Estátua do Juquinha, na Serra do Cipó, é vandalizada antes da reinauguração
Apesar de monitorada 24 horas por dia, câmeras de segurança não impediram que a estátua sofresse danos depois de uma obra de restauro de cinco meses
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Santana do Riacho – Antes mesmo de ser reinaugurada, após uma reforma profunda fruto de intensa campanha, a estátua do Juquinha das Flores já foi vandalizada. Destaque no alto das montanhas da Serra do Cipó, em Santana do Riacho, na Região Central de Minas Gerais, a obra levou cinco meses para ser recuperada e entregue, mas, em meados de março, segundo lavradores vizinhos à obra, teve uma parte da lapela do paletó de concreto do personagem arrancada. Pelo menos quatro áreas nas costas petrificadas do personagem foram riscadas a fundo para formar nomes e frases, uma delas em inglês.
A estátua é monitorada 24 horas por um poste, com câmeras de segurança alimentadas por placa solar e ligadas à internet, para alertar às autoridades sobre ataques e até mesmo riscos como os de incêndio da vegetação. Mas a medida não foi suficiente para impedir o mais recente ataque ao Juquinha.
O restauro em si durou cinco meses, realizado por meio de incentivo da Lei Rouanet pela mineradora Anglo American, que é a dona do terreno, após acordo com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).
Além das câmeras de segurança, a Anglo American chegou a anunciar que o acordo com o MPMG previa também a instalação de iluminação e adequação do espaço para o recebimento dos visitantes. Contudo, até o momento, só o restauro da estátua foi feito.
A Anglo American informou que a restauração da estátua foi concluída em dezembro de 2025. A reinauguração está prevista para maio deste ano. A empresa disse que também instalou placas informativas no local para melhorar a segurança. Sobre os danos à estrutura, a companhia registrou boletim de ocorrência para apuração dos fatos pelas autoridades competentes.
Reivindicação de moradores e turistas
A restauração era uma demanda dos habitantes locais e turistas justamente devido a outros ataques de vândalos, mas também à deterioração causada pelas intempéries, uma vez que a estátua do Juquinha fica exposta ao sol, vento, chuvas e à variação extrema de temperatura do alto das montanhas da Serra do Cipó.
Mas, para que ocorresse a reforma, foi necessário um grito de socorro de quem temia que a estátua do simpático personagem se perdesse em meio à deterioração e ao vandalismo. Ataques que foram denunciados pelo Estado de Minas desde 2023, culminando em uma atuação decisiva do Ministério Público de Minas Gerais e em um acordo para o restauro.
“É muito emocionante ver a estátua do Juquinha toda reformada. Mas a gente fica também triste por ver que já ocorreram depredações, quebrando parte da estátua, riscando nomes e inscrições nas costas dela. Me dói o coração ver coisas desse tipo. É um patrimônio que é nosso, um patrimônio muito querido pelos mineiros. Espero que o poder público olhe ainda mais por essa imagem que nos representa, a conserve e a proteja de verdade”, disse Dilceu Moreira, de 54 anos, que trabalhou e morou por anos no restaurante que funcionava ao lado da imagem e, como muitos moradores, conheceu pessoalmente o Juquinha.
Em 10 de junho de 2023, a situação era crítica, como foi descrito pela reportagem do EM: “São visíveis e generalizados os danos que a escultura sofreu com o passar dos anos e a falta de manutenção, incluindo ataques de vândalos. A escultura do Juquinha já perdeu o dedão da mão direita; uma fenda se abriu em uma das pernas, enquanto as beiradas do chapéu se quebraram. Nos braços, há buracos com mais de um dedo de largura e profundidade. O paletó também exibe avarias e trincas. Em algumas partes dos braços e pernas, os vergalhões de aço que dão forma à estrutura já estão expostos e enferrujando”, descreveu a publicação.
Apenas 13 dias depois da primeira reportagem, um novo ataque à estátua gerou mais uma denúncia. Desta vez, as costas da imagem tinham sido riscadas com canetão roxo, tendo sofrido também o mesmo tipo de vandalismo as pedras do calçamento no caminho para o monumento e a portaria de entrada para o restaurante que funcionava ao lado.
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A artista plástica que eternizou o Juquinha na Serra do Cipó, Virgínia Fonseca, protestou e se ofereceu para reformar a estátua pela terceira vez, revelando ter até um projeto aprovado em lei federal de incentivo para tal, mas sem patrocinadores. Ela estimou que a sua obra precisaria receber manutenção constante e uma restauração a cada cinco anos para ser preservada, pois fica muito exposta às intempéries.
A Anglo American informou que está em contato com a artista responsável pela restauração da obra para avaliar a condução de ações corretivas.
Acordo entre poder público e iniciativa privada
No mesmo ano, a prefeitura municipal de Santana do Riacho informou ter enviado ofícios para a mineradora Anglo American, dona do terreno onde fica a estátua, mas o acordo para a reforma só ocorreu após a quinta reportagem sobre a situação dramática do monumento. Em março de 2024, o MPMG e a Anglo American celebraram um acordo de restauro, melhorias e sinalização.
“Normalmente, o MPMG é provocado e atua sob demanda. Neste caso, foi pelo trabalho do EM, perseguindo este tema e mostrando a gravidade da situação. Vimos a situação da estátua e sabíamos que ela era tombada em nível municipal. Ela é um símbolo da Serra do Cipó. Quando vimos as reportagens, resolvemos atuar de ofício, em conjunto com a promotoria de Jaboticatubas. Instauramos um procedimento de investigação, um inquérito civil e foi nesse inquérito que as providências para a proteção desse símbolo mineiro foram tomadas”, disse o promotor de justiça Lucas Trindade, responsável pelo início da ação.
“Como o terreno é da mineradora Anglo American, essa responsabilidade recaiu sobre eles e, assim, foi possível que esse patrimônio pudesse ser preservado”, afirmou o então coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (CAOMA), Carlos Eduardo Ferreira Pinto. “Existe uma jurisprudência do TJMG que diz que a restauração de bens culturais é de responsabilidade do dono do terreno, ainda que os danos de depredações e vandalismo não tenham sido causados pelo proprietário”, reforçou também à época o promotor de justiça Lucas Pardini Gonçalves.
De acordo com a Anglo American, a primeira fase foi a de diagnóstico das condições estruturais da escultura, com atenção especial às rachaduras e outros danos. Em seguida, ocorreu a limpeza, tratamento de ferrugem, substituição de partes comprometidas, execução de obturações, nivelamentos e modelagem.
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No fim de 2020, a Anglo American comprou a área onde está instalada a estátua do Juquinha como compensação ambiental referente às atividades do empreendimento minerário Minas-Rio, localizado em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas (MG). Mesmo antes da restauração atual, a mineradora destacou ter feito melhorias no local, como a instalação de sistema de monitoramento eletrônico 24h.
Linha do Tempo
- Morte do Juquinha: José Patrício era o nome de Juquinha, um personagem muito conhecido por todos na região por sua simpatia. Ele morreu em 1983
- Inauguração da estátua: Em 1987, a estátua foi inaugurada após encomenda dos prefeitos de Morro do Pilar e de Conceição do Mato Dentro
- Reformas: A estátua passou por duas restaurações, a última em 2012
- Denúncias: Reportagens do jornal Estado de Minas de 2023 alertam para o estado crítico e sucessivos ataques de vandalismo
- Atuação do MPMG: O Ministério Público instaura inquérito civil após a repercussão midiática para apurar responsabilidades
- Acordo de restauro: Anglo American e MPMG celebram termo em março de 2024 para reforma, melhorias e sinalização
- Execução da obra: Período de cinco meses de intervenção estrutural e estética na estátua
- Novo vandalismo: Antes mesmo da reinauguração oficial, a estátua sofre novos danos na lapela e riscos nas costas
- Previsão de entrega: A reinauguração está prevista para maio de 2026