De segunda a sexta, os trens do metrô de Belo Horizonte fazem, aproximadamente, 220 viagens por dia. Esse vaivém constante passa rente à casa de Maria Aparecida Teles de Oliveira, de 52 anos: o imóvel, localizado no Bairro Primeiro de Maio, na Região Norte da capital, chega a tremer com o deslocamento das composições. O resultado pode ser visto nas paredes da residência, especialmente nas dos fundos, que estão mais próximas à linha e apresentam muitas trincas.
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No presente momento, a moradora, a filha e três netos que vivem com ela estão impedidos de usar um dos banheiros, que foi interditado pela Defesa Civil do Município. Além disso, o muro que separa o terreno dos trilhos também corre risco de desabamento. Maria Aparecida, que reside no local há 32 anos, relata que esses problemas começaram justamente após uma obra de expansão do metrô em 2002, que fez a Linha 1 passar pelos fundos do imóvel.
As obras, concluídas 24 anos atrás, levaram o metrô do Minas Shopping até a Estação Vilarinho e incluíram a construção de um túnel, cuja extremidade pode ser vista do terraço da casa de Maria Aparecida. De acordo com ela, a abertura da estrutura subterrânea demandou uso de dinamite, que causou os primeiros danos ao imóvel. “Quando começaram as explosões, minha cozinha veio abaixo. Na época, meus filhos estavam todos pequenininhos”, lembra.
A moradora relata que, após o desabamento da cozinha, recebeu uma indenização parcial, que cobriu a reconstrução do primeiro pavimento da residência. Desde então, porém, surgiram outros abalos que agora exigirão uma nova obra de reparação: “com o passar dos anos, as trincas vieram aparecendo”, relata.
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'É desesperador'
Apesar de estar um pouco mais distante da linha, a residência da líder comunitária Núbia Botelho Pereira, de 41 anos, também está repleta de trincas, que vão crescendo em ritmo lento, mas contínuo. Além dos próprios aposentos e os de seis familiares, a casa ainda abriga um buffet de festas, do qual ela tira o próprio sustento cozinhando salgados e outros quitutes. Ela relata que, quando adquiriu o imóvel, há cerca de cinco anos, uma reforma havia encoberto as fissuras, o que fez com que o problema não fosse percebido de imediato.
Após notar o crescimento das rachaduras, a moradora contratou uma perita. "Ela fez a perícia, constatou a trepidação que estava tendo e que, provavelmente, por causa dessa trepidação, estava ocorrendo esse abalo (a ponto) de trincar a casa", diz. Núbia, assim como Maria Aparecida, reclama de inépcia por parte da concessionária. "A gente vem tentando contato com o pessoal do metrô, mas a gente não conseguiu. Tentamos via e-mail, tentamos via regional, tentamos via audiência pública, enfim, de nenhuma das formas a gente conseguiu", lamenta.
Em virtude das rachaduras, que além das paredes atingem até pilares e pisos, a líder comunitária também acionou a Defesa Civil, mas, durante uma vistoria realizada há cerca de dois meses, foi comunicada de que o local é seguro. O imóvel ainda foi inspecionado por um técnico da Metrô BH, que, do mesmo modo, não detectou riscos. “Veio o engenheiro deles aqui: ele falou comigo para passar um gesso nas trincas, que o gesso iria resolver”, salienta.
Por sua vez, Núbia teme os efeitos de longo prazo causados pela vibração decorrente da passagem dos trens. “A gente fica aqui com medo de acontecer algo mais grave, porque o período chuvoso está chegando de novo; a gente está sem saber o que fazer e para onde correr”, lamenta. “É desesperador”, complementa.
Medidas
Temerosos com a situação, um grupo de moradores do Bairro Primeiro de Maio, que inclui Núbia e Maria Aparecida, acionou a Justiça para cobrar a reparação dos danos. Além dos abalos nos próprios imóveis, eles reclamam ainda da falta de diálogo com a concessionária Metrô BH, responsável pelo modal de transporte.
No último dia 19, uma terça-feira, os moradores participaram de uma audiência pública realizada pela Comissão de Direitos Humanos, Habitação, Igualdade Racial e Defesa do Consumidor da Câmara Municipal de Belo Horizonte, a pedido do vereador Bruno Miranda (PDT). Na ocasião, foi combinado que os residentes enviariam uma listagem completa dos imóveis danificados à Defesa Civil do Município. Já o parlamentar se comprometeu a cobrar um posicionamento da concessionária Metrô BH, que não enviou representante à sessão.
O que diz a Metrô BH
Procurada pela reportagem do Estado de Minas, a concessionária Metrô BH enviou uma nota, publicada, na íntegra, a seguir:
O Metrô BH informa que não há, até o presente momento, qualquer laudo técnico ou parecer emitido por órgão competente que atribua à operação do sistema metroviário a responsabilidade pelos danos alegados por moradores da região mencionada.
É importante destacar que a Linha 1 opera neste trecho há mais de 20 anos, sem registros anteriores de questionamentos dessa natureza relacionados à operação metroviária. Da mesma forma, o sistema metroviário opera há décadas em outras regiões de Belo Horizonte e da Região Metropolitana, inclusive em áreas densamente urbanizadas, sem que haja conclusão técnica associando a operação regular do metrô a danos estruturais em imóveis do entorno.
O que diz a Prefeitura de BH
Também consultada pela reportagem, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) informou que a Defesa Civil Municipal realizou, no dia 26 de março de 2026, uma vistoria de risco e danos no imóvel de Núbia, no Bairro Primeiro de Maio. "Durante a avaliação técnica, foram constatadas fissuras, trincas e desplacamento de revestimentos, incluindo reboco, massa e gesso, em paredes, teto e piso do imóvel. De acordo com a vistoria, trata-se de situação de baixo risco."
Quanto à residência de Maria Aparecida, a PBH afirma não ter identificado chamados. "Apenas este imóvel (o de Núbia) solicitou vistoria de risco e danos junto à Defesa Civil."
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Ainda segundo a PBH, "durante a audiência pública, a Defesa Civil se colocou à disposição para realização de novas vistorias, e os moradores informaram que irão repassar à comissão da Câmara Municipal possíveis endereços para novas solicitações de avaliação técnica."
