Repórter especial do Estado de Minas/UAI (2011), com passagens por Folha de SP (stringer Europa 2011), Agora SP (2010-2011) e Hoje em Dia (2004-2010).
Sempre envolvido em grandes reportagens e séries em áreas como meio ambiente, segurança pública, tran
Remadores da expedição do Rio Pará percorrem um dos trechos mais poluídos utilizando equipamentos de proteção individual para não terem contato com a água do afluente Rio Itapecerica crédito: Tanto Expresso/CBH do Rio Pará
O uso de equipamentos de proteção individuais para remar mostra que a navegação considerada difícil na Bacia Hidrográfica do Rio Pará é apenas parte dos desafios. Isso porque há águas com índices críticos de poluentes. Ameaças reais à saúde humana e ao meio ambiente em curso d’água que vai sendo envenenado aos poucos, como mostra a reportagem do Estado de Minas.
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A integridade do Rio Pará é degradada desde o início do manancial, onde não há índices bons de qualidade da água nas estações de controle ambiental. Mas a contaminação tóxica se torna crítica nos trechos do Centro-Oeste de Minas Gerais. Depois de Divinópolis - onde esgoto e fertilizantes fazem proliferar aguapés -, em Nova Serrana e São Gonçalo do Pará, o índice de toxicidade da água foi alto em 60% das amostras da última década.
Arriscando a própria saúde, nesta quarta-feira (13/05), os caiaqueiros da Expedição Rio Pará Vivo 2026 do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Pará enfrentam esses perigos para soltar um grito de socorro dentro do trecho mais envenenado do Rio Itapecerica, um dos afluentes mais contaminados do Rio Pará e a partir do qual as águas do manancial se degradam dramaticamente.
Os equipamentos tentam minimizar o contato direto e a ingestão das águas repletas de esgotos, implementos nocivos e efluentes da indústria. Em 2009, na expedição pelo Rio das Velhas, um dos remadores contraiu leptospirose (doença bacteriana na urina de ratos) no trecho de Sabará e precisou ser hospitalizado em estado grave.
“Divinópolis é um dos grandes desafios. Precisamos navegar inclusive de EPI, pois passaremos em uma cidade com quase 250 mil habitantes sem tratamento de esgoto e nem aterro sanitário. Queremos chamar a atenção para essa que é a cidade mais desenvolvida da região e precisa avançar nessa questão ambiental. Isso vai refletir em uma melhora para a bacia do Rio Pará, na saúde das pessoas e do ambiente”, disse o presidente do CBH, José Hermano Oliveira Franco.
A expedição começou na área da nascente, em Resende Costa, na segunda-feira (11/05) e será concluída na foz, em Pompéu, no sábado (16/05), passando por Passa Tempo, Carmo do Cajuru, Divinópolis, Pitangui, Conceição do Pará e Martinho Campos. Em todas as paradas há intervenções educativas e ações concretas de melhoria do saneamento, saúde e meio ambiente.
Em Divinópolis, maior cidade da bacia, a programação inclui a análise da qualidade da água realizada por técnicos da UEMG, evidenciando os desafios relacionados à poluição hídrica e ao tratamento de esgoto. Também será assinada cooperação para implantação do Programa de Saneamento Rural na comunidade de Branquinhos, com previsão de 44 soluções individuais.
Ponto a ponto a qualidade e níveis tóxicos do Rio Pará. Fonte: Igam Mateus Parreiras/EM/D.A.Press
Qual a situação da poluição nos trechos do Rio Pará?
Por meio dos registros de Índices de Qualidade da Água (medição de bactérias de esgotos, nitratos, fosfato, oxigênio dissolvido, entre outros) e de contaminação por tóxicos (13 contaminantes e metais pesados como chumbo, mercúrio, arsênio e outros) do Rio Pará e de seus afluentes, a reportagem do EM mostra quais são as áreas de poluição mais elevada, mas destaca também que o grito de socorro dos ambientalistas se arriscando dentro do rio não é em vão, uma vez que o manancial consegue se recuperar quando o envenenamento cessa.
Os dados são das estações do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), e foram colhidos entre 2015 e 2024.
A primeira estação ativa na pesquisa fica em Passa Tempo, primeiro município após a nascente e onde se iniciou o Projeto de Mapeamento da Navegabilidade do Rio Pará. A medição foi feita próxima ao limite com Desterro de Entre Rios.
Neste ponto, apesar da proximidade com as águas mais puras da cabeceira e de suas nascentes primordiais, a qualidade da água já não é conceituada como boa. Foi considerada de índice médio em todas as medições desde 2015 a 2024. Já o contágio por metais e substâncias consideradas tóxicas ocorreu em níveis baixos em 60% das vezes, médios em 30% dos exames e alta em 10%.
A estação seguinte fica no distrito de Monsenhor João Alexandre, no município de Cláudio, após os limites com Carmópolis de Minas e Itaguara e depois da confluência com o Ribeirão Campo Grande (originário de Itaguara), perto da ponte da rodovia MG-260.
A qualidade das águas do Rio Pará se mantém média nas amostras de uma década. A piora, contudo, é mais preocupante na contaminação por tóxicos. As concentrações baixas vistas em Passa Tempo pioram de 60% para 50%, as médias se mantêm em 30% e as altas se agravam de 10% para 20%.
Depois da represa de Carmo do Cajuru, após o rio ter passado pela área urbana do município, mais amostras foram colhidas no limite com Divinópolis, perto da ponte da Avenida Perimetral e da antiga via férrea.
Invasão de aguapés no Rio Pará em Divinópolis, no lago da Usina de Gafanhoto é impulsionada por fósforo e nitrogênio presentes em esgotos e fertilizantes Tanto Expresso/CBH do Rio Pará
A depuração pelo lago impacta na melhoria do rio. Pela primeira vez, uma amostra apareceu com a qualidade considerada boa em 10% das aferições (coletas de 2022). Ainda que 90% permanecessem consideradas médias.
O ganho maior de qualidade se deu na contaminação por metais tóxicos, que apresentou 80% de baixas concentrações (incluindo todas desde 2020) e 20% de médias.
O rio forma mais à frente outro lago a partir da represa da Pequena Central Hidrelétrica de Gafanhoto, em Divinópolis, onde a poluição por esgotos fez proliferar aguapés que tornaram difícil a passagem das embarcações. As amostras desse reservatório foram colhidas pelo Igam próximo à rodovia MG-050 que corta o espelho d’água, próximo à usina.
Expedicionários enfrentam trechos de corredeiras do Rio Pará em Carmo do Cajuru, onde a água tem boa qualidade Tanto Expresso/CBH do Rio Pará
No ponto, a qualidade da água foi considerada plenamente dentro dos parâmetros médios de pureza e os níveis de contaminação por tóxicos se mantiveram como em Carmo do Cajurú (80% baixos e 20% médios).
O grosso da poluição de Divinópolis, no entanto, chega ao Rio Pará mais adiante, pelo Rio Itapecerica, onde os navegantes da expedição tiveram de remar com EPIs. Um manancial que corta toda a área urbana e tem sua foz no afluente do Rio São Francisco, próximo ao local onde foi implantada e funciona a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Divinópolis.
A qualidade da água do Itapecerica estava em patamares ruins em 40% das amostragens realizadas nos últimos 10 anos, enquanto os outros 60% apresentavam índices médios. Os níveis de contaminação por tóxicos foram baixos em todas as medições.
Depois do Rio Itapecerica, o Rio Pará recebe também as águas poluídas do Córrego Buriti, após atravessar as áreas centrais de São Gonçalo do Pará. As concentrações de tóxicos são altas e a qualidade da água é média. Mesmos índices do Ribeirão da Fartura que cruza a área central de Nova Serrana e deságua no afluente do Velho Chico.
Um certo alívio, ainda que insuficiente, vem com a confluência do Rio São João, entre Pitangui e Conceição do Pará. As águas de baixa concentração tóxica e qualidade mediana contribuem para que o Rio Pará se recupere de parte do deságue de esgoto e químicos.
A melhoria é percebida na próxima base de análises, em Conceição do Pará, sob a Ponte do Velho da Taipa. A qualidade é média em 90% das análises e boa em 10%, deixando a preocupação com a contaminação por tóxicos, 60% das vezes em níveis altos e 40% em baixos.
O cenário só melhora com a chegada das águas de boa qualidade do Rio Lambari, na região da foz do Itapecerica, entre Leandro Ferreira e Martinho Campos. Outros córregos e mananciais que passam por áreas rurais como o Ribeirão do Pari, Rio do Peixe e Rio Picão, também colaboram com águas de melhor qualidade.
Assim, o Rio Pará tem sua última medição em estações realizada na altura da ponte da rodovia MG-164, em Martinho Campos. Salvo pelos últimos afluentes, entregou qualidade boa em 70% de amostras da década e médias em 30%, enquanto a contaminação pelos tóxicos se manteve baixa em 50% dos exames, média em 30% e alta em 20%.
Observando-se as medições no Rio São Francisco, em um ponto anterior (Abaeté) à foz do Rio Pará, em Pompéu, e em um ponto adiante, no mesmo município, a conclusão é de que as águas do afluente não pioraram, mas ainda não são capazes de melhorar a qualidade do Velho Chico, que continua sendo média, ao passo que eliminam a contaminação alta por tóxicos, deixando as concentrações em baixas (90%) e médias (10%).
Destaques da expedição e cuidados na navegação
Equipamentos essenciais: uso de proteção para evitar contaminação
Risco bacteriológico: perigo de doenças severas como a leptospirose
Objetivo principal: chamar a atenção para a conservação do curso d'água
Falta de saneamento: impacto direto das cidades sem tratamento adequado
Percurso definido: expedição da nascente em Resende Costa até Pompéu
Duração da jornada: de segunda (11/5) a sábado (17/5)
Ações paralelas: intervenções educativas em cada parada do trajeto
Acordo firmado: cooperação para o Programa de Saneamento Rural
Fator de esperança: recuperação do rio quando a poluição cessa
Foco urbano: cobrança por avanços na maior cidade da bacia
Elementos de contaminação e monitoramento
Indicadores bacteriológicos: medição de bactérias advindas de esgotos
Nutrientes nocivos: avaliação constante de nitratos e fosfato
Metais pesados: monitoramento de chumbo, mercúrio e arsênio
Afluentes poluidores: impacto negativo do Rio Itapecerica e Córrego Buriti
Efluentes prejudiciais: rejeitos da indústria e descarte de lixo
Órgão fiscalizador: dados registrados por estações oficiais do Igam
Período de estudo: amostras reunidas e comparadas entre 2015 e 2024
Papel das represas: depuração das águas nos lagos artificiais
Análise técnica: qualidade avaliada por especialistas da UEMG
Índices críticos: toxicidade alta registrada no Centro-Oeste mineiro
Condições do Rio Pará da nascente para a foz
Passa Tempo: qualidade média e contaminação tóxica baixa
Monsenhor João Alexandre: qualidade média e piora nos níveis tóxicos
Carmo do Cajuru: melhoria na qualidade após depuração pelo lago
Represa do Gafanhoto: pureza em parâmetros médios e índices tóxicos baixos
Após o Rio Itapecerica: contaminação agravada pelo esgoto urbano
Córrego Buriti: concentrações altas de toxinas e qualidade média
Ribeirão da Fartura: aporte de índices negativos na correnteza
Rio São João: alívio parcial na qualidade hídrica geral
Rio Lambari: melhora significativa com a entrada de águas limpas
Martinho Campos: recuperação refletida em amostras de qualidade boa
Pompéu: estabilização da poluição ao desaguar no Velho Chico