EXPEDIÇÃO RIO PARÁ

MG: perda de mata ciliar aumentou 38% no Rio Pará

Derrubada de matas ciliares atinge sobretudo áreas em regeneração. Expedição percorre o curso d'água para denunciar pressões ambientais

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Depois de ter suas florestas originárias praticamente dizimadas nas suas margens desde os anos 1980 e de declínio nas demais décadas, pela primeira vez, a década de 2020 (até 2024) registrou novamente aumento da derrubada da mata ciliar do Rio Pará.

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Na década de 2010, a média de desmatamento dentro das Áeas de Proteção Permanente (APP) e ao longo do rio era de quatro hectares (ha) ao ano.

O ritmo na década atual, de 2020 a 2024, se intensificou, saltando 37,5%, média de 5,5 ha ceifados das barrancas do rio a cada ano.

Os dados de desmatamento ao longo do curso principal do Rio Pará são da rede de universidades, institutos e ONGs Mapbiomas, compilado pela reportagem do Estado de Minas no período de 1987 e 2024.

Mas essa pressão sobre as matas não ocorre sem oposição. A luta contra o desmatamento e a conscientização pela preservação do manancial são bandeiras presentes na Expedição Rio Pará Vivo 2026, que percorre o curso d'água da nascente à foz com caiaques, desde o último 11 de maio até este sábado (16/5), como ação do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Pará.




As matas ciliares ou ripárias "são responsáveis por manter em equilíbrio a conservação e funcionamento das bacias hidrográficas, a manutenção da biodiversidade, proteção do solo contra a erosão, constituí fonte de alimento e pode contribuir para o equilíbrio climático", segundo definição dada no VIII Congresso Brasileiro de Gestão Ambiental (2017).

Os dados do MapBiomas ajustados para as bordas do manancial mostram que durante três décadas o Rio Pará respirou com um pouco mais de alívio. A média de matas ciliares suprimidas caiu de 22,9 ha/ano nos anos 1980, para 15,4 nos anos 1990, 7,6 nos anos 2000, até atingir o seu mínimo histórico de 4 ha/ano na década passada (2010).

Contudo, o ritmo de devastação não apenas aumentou como um todo, mas está atuando na mata primária e impedindo a que foi devastada de se regenerar.

Enquanto nos anos 1980 não se cortava mata secundária (muito ainda era floresta original), na década de 1990, a mata secundária representava cerca de 25% da média anual desmatada. Nos anos 2000, o percentual pulou para 34%.

Na atual década (2020-2024), quase 40% (2,1 ha de 5,5 ha) do desmatamento ciliar anual é sobre florestas em regeneração. O restante, 60%, continua a mirar o pouco de mata virgem ainda de pé.


Quais os trechos onde o desmatamento mais preocupa?

A passagem do Rio Pará por Desterro de Entre Rios é onde essa perda mais avançou, chegando a 352% de ampliação, de uma média de desmatamento de 0,27 ha/ano (2,7 ha total), de 2010 a 2019, a 1,22 ha/ano (6,1 ha total), entre 2020 e 2024.

Observando áreas mais expressivas, o segmento mais crítico de rio é o de Cláudio, Carmo do Cajuru e Divinópolis, onde a média subiu de 2,07 ha/ano (20,7 ha total) para 2,54 ha/ano (12,7 ha total) no mesmo período de comparação. Supressão ampliada em 22,7%.

E um segmento que é marco histórico do desmatamento voltou a registrar aumento expressivo, ainda que de área pequena.

O trecho onde passa a Expedição Rio Pará Vivo 2026 voltou a ter pressão de desmatamento da mata, em Matinho Campos
O trecho final, pouco antes da foz no Rio São Francisco, entre Martinho Campos e Pompéu ampliou o desmatamento ciliar de 0,29 ha/ano (2,9 ha total), para 0,60 ha/ano (3 ha total), volume 106,9% mais ativo na década Tanto Expresso/CBH do Rio Pará


É uma área que pode parecer pequena. Mas o agravante está no histórico.

Na década de 1990, o segmento entre Martinho Campos e Pompéu foi o epicentro da devastação ciliar do Rio Pará.

Em apenas 10 anos, as margens deste baixo curso sofreram uma supressão de 50 ha totais de vegetação, sendo 35,9 ha (72%) de matas primárias que protegiam o leito originalmente.

Só entre 1995 e 1998, as motosserras varreram mais de 40 hectares de matas ciliares virgens e em regeneração neste curto trecho.

Após essa devastação profunda, os índices de desmatamento no trecho despencaram para números irrisórios nas duas décadas seguintes (anos 2000 e 2010).

No entanto, isso não significou uma vitória da preservação, mas a consolidação de um passivo ambiental crônico: a fronteira de ocupação já havia avançado de forma tão massiva até a beira da água que restaram poucas áreas florestais para serem derrubadas.

Um sinal de alerta do aumento atual na década de 2020 é que a pressão recomeçou justamente sobre a vegetação que tentava cicatrizar a velha ferida.

Quase a totalidade (97%) dos 3 hectares destruídos recentemente – impulsionados por picos nos anos de 2021 e 2023 – é composta pelo corte de matas secundárias.

A poucos quilômetros de despejar suas águas na foz do Rio São Francisco, o Rio Pará está sendo impedido de recuperar suas margens.

O segmento de Martinho Campos é justamente onde passam nesta sexta-feira (15/05), os expedicionários que remam pela preservação na Expedição Rio Pará Vivo 2026. Um local emblemático do ponto de vista do desmatamento.

Indígenas da tribo Kaxixó de Martinho Campos recepcionaram na sua aldeia a equipe da Expedição Rio Pará Vivo 2026
Indígenas da tribo Kaxixó de Martinho Campos recepcionaram na sua aldeia a equipe da Expedição Rio Pará Vivo 2026 Tanto Expresso/ CBH do Rio Pará

Além da preservação das matas ciliares do Rio Pará, a expedição também traz um olhar de preocupação para as condições dos indígenas Kaxixó, que são habitantes de três aldeias ribeirinhas, somando cerca de 400 pessoas, das quais 108 nas aldeias.

"Queremos mostrar para as pessoas a real situação dos indígenas. Dar essa visibilidade para os problemas que enfrentam por causa da pressão sobre as suas terras e sobre o rio. Tudo isso impacta neles que são os habitantes mais antigos, de centenas de anos. Queremos dar mais voz a eles para que nos juntemos. Porque eles já são defensores por natureza", disse o presidente do CBH do Rio Pará, José Hermano Oliveira Franco.

Os indígenas contam que eram povos inicialmente nômades que vagavam entre os rios Pará e Paraopeba, mas que os Kaxixós escolheram as margens do Pará para se fixarem.

O povo foi perdendo espaço para grandes fazendas que desmatavam as matas para o plantio e criação de gado. O Rio Pará, chamado de Mãe por eles, se tornou a principal fonte de sustento.

Um dos problemas que vêm enfrentando é a pesca predatória no Rio Pará, que faz com que a comunidade tenha dificuldade em achar peixes.

Em Martinho Campos, a expedição chega ao seu quinto e penúltimo dia com uma programação especial na Reserva Indígena Kaxixó, na comunidade Capão do Zezinho.

O evento de recepção reúne a comunidade indígena, instituições e visitantes em um momento de valorização cultural, integração e conscientização ambiental.

Contará com rituais e manifestações culturais do povo Kaxixó, proporcionando uma vivência direta com saberes ancestrais, tradições e a relação histórica da comunidade com o território e os recursos naturais.

A programação inclui ainda apresentação de alunos da E.E. Indígena Caxixó Taoca Sergia, além de visita ao Memorial Cacique Djalma, espaço de preservação da memória local.

Outro destaque é o Programa de Saneamento Rural, recentemente iniciado na Reserva Indígena Kaxixó, que beneficiará, nesta primeira etapa, 31 residências com sistemas individuais de tratamento de esgoto.

O público também poderá participar de momentos de convivência com degustação de comidas típicas e apreciação do artesanato local.

A expedição já passou por Resende Costa, Passa Tempo, Carmo do Cajuru, Divinópolis, Pitangui/Conceição do Pará e rumará neste sábado para a foz, em Pompéu, onde se encerra a canoagem.

O perfil de degradação da Bacia do Rio Pará como um todo sofreu uma inversão histórica ao longo das décadas, passando da destruição em massa de matas virgens para o sufocamento crônico das áreas em regeneração.

Enquanto no final dos anos 1980 o ecossistema perdia uma média alarmante de cerca de 8.802 hectares anuais de floresta primária – o que representava praticamente 100% de todo o desmatamento na época –, a década atual (2020 a 2024) consolidou uma nova e preocupante dinâmica em que as matas secundárias respondem por aproximadamente 63,4% de todas as áreas suprimidas.

Hoje, a bacia perde em média 1.191 hectares por ano de vegetação em recuperação, contra 687 hectares anuais de mata original, o que significa que a derrubada das florestas que tentam cicatrizar e restaurar a saúde hídrica da região é 73% maior (quase o dobro) do que o corte primário atual, aprisionando o ecossistema em um implacável ciclo contínuo de "re-desmatamento".

Pressão nas margens

Desmatamento acelerou na última década contra mata ciliar do Rio Pará

1. Desterro de Entre Rios
Média 2010-2019: 0,02 ha/ano (0,2 ha total)
Média 2020-2024: 0,00 ha/ano (0 ha total)
Situação: Queda de 100% (Zerou o desmatamento na década atual)

2. Passa Tempo (MG)
Média 2010-2019: 0,27 ha/ano (2,7 ha total)
Média 2020-2024: 1,22 ha/ano (6,1 ha total)
Situação: Aumento brutal de 351,8%. Um dos principais focos de piora atual na bacia

3. Piracema (MG) / Carmópolis de Minas (MG)
Média 2010-2019: 0,01 ha/ano (0,1 ha total)
Média 2020-2024: 0,00 ha/ano
Situação: Queda de 100% (O "santuário" zerou completamente na atual década)

4. Carmópolis de Minas (MG) / Itaguara (MG)
Média 2010-2019: 0,00 ha/ano
Média 2020-2024: 0,00 ha/ano
Situação: Estável. Segue 100% preservado nos últimos 15 anos

5. Itaguara (MG) / Cláudio (MG)
Média 2010-2019: 0,05 ha/ano (0,5 ha total)
Média 2020-2024: 0,00 ha/ano
Situação: Queda de 100% (Zerou na década atual)

6. Cláudio (MG) / Carmo do Cajuru (MG) / Divinópolis (MG)
Média 2010-2019: 2,07 ha/ano (20,7 ha total)
Média 2020-2024: 2,54 ha/ano (12,7 ha total)
Situação: Aumento de 22,7%. É o trecho com o maior volume absoluto contínuo de supressão atual, engolindo mais de 2 hectares e meio por ano nos dias de hoje

7. Carmo do Cajuru (MG) / Divinópolis (MG)
Média 2010-2019: 0,00 ha/ano
Média 2020-2024: 0,00 ha/ano
Situação: Estável e exemplar, mantém intacto sem perder um único hectare desde os anos 80

8. Divinópolis (MG) / São Gonçalo do Pará (MG)
Média 2010-2019: 0,53 ha/ano (5,3 ha total)
Média 2020-2024: 0,22 ha/ano (1,1 ha total)
Situação: Queda de 58,5%. Este trecho, que já foi o mais devastado nos anos 80, continua diminuindo seu ritmo de supressão

9. São Gonçalo do Pará (MG) / Nova Serrana (MG) / Conceição do Pará (MG)
Média 2010-2019: 0,00 ha/ano
Média 2020-2024: 0,64 ha/ano (3,2 ha destruídos num único evento em 2020)
Situação: Salto percentual extremo. Passou de zero corte na década inteira passada para registrar um impacto súbito no início da década atual

10. Conceição do Pará (MG) / Pitangui (MG)
Média 2010-2019: 0,23 ha/ano (2,3 ha total)
Média 2020-2024: 0,02 ha/ano (0,1 ha total)
Situação: Queda drástica de 91,3%

11. Pitangui (MG) / Leandro Ferreira (MG)
Média 2010-2019: 0,28 ha/ano (2,8 ha total)
Média 2020-2024: 0,00 ha/ano
Situação: Queda de 100% (Zerou o desmatamento na década atual)

12. Pitangui (MG) / Martinho Campos (MG)
Média 2010-2019: 0,28 ha/ano (2,8 ha total)
Média 2020-2024: 0,24 ha/ano (1,2 ha total)
Situação: Discreta queda de 14,3%. Margens praticamente estabilizadas

13. Martinho Campos (MG) / Pompéu (MG)
Média 2010-2019: 0,29 ha/ano (2,9 ha total)
Média 2020-2024: 0,60 ha/ano (3,0 ha total)
Situação: Aumento expressivo de 106,9%. O fim do rio (baixo curso) dobrou o ritmo de perda de margens na atual década em relação à década anterior

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Importância das matas ciliares

  • Proteção do solo: evita processos de erosão e assoreamento dos rios
  • Filtro biológico: retém poluentes e sedimentos antes de atingirem a água
  • Corredores ecológicos: permite o deslocamento da fauna e preserva a biodiversidade
  • Equilíbrio térmico: ajuda a manter a temperatura da água e o microclima regional
  • Fonte de alimento: provê recursos essenciais para espécies aquáticas e terrestres 

Etapas da Expedição Rio Pará Vivo 2026

  • Início na nascente (11/05): marcação simbólica do início do curso d'água em Resende Costa
  • Percurso de canoagem (12/06): travessia de trechos críticos em Carmo do Cajuru
  • Travessia poluída em Divinópolis (13/05): expedição rema com equipamentos de proteção para denunciar contaminação do Rio Itapecerica, afluente do Pará
  • Domínio da Pesca (14/05): Em Conceição do Pará e em Pitangui aparecem pescadores em barcos, nos ranchos e barrancas
  • Encontro com comunidades (15/05): em Martinho Campos a comunidade indígena Kaxixó tem valorização cultural
  • Encerramento na foz (16/06): chegada ao Rio São Francisco no município de Pompéu

Fontes: MapBiomas e CBH do Rio Pará

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