O governo de Minas Gerais lançou, nessa terça-feira (31/3), o projeto de atualização das Listas Vermelhas da fauna e da flora ameaçadas de extinção no estado. Apresentada no Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, a iniciativa reúne pesquisadores, gestores públicos e instituições científicas para mapear, com base em critérios técnicos internacionais, as espécies sob maior risco de desaparecimento e orientar ações de proteção ambiental.

A proposta parte de um cenário preocupante. De acordo com dados da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos da ONU (IPBES) e da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), a crise global da biodiversidade tem acelerado o ritmo de extinção de espécies a taxas entre 10 e 100 vezes superiores à média registrada nos últimos 10 milhões de anos. Estima-se que cerca de 28% das espécies avaliadas no mundo estejam ameaçadas, enquanto outras projeções indicam que ao menos 14% de todas as espécies conhecidas correm risco de desaparecer. Em um estado como Minas Gerais, que abriga grande diversidade biológica, a situação ganha contornos ainda mais críticos: quando uma espécie é endêmica - ou seja, ocorre apenas no território mineiro - o risco local de extinção representa também a sua extinção global.

As Listas Vermelhas

As chamadas Listas Vermelhas são instrumentos científicos que classificam o grau de ameaça enfrentado por espécies animais e vegetais. Inspiradas no modelo da IUCN, criado em 1964, elas categorizam os organismos de acordo com critérios como redução populacional, diminuição da área de distribuição e tamanho das populações. Entre as classificações, destacam-se as categorias "Vulnerável", "Em Perigo" e "Criticamente em Perigo", consideradas níveis efetivos de ameaça. Paralelamente, listas complementares - como a chamada "lista amarela" - indicam espécies que podem se tornar ameaçadas, funcionando como alerta preventivo.

Categorias da Lista Vermelha da IUCN:

  • Extinta (EX): Nenhum indivíduo sobrevive
  • Extinta na Natureza (EW): Apenas em cativeiro ou fora de sua área original
  • Criticamente Ameaçada (CR): Risco extremamente alto de extinção na natureza
  • Ameaçada/Em Perigo (EN): Risco muito alto de extinção
  • Vulnerável (VU): Risco elevado de extinção no futuro próximo
  • Quase Ameaçada (NT): Pode se tornar ameaçada em breve
  • Pouco Preocupante (LC): Risco baixo, espécie abundante
  • Dados Insuficientes (DD): Informação limitada para avaliação
  • Não Avaliada (NE): Ainda não avaliada.

O projeto pretende estabelecer uma ponte entre ciência e políticas públicas. As informações obtidas servirão de base para decisões em áreas como licenciamento ambiental, definição de áreas protegidas e planejamento de ações de conservação. Ao qualificar a análise de impactos ambientais, as listas também devem ampliar a segurança jurídica e a previsibilidade para o setor produtivo.

Critérios de Classificação

Para que uma espécie seja oficialmente classificada como ameaçada, é necessário atender a critérios técnicos bem definidos, como explica o biólogo Tadeu Guerra. Esses parâmetros seguem padrões internacionais e incluem: o Critério A, que avalia a redução populacional ao longo do tempo; o Critério B, relacionado à distribuição geográfica restrita; o Critério C, que considera populações pequenas em declínio contínuo; o Critério D, voltado a espécies com população muito reduzida ou extremamente limitada; e o Critério E, que envolve análises quantitativas, como modelos que estimam a probabilidade de extinção. Esses critérios garantem rigor científico na classificação e permitem diagnósticos mais precisos sobre o risco enfrentado por cada espécie.

Elaboração e financiamento das listas

Segundo o coordenador do ICMBio, Frederico Drummond, o processo de elaboração das listas é fundamental para orientar estratégias efetivas de preservação. "É a partir desse diagnóstico que conseguimos estruturar ações concretas de conservação", destaca. Ele ressalta ainda a importância da criação de unidades de proteção ambiental como complemento às listas, garantindo não apenas a identificação do problema, mas também sua diminuição.

Um exemplo recente dessa estratégia é a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Córregos dos Vales do Norte de Minas, oficializada em 22 de março de 2026. Com mais de 40 mil hectares, a unidade busca proteger o bioma Cerrado, preservar nascentes e assegurar o modo de vida de comunidades tradicionais geraizeiras. A área, localizada nos municípios de Riacho dos Machados, Rio Pardo de Minas e Serranópolis de Minas, localizados na Região Norte de Minas, vinha sofrendo pressões de monoculturas e atividades minerárias. Agora, passa a integrar um modelo de conservação que concilia uso sustentável e proteção ambiental.

O projeto das Listas Vermelhas em Minas Gerais também integra as ações de compensação socioambiental decorrentes do rompimento da barragem de Brumadinho, ocorrido em 2019. Viabilizado por recursos do acordo judicial de reparação firmado em 2021 - que totaliza cerca de R$ 37,7 bilhões -, o programa conta com investimento aproximado de R$ 4,7 milhões. Participam da iniciativa o Governo de Minas, o Ministério Público estadual e federal e a Defensoria Pública, enquanto a mineradora responsável pelo desastre realiza os repasses financeiros sem interferência técnica no conteúdo do projeto.

A execução envolve uma equipe especializada, composta por 12 coordenadores e 38 analistas, responsáveis por avaliar o risco de extinção de espécies da fauna e flora, tanto terrestres quanto aquáticas. Entre os objetivos estão a elaboração das listas atualizadas, a divulgação dos resultados em plataforma digital e a publicação de livros e guias que consolidam o conhecimento produzido.

A operação envolveu o resgate de quatro indivíduos no município de Peçanha, na região do Vale do Rio Doce e sua translocação para a região do Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira

Crédito: Leandro Santana Moreira/Instituto de Biodiversidade

Translocação de espécies ameaçadas

Na prática, iniciativas recentes já demonstram como o conhecimento científico pode se traduzir em ações concretas de preservação. Um exemplo é a transferência de muriquis-do-norte, uma das espécies mais ameaçadas de extinção do país, realizada no mês de março. A operação, coordenada por instituições ambientais e de pesquisa, envolveu o resgate de quatro indivíduos no município de Peçanha, na região do Vale do Rio Doce e sua translocação para a região do Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira, onde passam por um processo de aclimatação antes da soltura definitiva.

A ação busca recompor populações isoladas e ampliar a variabilidade genética da espécie, classificada como criticamente em perigo de extinção.

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* Estagiária sob supervisão da subeditor Paulo Galvão

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