O desabamento da Casa de Repouso Pró-Vida mobilizou professores e estudantes do curso de psicologia da PUC Minas para oferecer apoio psicológico a familiares, sobreviventes e funcionários da instituição. A tragédia aconteceu na madrugada desta quinta-feira (5/3) no Bairro Jardim Vitória, região Nordeste de Belo Horizonte, onde a universidade mantinha um programa de estágio com atendimentos semanais aos idosos que viviam no local.
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A professora de Psicologia da PUC Minas e supervisora do programa, Rosana Figueiredo Vieira, explica que o trabalho desenvolvido pelos estudantes fazia parte da formação prática do curso, com o apoio incondicional da Pró-reitoria, coordenação do curso e Diretoria da Faculdade de Psicologia. “Os estágios acontecem em situações reais, como abrigos, ONGs e lares de idosos. É uma forma de os alunos aprenderem a prática da psicologia em contato direto com as pessoas”, afirma.
A parceria entre a universidade e o lar de idosos existe há mais de seis anos. Rosana assumiu a supervisão do estágio em 2022. Desde então, estudantes do campus São Gabriel realizavam atendimentos presenciais e semanais com os moradores da instituição.
De acordo com a professora, o trabalho incluía acompanhamento psicológico individual e atividades em grupo. Cada estagiário era responsável por um ou dois idosos, em sessões realizadas presencialmente dentro da própria instituição.
“Fazíamos um trabalho de acolhimento psicológico, principalmente com idosos recém-chegados, que estavam passando pelo processo de adaptação a essa nova realidade”, afirma.
Além das sessões individuais, também eram organizados grupos terapêuticos com cerca de dez a 12 idosos por encontro.
Segundo Rosana, cerca de 30 idosos viviam na casa de repouso. A maioria era de mulheres com idade acima de 70 anos e muitos apresentavam condições delicadas de saúde. “Era um perfil de idosos mais debilitados, com pessoas acamadas ou com mobilidade reduzida, mas que ainda participavam das atividades quando possível. Mesmo assim, a equipe fazia esforço para que eles participassem dos espaços coletivos, como refeitório e sala de convivência”, relata Rosana.
A professora afirma que nunca percebeu sinais de problemas estruturais no prédio durante as visitas ao local. “Nunca vimos nada que indicasse um risco dessa dimensão. Era um espaço que parecia bem cuidado e com funcionários bastante atenciosos com os idosos”, diz.
A notícia do desabamento chegou para Rosana logo no início da manhã, quando começou a receber muitas mensagens de ex-alunos que participaram do estágio e criaram vínculos com os moradores da instituição.
“O telefone começou a tocar cedo, com mensagens de alunos que já haviam atendido os moradores da instituição e criaram vínculos com esses idosos. Muitos estavam chorando e muito impactados com a notícia”, conta.
Diante da tragédia, professores do curso iniciaram um primeiro acolhimento aos estudantes e passaram a organizar uma rede de apoio psicológico às vítimas. A universidade também entrou em contato com a Defesa Civil e com equipes do Instituto Médico Legal (IML) para oferecer suporte às famílias e funcionários.
“Nos colocamos à disposição para prestar primeiros socorros emocionais, tanto aos familiares quanto aos funcionários, que também estão vivendo um momento extremamente difícil”, afirma Rosana.
A professora destaca que tragédias desse tipo podem gerar reações emocionais intensas e prolongadas. “Nesse primeiro momento é comum que apareçam sintomas como tristeza profunda, choro, falta de apetite e dificuldade de retomar a rotina. Isso faz parte do processo de luto”, explica.
Além da atuação emergencial, a equipe também planeja ampliar o acompanhamento psicológico nos próximos meses. A ideia é mobilizar alunos de diferentes períodos do curso para atender o maior número possível de pessoas impactadas pela tragédia.
Ela alerta, porém, que o sofrimento pode evoluir para quadros mais graves caso não haja acompanhamento adequado. “Quando a morte acontece de forma trágica, existe maior risco de desenvolver sintomas traumáticos ou até estresse pós-traumático. Por isso é importante que essas pessoas sejam acompanhadas ao longo do tempo”, diz.
Outro grupo que deve receber atenção especial, segundo a professora, é o de funcionários da instituição. “Eles conviviam com esses idosos praticamente 24 horas por dia. Muitas vezes criam vínculos muito fortes, então também precisam de cuidado nesse processo”, afirma.
Rosana lembra de um incêndio que aconteceu no local em abril de 2023 e ressaltou a importância da mobilização da comunidade do Bairro Jardim Vitória. “É uma região muito solidária. Em situações anteriores, os moradores se mobilizaram para ajudar os idosos do local. Essa rede de apoio comunitária é muito importante neste momento”, conclui.
Tragédia em lar de idosos
Um imóvel de três andares desabou na madrugada desta quinta-feira (5/3) no Bairro Jardim Vitória, região Nordeste da capital mineira. O primeiro pavimento funcionava como lar de idosos, chamado Casa de Repouso Pró-Vida. No segundo ficava a residência do proprietário do prédio e, no terceiro, uma academia de ginástica. No térreo também eram realizados procedimentos de bronzeamento.
Segundo o Corpo de Bombeiros, os militares foram acionados à 1h30 da manhã para socorrer as vítimas. No momento do desabamento, 29 pessoas estavam na edificação. Antes da chegada dos militares, nove pessoas conseguiram sair por conta própria. Não chovia e o prédio não fica próximo a encostas.
Até o momento do fechamento desta reportagem, o balanço oficial do Corpo de Bombeiros era de seis mortes, oito pessoas resgatadas e seis ainda soterradas.
Dos seis mortos, cinco são idosos — uma idosa de 87 anos, quatro idosos — um de 68 anos, um de 69 e dois de 78 — e o filho do dono do lar de idosos, conhecido como Renatinho.
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*Estagiária sob supervisão do subeditor Gabriel Felice
