido a impactos históricos, como o desmatamento para a produção de carvão vegetal e a mineração predatória.
O reservatório possui um volume total de 604 mil m3, mas a maior parte do volume está ocupada por lama e sedimentos, sendo 286 mil m3 de água e 321 mil m3 de sedimentos.
Barragem da PCH Rio de Pedras, em Acuruí, distrito de Itabirito. Lago se encontra com cerca de 50% de sua extensão assoreada Leo Boi/TantoExpresso
Os promotores do evento cobram medidas práticas do poder público por meio de um abaixo-assinado direcionado à Prefeitura de Itabirito.
A administração municipal de Itabirito informou que o lago pertence à Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Rio de Pedras, da Âmbar Energia. “Desta forma, cabe à empresa estabelecer as normas e diretrizes para o uso do espelho d’água. Por se tratar de área privada, a prefeitura não possui competência para intervir na sua utilização, respeitados os limites legais”, informou a administração municipal.
A reportagem entrou em contato com a Âmbar Energia e aguarda um posicionamento da empresa sobre a circulação náutica e projetos ambientais.
Sobre os impactos em áreas de preservação, a prefeitura de Itabirito informou que “quaisquer intervenções em Áreas de Preservação Permanente (APP) estão sujeitas à prévia aprovação dos órgãos ambientais competentes. A realização de intervenções sem a devida autorização configura infração ambiental, passível de sanções, incluindo multa, conforme a legislação vigente”.
O grupo de ambientalistas e moradores reivindica a criação de regras específicas de uso da represa, a regulamentação do tráfego de embarcações motorizadas, a fiscalização rigorosa das normas da Marinha do Brasil e a delimitação de zonas seguras para banhistas e atividades a remo.
De acordo com os organizadores, o propósito não é impedir o uso do lago, mas assegurar que a convivência ocorra de forma responsável, protegendo o ecossistema e as práticas esportivas tradicionais.
Curso do Ribeirão Maracujá no distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto. Curso d'água corre entre rejeitos de mineração e leva sedimentos para o Rio das Velhas Leo Boi/TantoExpresso
A barragem foi construída com que propósito?
A proteção da Represa Rio de Pedras abrange também a manutenção de seu inestimável valor histórico e cultural. A planta foi projetada e erguida pela empresa Kemnitz com o objetivo de suprir a demanda energética da capital mineira no início do século passado.
Em sua inauguração, contava com uma estrutura de concreto de 10 metros de altura por 40 metros de extensão, operando com dois geradores que somavam 1.200 kW de potência.
Uma terceira unidade de mesma capacidade foi adicionada em 1914. Para expandir o potencial de geração, uma nova estrutura de barramento — com 32 metros de altura e mais de 148 metros de comprimento — começou a ser construída em 1923. Isso permitiu a ativação de um quarto gerador em 1925 e, posteriormente, de mais duas unidades entre 1928 e 1929.
Em 1961, as três máquinas originais da usina foram desativadas e vendidas para a Companhia Morro Velho. Desde então, o complexo opera apenas com as unidades remanescentes, que juntas atingem a potência atual.
A concessão e o controle da usina foram transferidos oficialmente para a Cemig em setembro de 1974, mas essa participação foi vendida para a Âmbar Energia em 2023.
A PCH Rio de Pedras possui um reservatório considerado como fio d’água, ou seja, não é capaz de regularizar vazões e as vazões defluentes (liberadas) são sempre do mesmo patamar das vazões afluentes (recebidas).
Em seu entorno, o distrito de Acuruí preserva mais de 300 anos de memória, com igrejas setecentistas e casarios que marcaram o trajeto da Estrada Real no século XVIII. O zelo pelo espelho d'água seria uma forma de defesa do patrimônio histórico e o fomento ao ecoturismo.
Para manter a coerência com as pautas ambientais defendidas, o desafio esportivo foi organizado exclusivamente com modalidades não motorizadas, garantindo o baixo impacto no ecossistema. As provas incluem canoagem K1, caiaque, canoa canadense, Stand Up Paddle (SUP) e remo olímpico, com trajetos demarcados, regras claras de segurança e exigência de coletes salva-vidas.
Reivindicações dos ambientalistas e moradores para a represa
Regulamentação do tráfego: ordenamento e imposição de regras para o uso de embarcações motorizadas de alta potência
Criação de normas específicas: estabelecimento de diretrizes claras para o uso seguro e sustentável do espelho d'água
Fiscalização das autoridades: atuação rigorosa com base nas normas regulamentadoras da Marinha do Brasil
Delimitação de zonas: separação de áreas exclusivas e seguras para banhistas e praticantes de atividades a remo
Proteção das margens: contenção do impacto de ondas geradas por motores nas Áreas de Preservação Permanente
Cronologia e impactos históricos no Lago de Rio de Pedras
Construção da estrutura: barramento edificado em 1908 com a finalidade de abastecer a recém-inaugurada capital mineira
Atividades predatórias: registro histórico de desmatamento para carvão vegetal e mineração que desencadearam processos erosivos
Degradação atual do reservatório: acúmulo de sedimentos vindos do Rio Maracujá que assorearam quase metade do volume útil
Mobilização social: realização do 1º Desafio Caboclo D'Água de Remo como ferramenta de conscientização ecológica em Acuruí