Da esquerda para a direita: Rodrigo Carioca (regente do bloco 'O Sorriso da Jájá'), Dona Jacira e Marcos Frederico (autor da marchinha)
Foi ao som da nova marchinha do bloco Sorriso da Jajá, criada em sua homenagem, que Dona Jacira deixou escapar "um sorrisinho". A música será o hino do cortejo, que fará seu primeiro desfile neste carnaval. A festa vai acontecer em frente ao bar Brasil 41 — nome recebido devido ao endereço, Avenida Brasil, número 41, no Bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Em três estrofes, Marcos Frederico reuniu as características mais marcantes do icônico bar, entrelaçando-as ao contexto cultural e carnavalesco da capital mineira.
Em 1982, na primeira casa da Avenida Brasil, construída em 1929, a senhora de 85 anos abriu o bar ao lado do marido, já falecido. “A região mudou muito. Naquela época, só existia o nosso bar aqui”, relembra. Com a ausência do pai, o negócio passou a ser administrado pelo filho, que, há quatro anos, foi vítima da COVID-19. Hoje, Dona Jacira comanda sozinha um dos bares mais tradicionais de Belo Horizonte e guarda uma coleção de histórias que atravessa gerações.
Ao longo de quase 43 anos, o Brasil 41 virou ponto de encontro de músicos, foliões e boêmios que, muitas vezes, aparecem apenas para uma prosa com a dona do balcão. “Antes ser querida do que ser aborrecida”, brinca Jacira.
Mas o carinho, no entanto, tem limites. “Quando ela decide que a noite acabou, não há saideira que convença”, conta Marcos Frederico, compositor da marchinha, sobre o dia a dia como freguês do bar, que frequenta há mais de 25 anos.
Foi dessa convivência longa e afetuosa que nasceu o hino do bloco O Sorriso de Jajá. Marcos, que compõe para o carnaval de Belo Horizonte desde 2012, foi “eleito” pelos amigos do bar para transformar Dona Jacira e os acontecimentos marcantes ao redor do bar em música. O resultado foi uma marchinha carnavalesca cheia de piadas internas, referências do bairro e do próprio carnaval da cidade. O refrão brinca com a risada difícil da homenageada e com o número e bairro onde fica o bar, enquanto as estrofes citam o tradicional bloco Cuequinha — que faz um pequeno cortejo até a esquina e volta “de ré” — e um ouriço-cacheiro que costuma passear pela fiação da avenida e acabou virando o mascote informal do Brasil 41.
A gravação do vídeo da marchinha seguiu o espírito do lugar: sem ensaio, sem roteiro e sem aviso prévio. Em uma noite comum, Marcos pegou o violão, começou a cantar, e um garçom registrou tudo pelo celular. A reação de Dona Jacira, com risadinhas raras e espontâneas, virou o coração do vídeo que circulou pelas redes.
Marcos Frederico, músico belo-horizontino
O Sorriso da Jajá nasceu pequeno, quase como uma brincadeira entre amigos, mas carrega uma história longa e cheia de significado. O bar também já foi ponto de referência para outros blocos — Approach e Moreré — funcionando como palco improvisado em carnavais passados e como lugar de encontro após os ensaios de músicos na Praça Floriano Peixoto.
“É bom demais ver gente”, resume Dona Jacira quando perguntada sobre a experiência de administrar e viver o dia a dia do bar. Neste carnaval, ela vai ver muita gente cantando seu nome.
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Confira a letra:
Ja já é carnaval
Um sorrisinho, será que ela dá?
Vou rezar para Santa Efigênia
Pra conquistar o sorriso da Jajá
Brasil 41, todo mundo ouriçado
No cuequinha eu vou de ré
E o ouriço cachaceiro
Vai mostrar como é que é
Qua qua quarenta e um
Um sorrisinho, será que ela dá?
Qua qua quarenta e um
É o sorriso da Jajá!