Belo Horizonte, famosa pelos seus bares, tinha uma limitação para manter o funcionamento dos estabelecimentos noite adentro: a falta de transporte durante a madrugada. Esse cenário, entretanto, está mudando. Desde a implementação do Madrugão, o sistema de ônibus noturno de BH, a Prefeitura da capital registrou, até o momento, uma média diária de atendimento de 1.975 usuários, um aumento de 11%. 

Nesta quarta-feira (11/03), a PBH anunciou a criação de 17 sublinhas noturnas, ampliando a oferta de transporte durante a madrugada. “O madrugão veio para ficar. A Prefeitura considera um sucesso esse acréscimo de usuários no período da madrugada e o programa está se consolidando como opção de deslocamento durante as madrugadas na cidade”, afirma Luiz Castilho, Chefe de Gabinete da Superintendência de Mobilidade do Município de Belo Horizonte (Sumob).

A iniciativa é resultado de uma pesquisa “origem-destino” realizada entre julho e agosto de 2025 com trabalhadores e empresários dos setores de comércio e serviços. O estudo mapeou hábitos de deslocamento, horários de pico e padrões de viagem durante a madrugada a fim de identificar a demanda. O levantamento mostrou que 35% dos funcionários deixam o trabalho entre 20h e 5h, com pico entre 22h e 23h. Também revela que 75% dos entrevistados trabalham em BH e 60% moram na capital.

O que é o Madrugão?

O projeto entrou em operação no dia 12 de dezembro do ano passado. Ao todo, 128 linhas passaram a atender a população entre 0h e 3h59, incluindo a criação da Linha 10 (Circular Noturno), que faz a conexão com áreas relevantes na vida noturna da cidade. O percurso passa pela Estação Central, Praça da Liberdade, Praça Raul Soares, área hospitalar e Mercado Novo, assim como pelos bairros Floresta, Savassi e Lourdes. 

O Madrugão ainda conta com 27 viagens adicionais aos domingos, 33 aos sábados e 32 nos dias úteis em 20 linhas noturnas. O transporte também é integrado, sem pagamento de nova tarifa, com o Move e com todas as demais linhas da cidade. Segundo a PBH, desde o início da operação do Madrugão, já foram transportados mais de 150 mil usuários. O executivo espera atrair cada vez mais usuários para o sistema com o objetivo de fomentar a vida noturna na cidade. 

Ao Estado de Minas, Karla Rocha, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), afirmou que iniciativas que ampliam a mobilidade urbana, especialmente no período noturno, são muito importantes para o setor, assim como para as áreas de comércio e serviços. Como o projeto ainda se encontra em fase inicial, Rocha ainda declarou que a entidade vai acompanhar de perto as mudanças.

“A ampliação de linhas e horários nesse período podem facilitar o deslocamento tanto dos clientes quanto de trabalhadores desses setores, que muitas vezes encerram suas atividades em horários mais avançados. No entanto, por se tratar de uma medida recente, ainda é cedo para avaliarmos de formas mais concretas os impactos dessa mudança”, declarou a presidente da Abrasel.

Impacto na prática

André Tenerai é sócio do bar Jângal, na Região Centro-Sul de BH. Ele conta que o setor foi muito afetado pela Pandemia de Covid-19 e, mesmo depois da retomada, os bares e restaurantes não conseguiram voltar a funcionar como antes. Um dos grandes impeditivos era o transporte de madrugada, que inviabilizava a contratação de mão de obra.

“Diminuiu o número de estabelecimentos que ficam abertos até mais tarde por causa de funcionários que não conseguiam voltar para casa. Isso se tornou uma consideração importante na hora da contratação. Antigamente essa questão não era tão importante porque a pessoa sempre tinha como voltar para casa”, explica Tenerai. O empreendedor espera que o Madrugão traga de volta a vida noturna da capital: “É um processo que vai levar tempo, mas eu acho que o primeiro passo foi dado”. 

Emerson Ruben Moura compartilha da opinião de Tenerai. Ele afirma que também esbarrava no problema da falta de transporte público de madrugada na hora de contratar um funcionário e acredita que esse fator desencadeou um ‘efeito dominó’, afetando a vida noturna da cidade. 

Moura conta que, nos últimos meses, os funcionários pararam de reclamar da falta de ônibus na hora de ir embora.  “Os bares tinham que fechar mais cedo por causa da mão de obra e a mão de obra reclamava que o problema era o transporte. Agora, com transporte, todo mundo sai ganhando”, opina.

O projeto, entretanto, não fez diferença na rotina de Ualerson dos Santos, funcionário do Jângal. Ele deixa o trabalho entre 1h e 1h50 e precisa andar cerca de 15 minutos até o ponto da linha 62. Depois, ainda precisa pegar a linha 621 até o bairro Lagoa, na Região de Venda Nova, onde mora. 

“O ônibus que eu pego continua cheio. Mesmo porque, a grande maioria das pessoas que trabalham na madrugada na área central moram em bairros muito afastados. Então, pra gente, não fez diferença”, afirma Dos Santos. 

Ele ainda reclama que o ônibus 62 é a única opção para voltar para casa, uma vez que outras linhas como 66, 82 e 61 param de rodar de madrugada. “Só tem ele. Outro problema que vejo é que dá muita volta. Ele tem que passar na Avenida Paraná, na Estação São Gabriel e na Vilarinho, o que torna a viagem longa”, diz.

Além disso, muitas pessoas que trabalham em BH moram na Região Metropolitana e, por ser um projeto específico da Prefeitura de Belo Horizonte, não são totalmente contempladas pelo projeto.  

Adequação de itinerários

A Sumob já realizou ajustes tanto nos quadros de horários quanto nos itinerários de 71 linhas em todas as regionais da cidade. O chefe de gabinete explica que os usuários podem enviar sugestões e pedidos de alteração das linhas por meio dos canais oficiais da PBH e da Superintendência. 

“Um dos nossos trabalhos é a realização desses ajustes. Sempre que necessário a gente faz ajustes na rede de transporte, seja na diurna, seja na noturna. Essas alterações são frutos de demandas dos usuários e de estudos técnicos. A ideia do serviço durante as madrugadas é que uma linha opere atendendo o máximo possível do bairro”, diz Castilho.

Um exemplo é a linha 627, que a partir desta quarta-feira (11/03) passará a atender a Rua José Félix Martins, na Região de Venda Nova, em ambos os sentidos, respondendo a uma demanda da população.

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As linhas, horários e itinerários do Madrugão podem ser acessados no site da Sumob.

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