Pais lamentam fim do ensino integral em Centro Pedagógico da UFMG
As famílias reclamam de não terem sido ouvidas ao longo do processo e analisam os impactos que a decisão vai gerar
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Pais e responsáveis de alunos do Centro Pedagógico (CP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escola pública de ensino fundamental, lamentam a decisão da universidade de acabar com o ensino em tempo integral na unidade, localizada no campus Pampulha, em Belo Horizonte, a partir do ano que vem.
De acordo com um grupo de pais formado para tentar discutir a questão, a decisão foi tomada em uma reunião do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da UFMG, nessa quinta-feira (23/4). Ainda cabe recurso ao Conselho Universitário, mas o grupo acredita que é difícil reverter a decisão.
O CP tem 405 alunos distribuídos nos nove anos do Ensino Fundamental I e II, entre eles cerca de 50 crianças e adolescentes com deficiência, sendo 20 com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Desde que tomaram conhecimento de que a UFMG estudava o encerramento do programa, em meados de 2025, as famílias dos alunos e parte da comunidade acadêmica têm se mobilizado, mas reclamam da falta de diálogo por parte da instituição.
Impactos para famílias e comunidade acadêmica
Raquel Carlesso é pesquisadora e uma das mães à frente do movimento de pais que é contra a extinção do ensino em tempo integral. A filha dela está no 4° ano e estuda na instituição de ensino desde o 1°. Apesar de lamentar a decisão, ela diz que não ficou surpresa. “O processo, da forma como vem sendo conduzido desde o ano passado, nos mostrava que essa era uma decisão tomada”.
A mãe reclama ainda que as famílias dos alunos foram alijadas do processo de decisão desde o início. “Isso começou a ser discutido em 2024, mas só fomos descobrir depois. Foi criada uma comissão externa, que produziu um relatório, não fomos ouvidos por essa comissão. Depois foi feita uma comissão interna, com um grupo de professores do Centro Pedagógico, que também produziu um documento ao qual tivemos acesso posterior e também não fomos ouvidos nesse processo”, ressalta.
Ela conta que, como tudo estava sendo feito internamente, as famílias demoraram a se inteirar da situação. “A decisão já tinha passado nas primeiras instâncias e estava no Cepe”. Em outubro, o assunto foi levado para ser discutido no conselho. No mês seguinte, o grupo de pais se mobilizou e apresentou um documento formal, mostrando o impacto que a decisão teria nas famílias.
Na primeira reunião deste ano, eles também apresentaram, em parceria com o Diretório Central dos Estudantes (DCE), um parecer que foi apreciado no encontro dessa quinta-feira (23/4).
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O estudo, feito pelo grupo de pais, mapeou o perfil das famílias dos alunos do CP e mostra que as mais prejudicadas serão as mais vulneráveis, tanto financeiramente quanto com crianças com alguma deficiência. Das 397 famílias pesquisadas, 58% são de pessoas pretas - 47% pardas e 11% negras. Além disso, 12% são monoparentais, 34% vivem com até 2 salários mínimos, já 42% vivem com 3 a 5 salários mínimos e, portanto, dependem da educação pública.
O fim do ensino em tempo integral afetaria o emprego ou renda de 74% das famílias negras e 86,5% das mães, segundo a pesquisa.
“As mães não vão poder trabalhar porque o dinheiro da família não é suficiente para custear uma escola em tempo integral de ensino particular. Em cerca de 30% das famílias há o risco das crianças terem que ficar sozinhas em casa”, alerta Raquel.
As famílias reclamam ainda que não foi feito nem apresentado, pela instituição, um estudo que mostre o impacto orçamentário real do ensino em regime integral, nem uma comparação com o parcial. Com o CP funcionando em dois turnos, é possível que as despesas operacionais como energia, limpeza e pessoal terceirizado dupliquem.
Raquel lembra ainda que o Centro Pedagógico não é uma escola de ensino fundamental qualquer e sim um colégio de aplicação, que serve também para a formação de novos professores não só da educação básica, mas da própria UFMG, em que estudantes de Pedagogia e de outros cursos dão aulas ou fazem estágios.
“Ali é o lugar que nasce a inovação pedagógica, com base na prática. É ali que são pensadas soluções para questões que as escolas regulares não conseguem pensar. Eles são formadores de políticas públicas educacionais também e de professores para atender as escolas da rede pública”, destaca a mãe.
Por fim, ela pontua que o fim do ensino integral no Centro Pedagógico caminha na contramão do Novo Plano Nacional de Educação (PNE), que prioriza a expansão do tempo integral nas escolas, e da Resolução do Conselho Nacional de Educação, de 2025, que define o tempo integral como direito humano e política estruturante.
Retrocesso
Diante da decisão da UFMG, Raquel decidiu que vai tirar a filha do CP a partir do próximo ano. “Estou decepcionada e não é só porque será ensino parcial. Mas, pedagogicamente não me atende mais. A minha decisão de colocar minha filha lá, como uma pessoa de classe média, foi pensando em uma formação diversa, em um ambiente diverso, uma escola em que ela aprendesse a ser cidadã, antes de qualquer conteúdo. Onde ela pudesse conhecer várias realidades, aprender sobre os processos democráticos. Felizmente, não faço parte das famílias que precisam colocar os filhos lá por condições financeiras, foi uma escolha”, pontua.
A mãe destaca ainda que, em uma escola em tempo integral, as crianças têm acesso a conteúdos culturais e formativos que não acontecem, muitas vezes, dentro de casa. “Estamos falando de um retrocesso educacional”.
A professora universitária Ana Flávia Santos também lamenta o fim do ensino em tempo integral na instituição. Ela é mãe de Helena, que está no 5° ano e estuda no CP desde o 1°.
“É o fim de um projeto importante, histórico, da proposta de uma educação pública comprometida com o povo, com a diversidade, com a democratização do acesso. É uma coisa que eu sempre prezei muito na escola. Durante todo esse período da Helena no Centro Pedagógico, mesmo com todos os problemas, sempre achei que é uma escola que nos ensinou que a melhor educação só pode ser pública. Tem a ver com o convívio com a diferença, o respeito à diferença, uma formação cidadã que se dá em diversos níveis”, detalha. A mãe destaca ainda a importância da convivência dos alunos do CP com os jovens estudantes de graduação da UFMG.
“Fico triste de ver coisas que considero importantes sendo colocadas por terra, especialmente em um momento de valorização do ensino em tempo integral. Eu mesma conhecia pouco sobre o sentido do tempo integral e da importância do Centro Pedagógico na formação docente”, ressalta.
Ana Flávia acredita que a decisão foi tomada sem uma avaliação ampla do impacto orçamentário e de outras questões como a sobrecarga dos professores. “Acredito que essa sobrecarga não será solucionada com o fim do ensino em tempo integral, passa por uma decisão da escola e da universidade de encararem de frente o desafio da inclusão, de resolverem problemas estruturais e não propriamente causados pelo ensino em tempo integral”.
Ela diz que ainda não tomou uma decisão definitiva sobre o futuro da filha na instituição. “Vou fazer uma avaliação com a minha filha. As coisas que ela mais gosta no CP talvez sejam as que fiquem mais comprometidas com o fim do tempo integral, que é a presença forte da educação cívica, das artes, das línguas. Me parece que é uma escola que está abrindo mão de coisas que eu considero importantes”.
O que diz a UFMG
Em nota, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) informa que a decisão resulta de processo de avaliação conduzido desde 2024 por comissões institucionais e pela Câmara de Graduação, que identificaram limites de ordem acadêmico-pedagógica, estrutural e orçamentária no modelo vigente.
“Como parte dos encaminhamentos aprovados pelo Cepe, o CP deverá dar continuidade à elaboração do novo projeto político-pedagógico, que deve passar a vigorar a partir de 2027, contemplando tanto o ingresso de novos estudantes quanto a permanência dos estudantes matriculados, de modo a assegurar a continuidade de suas trajetórias escolares com qualidade, responsabilidade e acompanhamento institucional, em regime de tempo parcial. O Cepe também aprovou a instituição de uma comissão responsável pelo acompanhamento da elaboração e implantação do novo projeto”.
A universidade diz que reconhece a preocupação da comunidade escolar e reafirma que a decisão resulta de amplo e qualificado processo de discussão, conduzido com responsabilidade institucional e orientado pelo compromisso com o interesse público. “A decisão busca enfrentar limites concretos do modelo vigente e avançar na construção de uma proposta pedagógica mais consistente, alinhada aos princípios da educação integral, à promoção da equidade e à garantia de condições efetivas de aprendizagem para todos os estudantes”.
A universidade reitera que manterá o diálogo com representantes de estudantes, famílias e servidores, “sem abdicar da responsabilidade de conduzir um processo que priorize a qualidade da educação integral — não reduzida ao tempo —, a inclusão e a justiça social”.
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“A construção do novo projeto pedagógico será realizada com transparência e participação, de acordo com a tradição da Universidade, tendo como eixo central a qualificação da formação oferecida pelo Centro Pedagógico e o fortalecimento de seu papel como espaço público de referência em educação básica e formação docente”.