Alexandra Perdigão, voluntária da ONG Adote Jardim Canadá, disse ter ficado chocada com o incêndio que destruiu casas de cachorros comunitários na Rua Kingston, Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, na Grande BH, no dia 28 de janeiro. Mantidas pela ONG e pelo Projeto Cãomer, as moradias visam proteger animais em situação de rua do frio e da chuva. Nenhum animal se feriu.

“Quando eu cheguei no lugar, após os incêndios nas casinhas, não consegui nem falar direito, em decorrência da extrema tristeza que senti na hora”, diz a voluntária. Ela explica que os atos de vandalismo são recorrentes e praticados por pessoas diferentes, dificultando a identificação dos responsáveis.

Segundo vizinhos, um homem teria passado de moto, os cães reagiram com latidos, e ele jurou voltar para destruir as casinhas. Depois, retornou a pé e ateou fogo às moradias. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram o suspeito ainda não identificado enquanto o incêndio se espalha. 

Nas imagens, é possível ver o responsável entre as casas dos animaizinhos, enquanto o incêndio começa a se espalhar pelas residências.

Ficou o registro do fogo nas paredes e em alguns telhados improvisados, que formavam uma cobertura para permitir que os cachorros se abrigassem da chuva. Uma vasilha com água foi colocada no local para os animais.

Essa não foi a primeira vez que as casas dos animais foram destruídas. As residências foram vandalizadas em outras três ocasiões, uma delas no final de 2025, quando uma vizinha depredou as moradias dos animaizinhos.

As casas foram reerguidas com doações de voluntários. Ao todo, seis animais vivem no local, muitos com idade avançada. A rua já chegou a abrigar 14 cães, que foram adotados ou vieram a óbito, seja pela condição de rua, seja por problemas de saúde. 

Alexandra relembra que esses atos de vandalismo são estruturais e que é necessário promover uma campanha de conscientização para crianças e jovens, para que situações como essa não se repitam. Ela cita o caso do cachorro Orelha, morto por adolescentes no início de janeiro em Florianópolis, Santa Catarina.

“Temos que trabalhar a conscientização de crianças, para terem respeito aos animais e à natureza em si. Falar sobre os problemas do abandono e sobre maus-tratos de animais, para impedir que situações como essa ocorram novamente”, afirma. “Temos que desconstruir essa mentalidade, começar a educar os mais novos, mesmo que seja um processo longo, para impedir que essa crueldade ocorra novamente. Nós que trabalhamos no acolhimento de animais de rua temos a sensação de que estamos enxugando gelo”, aponta Perdigão.

Ela denuncia que o Bairro Jardim Canadá sofre com o abandono de cães há algum tempo, em decorrência da presença de semi-tutores – pessoas que mantêm os animais na rua e não se comprometem 100% como donos.

A Prefeitura de Nova Lima enviou uma equipe ao local para averiguar a situação e decidiu que serão instaladas novas casinhas para os cães comunitários na Rua Kingston. O processo foi iniciado por meio de parceria entre a Administração Municipal e protetores independentes.

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) está à frente das investigações para localizar o suspeito de ter colocado fogo nas moradias. A corporação pede que a população, caso tenha qualquer informação sobre o paradeiro do suspeito, comunique a instituição.

Trabalho das ONGs 

O trabalho de cuidado feito no bairro de Nova Lima é realizado por voluntários das ONGs Adote Jardim Canadá e do Projeto Cãomer. Essas ações voluntárias são destacadas por Alexandra Perdigão, que relembra o quão importante é divulgar campanhas de adoção para tirar esses animaizinhos da rua.

“Muita gente acha que ganhamos para fazer isso, mas não ganhamos nada. Na realidade, sai tudo do nosso bolso”, diz. “Nossas casas e terrenos das ONGs estão com superlotação de animais. Muitas vezes ligam para mim e falam assim: ‘eu vou levar um cachorro abandonado aí para você’, porque acham que temos que fazer isso: tirar todos os animais em situação de rua e levar para nossas casas”, aponta Perdigão.

O Adote Jardim Canadá é mantido por quatro voluntários, que se revezam no processo de alimentação dos animaizinhos em situação de rua.

O Projeto Cãomer, inaugurado em 2015 e regulamentado em 2018, já registrou 925 adoções de cães e gatos em mais de 10 anos, sem devoluções. A ONG mantém mais de 70 animais sob tutela, totalizando mais de mil resgatados, e é mantida por voluntários. Segundo os responsáveis pelo projeto, recursos públicos foram recebidos apenas pontualmente, como do Grito do Bicho e do Programa de Cuidado e Bem-Estar Animal.

Alexandra Perdigão destaca que o acolhimento de animais é uma questão de saúde pública e que o trabalho das ONGs precisa ser valorizado. Ela tem em casa seis cães, alguns vindos de adoções.

“As pessoas têm que respeitar nosso trabalho. Em muitos momentos não podemos resgatar os animais, nem sempre teremos condições, seja física, financeira ou até mesmo emocional”, afirma. “Imagina se todos os protetores cruzassem os braços, o que vai acontecer com os animais comunitários?”, questiona a voluntária.

Sobre o processo de castração e vacinação dos animais em situação de rua, ela comenta que é complicado, em decorrência da hostilidade que muitos bichos apresentam.

“A prefeitura dá castração aos animais de rua, mas é necessário leva-los para castrar. Quem arca com esse gasto?”, diz. “A fêmea tem entre 10 e 15 dias para se recuperar do processo cirúrgico. Quem vai pagar esse tratamento?”, questiona Alexandra.

Cãozinho Orelha

A morte do cãozinho Orelha causou comoção social em todo o país. O cachorro em situação de rua, criado por uma comunidade de Florianópolis, em Santa Catarina, foi morto por um grupo de adolescentes no dia 4 de janeiro. O animalzinho foi encontrado muito ferido e teve de ser eutanasiado em decorrência das graves lesões que apresentava. Outro cachorro, chamado Caramelo, também foi alvo do grupo, mas conseguiu escapar antes de ser agredido.

Nessa terça-feira (3/2), a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu o inquérito policial e apontou que apenas um dos quatro supostos envolvidos na morte do cachorro é responsável direto pelo óbito do animal. A corporação pediu a internação do adolescente apontado como autor das agressões.

Os demais foram apontados como responsáveis pela tentativa de afogamento do cachorro Caramelo.

O crime de maus-tratos a cães e gatos prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, conforme a Lei Sansão, que alterou a Lei de Crimes Ambientais. Porém, quando adolescentes praticam uma conduta descrita como crime, eles cometem o que a lei chama de “ato infracional análogo a crime”.

O que diz a Lei?

A legislação, conforme o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), prevê pena de detenção de três meses a um ano para quem “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”, além de multa.

No caso de cães e gatos, a penalidade foi elevada e pode variar de dois a cinco anos de prisão, podendo ser aumentada de um sexto a um terço caso a violência resulte na morte do animal.

A pena mais alta para crimes contra esses tipos de animais decorre de uma reforma na legislação que ficou popularmente conhecida como Lei Sansão — uma homenagem ao pitbull que foi torturado e teve as patas traseiras decepadas com um facão no Bairro Capim Seco, em Confins (MG), na Grande BH.

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Após o crime cometido em 2020 contra Sansão, o Projeto de Lei nº 1.095/2019 se transformou na Lei Federal nº 14.064/2020, que acabou batizada com o nome do cachorro. A ação foi uma alteração da Lei de Crimes Ambientais, na qual foi incluído um capítulo sobre cães e gatos.

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