Égua ficou mais de 36 horas na adutora da Copasa até ser encontrada
Segundo o Corpo de Bombeiros, não havia indícios da possibilidade de salvamento
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A égua Amora ficou 36 horas na adutora da Copasa, em Belo Horizonte, até ser encontrada nesta quarta-feira (06/5). Segundo o tutor do animal, Rodrigo Aparecido, o Corpo de Bombeiros e a Copasa foram acionados logo após o incidente. Ele disse que os militares informaram que não iriam ao local porque a égua já teria sido levada pela água. A Copasa, segundo Rodrigo, não compareceu.
No entanto, em nota oficial, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais esclareceu que atua, por diretriz operacional, em situações em que há risco iminente à vida do animal ou possibilidade de ameaça à população. A corporação disse que, com base nas informações repassadas durante a ligação ao número 193, não havia indícios de uma ocorrência com possibilidade de salvamento.
O porta-voz da corporação, tenente Barcellos, detalhou que as informações fornecidas pelo solicitante são determinantes para a avaliação inicial da ocorrência. Segundo ele, o próprio tutor reconheceu, em entrevistas, que as circunstâncias do acidente tornavam praticamente inexistente a chance de sobrevivência do animal.
Barcellos explicou ainda que, devido à alta pressão existente dentro de uma adutora, um animal de grande porte dificilmente resistiria ao impacto. "Trata-se de uma força capaz de esmagar instantaneamente, sem possibilidade de sobrevida. Não é uma situação em que o animal esteja preso ou agonizando, mas sim um cenário em que, infelizmente, não há chance de resgate com vida", afirmou. Diante desse contexto, não foi caracterizada uma ocorrência típica de salvamento.
No dia seguinte, segundo o tutor da égua, a empresa de saneamento foi novamente acionada por volta das 9h. Em entrevista coletiva concedida na manhã de hoje, o superintendente da Unidade de Negócio Metropolitana da companhia, Ronaldo Serpa, afirmou que a companhia agiu imediatamente após ser informada sobre a possível queda de um animal de grande porte na adutora.
Segundo ele, a primeira medida foi interromper totalmente o funcionamento da estrutura e descartar toda a água que estava no sistema, como forma de prevenção. A decisão foi motivada pela prioridade absoluta com a qualidade da água distribuída à população. "Mesmo sem confirmação do que havia ocorrido, optamos por fechar completamente a adutora e descartar integralmente a água, garantindo que não houvesse qualquer risco de contaminação", explicou.
Ele destacou que, paralelamente, o monitoramento da qualidade da água foi intensificado em diversos pontos do sistema, sem identificar qualquer alteração fora dos padrões de potabilidade.
A adutora em questão, integra o sistema Rio das Velhas, responsável por abastecer cerca de metade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Para possibilitar a inspeção interna, foi necessário esvaziar completamente a tubulação, considerada de grande porte. A vistoria foi feita com o uso de drones, equipamentos subaquáticos e robôs, já que o acesso humano direto é inviável devido ao risco em ambientes confinados.
Segundo Serpa, o animal foi localizado durante a madrugada, após percorrer aproximadamente 1,3 quilômetro dentro da tubulação. A equipe técnica precisou desmontar um trecho da adutora para retirar a égua, que já estava morta. Após o procedimento, foi feita uma desinfecção completa da estrutura, com reforço na aplicação de cloro, antes da retomada do sistema.
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O abastecimento começou a ser restabelecido por volta das 8h de hoje, mas ainda enfrenta impactos devido ao tempo de paralisação. A previsão da Copasa é de que a maior parte da região metropolitana tenha o fornecimento normalizado ao longo do dia, podendo se estender até a manhã seguinte em áreas mais altas ou distantes. A empresa também orienta a população a manter o consumo consciente até a completa recuperação do sistema.
Há riscos de contaminação?
Sobre a possibilidade de contaminação da água, o superintendente foi categórico ao afirmar que não há risco para a população. Ele reforçou que todas as análises realizadas indicaram que a água distribuída permaneceu dentro dos padrões exigidos, descartando a necessidade de medidas como ferver a água antes do consumo.
A Copasa também informou que apura as circunstâncias do acidente. A suspeita inicial é de que a tampa de concreto de uma caixa de inspeção tenha se rompido com o peso do animal. A companhia realiza uma vistoria preventiva em outras estruturas semelhantes ao longo da adutora para evitar novos incidentes.
Apesar das garantias da companhia de que não há risco à saúde, a situação gerou dúvidas entre moradores. Para trazer embasamento técnico ao tema, a reportagem ouviu Leonardo Augusto dos Santos, membro da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES/MG).
Segundo o especialista, as informações divulgadas pela Copasa são relevantes, mas precisam necessariamente estar respaldadas por dados concretos de monitoramento da qualidade da água.
De acordo com ele, características como o grande diâmetro da adutora e o alto volume de reservação contribuem para reduzir significativamente o risco de contaminação. Ainda assim, ele pondera que o risco existe, já que a presença de um corpo estranho poderia afetar parâmetros microbiológicos da água.
O especialista avalia que os procedimentos adotados pela Copasa seguem o protocolo adequado para esse tipo de ocorrência: esvaziamento completo da linha, retirada do corpo estranho e aplicação de cloro em dosagem elevada para garantir a inativação de possíveis agentes contaminantes. A retomada do abastecimento, segundo Leonardo, só deve ocorrer após a confirmação, por meio de análises laboratoriais, de que a água atende a todos os padrões de potabilidade.
Ele também ressalta que o controle da qualidade da água não depende apenas da companhia. A vigilância é exercida por órgãos de saúde em nível municipal e estadual, além da fiscalização da agência reguladora de saneamento. Em situações críticas como essa, o monitoramento tende a ser intensificado.
"Com base nas informações divulgadas e considerando os protocolos exigidos, a população pode consumir a água com tranquilidade após o restabelecimento do sistema", afirmou. No entanto, ele reforça que a confiança nessa segurança está diretamente ligada à transparência dos dados de monitoramento.
Outro ponto levantado pelo especialista diz respeito à segurança das estruturas. Para ele, o episódio evidencia a necessidade de uma apuração rigorosa sobre a integridade física das adutoras e seus dispositivos de acesso. "Esse tipo de ocorrência chama atenção para a segurança hídrica e para a necessidade de evitar falhas estruturais que possam provocar acidentes ou interrupções no abastecimento", pontuou.
Demora no acionamento das autoridades
Questionado sobre a demora no acionamento e as alegações do tutor da égua, Serpa afirmou que a informação só chegou à área operacional da empresa na manhã de terça-feira (5/5). Segundo ele, ainda está em andamento uma verificação nos canais de atendimento para identificar se houve registro anterior da ocorrência.
Em relação ao local do acidente, na região do Taquaril, a Copasa esclareceu que as adutoras passam, em muitos casos, por terrenos que não pertencem à companhia, o que limita a possibilidade de cercamento das áreas. A empresa reconhece a necessidade de aprimorar medidas de segurança e afirmou que o caso será tratado como aprendizado para reforçar inspeções e prevenções futuras.
Por fim, foi informado que a situação envolvendo o tutor do animal será discutida posteriormente. Neste momento, segundo Serpa, o foco está na normalização do abastecimento e na garantia da qualidade da água fornecida à população.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima