Há um mês, completados nesse domingo (5/4), o clima na Rua Soldado Mário Neto, no Bairro Jardim Vitória, Região Nordeste de Belo Horizonte, mudou. Antes, a via era movimentada, com pessoas indo para a academia, à clínica de estética, à Casa de Repouso Pró-Vida ou à residência de uma família querida na região, todas reunidas no mesmo imóvel. Agora, o local, cercado por placas de metal e com destroços espalhados, é comparado a um cemitério, como afirma Érica Alves, proprietária de um estabelecimento que oferece banho e tosa de animais na mesma via. Na madrugada de 5 de março, o imóvel que agitava a via, abrigava uma família de cinco pessoas e era lar de 23 idosos desabou. O desmoronamento provocou a morte de 11 residentes da casa de repouso e do dono dos negócios, Renato Duarte, conhecido como Renatinho. Um mês depois do desastre, ainda não há respostas sobre o que motivou o desabamento.
“Acordei, foi uma sensação. Não sei se ouvi algo ou se senti (a casa) tremer. Dei três passos, estava indo encontrar o Renatinho, que estava em outro quarto. Decidi voltar para pegar a Laura (filha de 2 anos). Coloquei os braços para pegá-la e tudo começou a cair”, contou Sâmia Nunes, uma das sobreviventes do desabamento e viúva de Renatinho, em entrevista exclusiva ao Estado de Minas em 27 de março. A poucos metros dos destroços, ela conversou com a reportagem, mas solicitou que a entrevista não fosse gravada nem fotografada.
Além de Sâmia, de 31 anos, do marido, também de 31, e da filha do casal, havia 26 pessoas no local no dia do desabamento. Entre elas, os pais de Renatinho, que também moravam no endereço e, na casa de repouso, 23 idosos e uma cuidadora. Desse total, 12 pessoas morreram soterradas. As buscas pelas vítimas em meio aos escombros duraram mais de 24 horas. Além dos mortos, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) informou que resgatou oito pessoas com vida e que nove conseguiram sair por meio próprios.
Sâmia foi resgatada com vida pelos bombeiros, mas passou horas embaixo dos escombros. Ao Estado de Minas, ela disse que não se lembra ao certo quanto tempo ficou soterrada, mas acredita que foram cerca de duas horas, visto que o desabamento teria ocorrido por volta de 1h30. A viúva contou que gritou por socorro e chegou a ouvir alguns dos idosos também gritando, mas não teve sinal do marido. “Fiquei presa pelas pernas, ajoelhada (…). Tenho claustrofobia, pedi aos bombeiros que cortassem minha perna, mas que me tirassem dali”, relembrou.
No instante do desabamento, Sâmia estava abraçada à filha, que foi retirada com a ajuda de um vizinho, conforme relatou. Ela contou que conseguiu proteger a menina com o próprio corpo. “Depois que a Laura saiu, fiquei mais tranquila”, afirmou. Além de suas pernas terem ficado presas, Sâmia foi ferida na cabeça e precisou levar quatro pontos.
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Apesar de ter presenciado a tragédia e passado horas parcialmente soterrada, ela afirmou que, naquele momento, não teve noção do que tinha ocorrido. A sensação que teve, descreveu, foi como se tivesse sido empurrada para cima, mas, na verdade, tudo estava caindo. “Só tive dimensão de tudo que caiu depois que fui retirada”, relatou. Sâmia contou que, ao ser socorrida pelo Corpo de Bombeiros, estava confusa. Achava que estava no pavimento de cima da casa. Mas, na verdade, se encontrava no chão.
LUTO
Sâmia conta que, depois de ser resgatada, foi levada ao Hospital Metropolitano Odilon Behrens, onde descobriu que o companheiro, conhecido como Renatinho, havia morrido. Segundo ela, eles estavam juntos havia seis anos.”Achava que ele ia sair com vida”, recorda. No entanto, Sâmia acredita que, se Renatinho não tivesse morrido no desabamento, ele não aguentaria ver o imóvel destruído e as mortes dos idosos.
Sâmia diz que a filha tem sido sua motivação para ser forte. Ela também perdeu os equipamentos de trabalho e todos os pertences pessoais. “Tudo meu está embaixo da terra”, afirma. A viúva conta que vem fazendo acompanhamento psicológico e, junto da filha, tem ficado na casa da mãe. Além disso, diz que recebeu muito suporte e tem vivido com itens doados, inclusive as roupas que estava vestindo. Enquanto ela conversava com a reportagem, várias pessoas que passavam na rua paravam para abraçar Sâmia e perguntar sobre a filha dela.
Partes do imóvel, que abrigava ainda a residência dos donos, uma academia de ginástica e uma clínica de estética, permanecem de pé, mas o acesso segue impedido pela Defesa Civil. para uma vizinha, local virou 'um cemitério'
IDOSOS
Além dos 11 idosos que morreram, outros cinco residentes da Casa de Repouso Pró-Vida, que ficava no primeiro andar do imóvel, chegaram a ser soterrados, mas foram resgatados com vida, segundo Adriana Brumana, de 46 anos, psicóloga e coordenadora do estabelecimento. Ela não estava no local no momento em que o imóvel ruiu, mas contou ao Estado de Minas como o ambiente era dividido. Segundo ela, os 23 idosos estavam distribuídos em seis suítes, das quais quatro foram atingidas pelos escombros. Dos quartos mais afetados, dois eram da ala masculina e dois da feminina. Em cada um havia quatro idosos.
“É um vazio muito grande. Todos os dias pela manhã, que era quando me direcionava para lá, sinto falta dos idosos”, disse Adriana, que trabalhava na casa de repouso desde 2018. Ela contou que a instituição foi fundada em 2013 para acolher a avó de Renatinho.
Afirmou ainda que foi muito desafiador assumir, ao mesmo tempo, as tarefas de auxiliar os familiares com os velórios, acolher os sobreviventes e ajudar os cinco idosos que foram soterrados e resgatados com vida. Adriana relatou que ajudou a identificar os mortos.
“Não tenho mais os familiares, não tenho mais os idosos, a instituição não existe mais”, lamentou a coordenadora da casa Pró-Vida, que disse que ficava à disposição 24 horas por dia. Ela contou que atendia demandas a qualquer momento. Foi em uma ligação na madrugada que Adriana ficou sabendo do ocorrido. “No princípio, tive uma crise de ansiedade, de pânico. Depois, meu tio foi até lá para ver se era verdade, chegamos a pensar que poderia ser um trote”, contou. Ao saber que o imóvel tinha de fato ruído, Adriana foi até o local para prestar apoio.
Segundo ela, os sobreviventes foram encaminhados para três instituições voltadas para idosos ou até mesmo para a casa de familiares. Adriana afirmou que, por uma questão de confidencialidade, não pode informar detalhadamente para onde cada um dos idosos foi.
Bombeiros fazem buscas no local do desabamento, que duraram mais de 24 horas: corporação resgatou 12 corpos e oito pessoas com vida
CAUSA DO DESABAMENTO
O desabamento do imóvel está sendo investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG). Em nota, a corporação informou que só poderá divulgar informações sobre a apuração quando o inquérito policial for concluído.
Em entrevista concedida ao Estado de Minas em 27 de março, Sâmia informou que, até então, não havia recebido retorno da corporação ou da Defesa Civil municipal. Questionada pela reportagem, a viúva afirmou que preferia não falar sobre possíveis motivos, pois seriam apenas especulações. Sâmia disse que não sabe o que pode ter provocado a ruína do imóvel e que também quer uma resposta.
À reportagem, Sâmia contou que havia se mudado para a casa na Rua Soldado Mário Neto cerca de quatro anos atrás e que o imóvel já estava construído. A viúva afirmou ainda que não acompanhava a gestão dos empreendimentos do marido, a casa de repouso e a academia.
Na época do desabamento, o Estado de Minas verificou com a Secretaria Municipal de Política Urbana que os empreendimentos localizados no imóvel tinham alvarás de localização e funcionamento para atividades específicas, com validade até 2030. No entanto, nenhum deles tinha alvará de construção vigente, documento necessário para obras ou alterações estruturais no imóvel.
Após o desmoronamento do imóvel, a então promotora Jacqueline Ferreira Moisés afirmou que o desastre não poderia ser tratado como uma fatalidade. “Esta era uma instituição que a Promotoria fiscaliza desde 2013. Nós demos à instituição a oportunidade de regularizar os erros extrajudicialmente, mas isso não foi feito. Desde 2017 existe uma ação pedindo o fechamento por irregularidades muito graves”, afirmou ela, que no dia 27 de março tomou posse como procuradora de Justiça.
De acordo com Jacqueline, ao longo dos últimos anos, foram realizadas 12 vistorias técnicas no imóvel, envolvendo tanto análise estrutural quanto avaliação psicossocial dos residentes. Entre os problemas apontados estavam: infiltrações generalizadas e presença de mofo; superlotação progressiva; pisos irregulares e barras de apoio soltas; ventilação inadequada; e ausência de estrutura adequada de acessibilidade e lazer. Segundo a então promotora, as irregularidades persistiam mesmo após sucessivas notificações. “O imóvel não tinha condições de funcionamento e os residentes estavam em risco evidente”, afirmou.
Procurado pela reportagem para atualizações sobre o caso, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) informou que a investigação está a cargo da Polícia Civil e que o inquérito, quando concluído, será encaminhado ao órgão.
FUTURO DO IMÓVEL
“Para cá eu não volto”, diz a viúva. Sâmia afirma que seria muito difícil voltar a viver onde construiu tantas memórias. Ela conta que a filha tinha uma ligação muito forte com os idosos residentes da casa de repouso e que os chamava de vovô e vovó.
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Atualmente, a área do imóvel está totalmente isolada e ainda com os destroços do desabamento, que trazem para o bairro um clima triste, como contou Luciana Lira, de 53 anos, cuja casa fica aos fundos do terreno. Ela afirma que era a construção que movimentava a região, com pessoas que frequentavam a academia ou visitavam os idosos. Érica Alves, proprietária de um banho e tosa de animais na rua, comparou o terreno a um cemitério.
