Poluição

De poluído a purificado: o papel dos afluentes nas águas do São Francisco

Rios que cortam a Grande BH são os maiores poluidores do São Francisco, enquanto águas vão para a Bahia mais limpas graças a afluentes do Norte e Noroeste de MG

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A situação dos afluentes da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco na última década foi decisiva para tornar a água que corre em Minas Gerais pior do que a que sai do estado para o Nordeste do Brasil. Sobretudo ao avaliar as quedas dramáticas de qualidade após o Velho Chico receber as águas de cursos como os rios das Velhas e Paraopeba, que são envenenados ao cruzar grandes centros urbanos. O Rio das Velhas tem a situação mais crítica, pois chega ao Velho Chico tendo suas águas reduzidas a uma situação de 100% de alta toxicidade e outros 100% de média qualidade de pureza. Ainda sofrendo com os impactos do rompimento da barragem de mineração em Brumadinho (2019), o Paraopeba concentra a maioria de suas águas com qualidade apenas média (91,1%) em um nível praticamente semelhante. Como mostrou reportagem do Estado de Minas na edição anterior, a média da calha principal do Velho Chico no estado não chega a reunir metade (46,9%) de suas amostras com qualidade boa. Mas, ao sair de Minas, ingressa na Bahia com esse nível de pureza em 80% das medições, 70% com baixa toxicidade e apenas 10% de carga considerada alta para produtos tóxicos. Os dados são de levantamento da reportagem do Estado de Minas a partir de parâmetros de qualidade e toxicidade das águas superficiais de 2015 a 2019 e de 2020 a 2024, em medições feitas pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). A recuperação na calha principal do São Francisco mostra o contraste regional. Afluentes no Noroeste e Norte de Minas Gerais como os rios Paracatu e Urucuia, ajudam a equilibrar a situação da bacia e a melhorar a qualidade da água que Minas entrega à Bahia rumo ao Nordeste brasileiro.

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Os parâmetros da condição do rio


Para mensurar a sanidade dos mananciais superficiais, é usado o Índice de Qualidade das Águas (IQA). Esse indicador cruza nove parâmetros físico-químicos e biológicos para atestar a condição dos recursos hídricos: a presença da bactéria de origem intestinalEscherichia colie os níveis deoxigênio dissolvido, pH, demanda bioquímica de oxigênio, nitratos, fosfato total, sólidos totais, variação da temperatura e turbidez. O enquadramento do IQA distribui os resultados em cinco faixas de avaliação: excelente, bom, médio, ruim ou muito ruim.


Já monitoramento de toxicidade afere a carga de substâncias tóxicas em poluentes críticos: chumbo, mercúrio, arsênio, bário, cádmio, zinco, cobre dissolvido e cromo total, somados aos cianetos, fenóis totais, nitrogênio amoniacal, nitrato e nitrito. O grau de comprometimento por toxicidade utiliza um critério de três níveis, classificando a presença de elementos nocivos como baixa (o melhor cenário), média ou alta (a pior condição).


De onde vem a maior poluição?


Por esses critérios, o pior tributário do São Francisco em Minas é o Rio das Velhas, que ao lado do Paracatu, Paraopeba, Pará e Urucuia são os maiores afluentes e as maiores sub-bacias do sistema. Mas essa situação não é assim em todo o curso. Em Ouro Preto, o Velhas nasce e percorre o município com análises de IQA de conceito bom em todo o período avaliado, passando a uma piora para a categoria de pureza mediana pouco antes do limite com Itabirito, quando flui para o lago da barragem da Pequena Central Hidrelétrica de Rio de Pedras, em Acuruí.


Na chegada a Sabará, antes da confluência com o Ribeirão Sabará, a qualidade ainda tem parâmetro médio, mas o índice alto de tóxicos salta de 40% das amostras entre 2015 e 2019, para 60%, de 2020 a 2024, indicando piora acentuada.


Na área Central, já com a contribuição do Ribeirão Sabará, nos últimos cinco anos de amostras (2020 a 2024), o conceito de toxicidade alta chegou a 20% das amostras, enquanto o índice de qualidade foi ruim em 40% delas, com os 60% restantes em nível médio.


Na mesma cidade, onde as águas do Ribeirão Arrudas entram no Rio das Velhas depois de drenar toda a sua sub-bacia em Belo Horizonte, a qualidade foi considerada ruim em todas as medições de todo o período avaliado, enquanto a concentração de tóxicos foi baixa.


Novo castigo na Grande BH


Já em Santa Luzia, após receber as águas do Ribeirão da Onça – que também drena áreas de Belo Horizonte como Venda Nova, Pampulha e a Região Norte – a qualidade das águas do Rio das Velhas foi ruim em cada amostra avaliada e a concentração de tóxicos foi alta em 40% das medições nos últimos cinco anos.


Em Lagoa Santa, depois da confluência do Córrego da Mata, o Velhas continua com qualidade ruim em todas as amostras avaliadas, mas com a concentração de tóxicos já baixa em 80% das medições dos últimos cinco anos e alta em 20% delas.


No último município da Grande BH por onde o rio passa, Pedro Leopoldo, pouco depois do Rio Jaboticatubas, na última década a qualidade medida foi ruim em 80% das amostragens e média em 20%, enquanto a toxicidade nos últimos cinco anos foi alta em 40% das medições e média em 40%.

Degradação rumo ao sertão das Gerais


Depois da Grande BH, a contaminação do Rio das Velhas segue intensa. Jequitibá, na Região Central, destino de boa parte do esgotamento de Sete Lagoas antes da estação de tratamento de esgoto local, apresentou no histórico todas as amostras da última década pesquisadas com altos índices de toxicidade.

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O mesmo ocorre mais de 30 quilômetros adiante (em linha reta), em Cordisburgo, novamente em Inimutaba, 33 quilômetros depois, e outra vez em Curvelo (a 36 quilômetros), Santo Hipólito (a 22 quilômetros), Augusto de Lima (a 34 quilômetros), Lassance (a 45 quilômetros) e Várzea da Palma (a 36 quilômetros), onde o Velhas deságua no Rio São Francisco, em Barra do Guaicuí, onde o nívelalto de tóxicos é de 100%, assim como o índice médio de qualidade da água.

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