MULHERES NA CIÊNCIA

Mulheres na ciência: os desafios da maternidade na pós-graduação

Mesmo sendo a maioria nos cursos de mestrado e doutorado, mulheres enfrentam exaustão e barreiras estruturais ao se tornarem mães; muitas delas sem apoio

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Conciliar a maternidade e a carreira acadêmica ainda é um dos maiores desafios enfrentados por mulheres. Entre prazos rígidos, cobrança por produtividade e falta de políticas de apoio, muitas pesquisadoras relatam culpa e exaustão. Apesar das recentes iniciativas institucionais, a permanência das mães na ciência ainda depende de redes de apoio informais e da sensibilidade de orientadores e colegas. No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado nesta quarta-feira (11/2) relatos reforçam que é preciso ir além da data simbólica para promover mudanças que garantam mais equidade. 

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Dados mostram que a presença feminina na ciência brasileira cresceu em duas décadas. Segundo o relatório “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, da Elsevier-Bori, a participação de mulheres na produção científica nacional aumentou 29% entre 2002 e 2022. Em 2022, 49% dos artigos publicados no país contavam com pelo menos uma autora, contra 38% em 2002. O Brasil ocupa atualmente a terceira posição entre 18 países e a União Europeia com maior participação feminina em publicações científicas, atrás apenas da Argentina e de Portugal, ambos com 52%. 

Na formação acadêmica, as mulheres já são maioria. Segundo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), elas representam 55% dos estudantes de mestrado e doutorado no país. Essa presença, contudo, diminui ao longo da carreira. Em cargos de liderança, coordenações de programas e posições de maior prestígio, os homens seguem predominando. Entre os múltiplos fatores que contribuem para essa redução está a maternidade. 

É nesse ponto que se concentra o estudo da médica reumatologista Licia Mota, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) e orientadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas. Com base na própria experiência — ao engravidar duas vezes durante o doutorado — e na observação de dezenas de pós-graduandas, a pesquisadora estudou os impactos da maternidade na formação acadêmica. 

Para a médica o principal obstáculo não é a maternidade em si, mas a estrutura acadêmica. Licia explica que a incompatibilidade estrutural entre o modelo tradicional da pós-graduação e a realidade biológica e social da maternidade é um desafio. “A gravidez e o pós-parto ocorrem em um sistema desenhado para trajetórias lineares, contínuas e baseadas em disponibilidade irrestrita. Isso gera sobrecarga, insegurança acadêmica e, muitas vezes, culpa institucionalizada — como se a maternidade fosse um desvio do percurso científico, e não parte da vida.” 

Licia defende que o sistema ainda opera com uma noção ultrapassada de produtividade, baseada em presença contínua e disponibilidade total, e não em impacto intelectual ou em qualidade científica. “A maternidade é vista como risco porque desafia essa lógica. O problema não está na maternidade, mas em um modelo que não sabe lidar com trajetórias complexas e humanas.” 

A pesquisadora propõe uma inversão de perspectiva. Em vez de enxergar a maternidade como obstáculo, ela defende que o período pode desenvolver competências valiosas. “Gestar, parir e amamentar desenvolve competências de altíssimo valor científico, como tomada de decisão sob pressão, priorização estratégica, planejamento rigoroso e tolerância à incerteza. Além disso, há um ganho importante de maturidade cognitiva e emocional, que se traduz em maior clareza de perguntas de pesquisa, melhor delimitação de escopo e maior eficiência na execução dos projetos.” 

Muitas mulheres vivem a maternidade na academia de forma solitária, silenciosa e exaustiva por ausência de políticas claras e de apoio institucional, podendo levar à perda de talentos. "Só temos a ganhar ao aprender que a presença de mulheres na ciência deve ir além do estímulo à vocação, precisa ter foco na permanência, nas condições reais de formação e na equidade ao longo do percurso. Garantir extensão de prazos sem penalização, proteger bolsas durante licenças e formar orientadores sensíveis a essas realidades não são concessões. São investimentos científicos. Caso contrário, seguimos celebrando entradas enquanto perdemos talentos no meio do caminho", ressalta. 

Entre alegria e medo 

É nesse cenário que se inserem as histórias de quatro mulheres, que vivenciaram a maternidade em meio às exigências da pós-graduação. A médica reumatologista Joana Starling de Carvalho, de 39 anos, já tinha um bebê de 10 meses quando decidiu ingressar no doutorado e planejava uma nova gestação. “Quando engravidei o primeiro sentimento foi de alegria, mas o medo apareceu junto. Tive medo de não conseguir finalizar o doutorado, medo de decepcionar as pessoas que me convidaram e confiaram em mim para coordenar um projeto tão importante.” 

Com duas crianças pequenas, João com três anos, e Vitor com cinco, as noites fragmentadas e a rotina clínica, cumprir metas tornou-se um exercício diário de reorganização. “É difícil ter tempo livre para estudo, especialmente quando você concilia a pós-graduação com outro trabalho. Minhas opções eram virar a noite, esconder no quarto ou ir para a biblioteca da faculdade. Ainda assim, você adia planos e metas diante de uma semana de febre ou de adaptação escolar.” 

Em diversos momentos, Joana sentiu que precisava provar que continuava produtiva. A pressão impactou sua saúde emocional. “Por um período, não consegui ir a congressos, reuniões acadêmicas e me sentia desatualizada. Nunca quis que a maternidade fosse encarada como fraqueza ou algo que pudesse mudar meus planos profissionais ou impactar a qualidade do meu trabalho assistencial ou de pesquisa. Tive crises de ansiedade e desenvolvi uma compulsão alimentar leve.” A busca por terapia e práticas como yoga foram estratégias usadas para lidar com o desgaste. 

Joana destaca que contou com apoio da orientadora — também mãe — e dos coorientadores, além do suporte do marido e da família. Ainda assim, ela enfrentou situações de preconceito. Após a primeira gestação, quando atuava em outra instituição, foi convidada a deixar um cargo de coordenação. “Na época era professora de outra faculdade e o coordenador do curso me convidou a desistir de um cargo de coordenação, alegando que estava me achando muito cansada depois que meu filho nasceu.” 

A microbiologista Ludmila Gouveia Eufrasio, de 36 anos, descobriu a gravidez da pequena Luísa hoje com três anos no penúltimo mês do doutorado. Uma gravidez desejada em meio a alegria veio acompanhada de insegurança. “Ter um filho é uma grande responsabilidade. Tive medo de não conseguir conciliar a maternidade com a pesquisa, pois ambas exigem muita dedicação e entrega. Constantemente me perguntava se conseguiria ser uma mãe presente, bem como desenvolver meu projeto de pesquisa com excelência.” 

Durante os primeiros meses de vida da filha, Joana conseguiu se dedicar integralmente à maternidade. Quando iniciou o pós-doutorado, enfrentou dificuldades para se adaptar à nova rotina. “Mesmo sem cobrança explícita, eu me questionava se meus supervisores e equipe estavam satisfeitos com o meu desempenho. Isso gerava muita ansiedade e apreensão.” 

A ansiedade desencadeou problemas de saúde que ainda estão em tratamento. Ludmila destaca o papel do supervisor compreensivo e da rede familiar no processo. “Quando minha filha adoeceu, precisou ficar internada e não pôde voltar para a creche por um longo período, isso acabou interferindo na minha disponibilidade para estar no laboratório todos os dias. Mesmo diante dessa situação, meu supervisor continuou me apoiando e confiando na minha capacidade de desenvolver o trabalho.” 

A filha frequenta creche conveniada com a prefeitura, o que possibilita sua permanência no laboratório durante o dia. “Com a maternidade, aprendi que não temos controle sobre tudo, ainda que haja planejamento e dedicação. O mesmo acontece com a pesquisa: é necessário ter resiliência e entender que às vezes as coisas podem sair do controle e que o mais importante é continuar dando o nosso melhor.” 

Fabiana Campos, 42 anos, engravidou no segundo ano do doutorado. A decisão veio após uma perda gestacional no fim do mestrado e diante do medo da infertilidade associada à idade. A escolha foi consciente, mas atravessada por pressões pessoais e sociais. “Senti alegria imensa, mas principalmente medo”, lembra. 

Naquele momento, Fabiana escrevia a tese, havia recebido proposta para lecionar nos Estados Unidos e se preparava para mudar de país. Viveu a gestação enquanto enfrentava choque cultural, barreiras linguísticas e a pressão por desempenho acadêmico. “Foi um estresse psíquico sem precedentes”, afirma. Ela relata que chegou a se sentir desconectada do próprio corpo durante a gravidez, tamanha era a tensão. 

O receio de que a maternidade prejudicasse sua carreira era constante. Fabiana conta que passou anos sem conseguir produzir academicamente além da tese. “A culpa por não produzir era constante e afetava meu corpo.” O adoecimento físico veio como um limite imposto pelo próprio organismo. Diagnosticada com uma doença autoimune, precisou interromper atividades e enfrentar um tratamento prolongado. 

Durante esse período, enfrentou rigidez institucional. Após concluir o tratamento, recebeu um e-mail informando que deveria defender a tese em dois meses. “Eu estava tratando a saúde, não estava escrevendo. Foi quando percebi que era vista como número para manter pontuação do programa”, relata. 

Se por um lado houve pressão, por outro ela destaca o apoio decisivo do orientador. “Sem ele eu não teria conseguido continuar”, diz. O acolhimento, segundo Fabiana, fez diferença em meio ao ambiente competitivo e adoecido que observava entre colegas. 

A maternidade transformou sua perspectiva. A filha Marielle, hoje com 6 anos, é a quem dedicou a tese. “Ela é símbolo de resistência e amor.” Ainda assim, Fabiana reconhece que o processo deixou marcas profundas e que a reconciliação entre vida acadêmica e maternidade segue em construção. 

Adriana Gonçalves Queiroz, também de 42 anos, engravidou durante o mestrado. O sentimento inicial foi de medo e insegurança. Sem bolsa de estudos, acumulava dois empregos enquanto cursava a pós-graduação. Aos cinco meses de gravidez, foi chamada em concurso público em outra cidade. Trabalhava em Belo Horizonte e Caeté, enquanto conciliava a escrita acadêmica. 

Após o nascimento de Cecília, hoje com 10 anos, a dificuldade se intensificou. “Eu escrevia a dissertação entre as mamadas”, conta. Com pouco apoio nos cuidados com a filha, enfrentou noites em claro e exaustão constante. No doutorado, já como mãe solo, o peso da responsabilidade aumentou. “O corpo sente: ombros tensos, cansaço constante, dificuldade para dormir.” 

Adriana relata que muitas vezes se comparava a colegas homens ou a pesquisadoras com rede de apoio robusta. Pequenas diferenças faziam grande impacto. “Ter alguém para lavar o banheiro já representa 40 minutos que eles têm e eu não.” A síndrome do impostor tornou-se companheira frequente. 

Apesar dos desafios, ela destaca o apoio de orientadoras e a importância da bolsa Capes no doutorado. Também enfrentou obstáculos em experiências internacionais. Ao conquistar uma bolsa nos Estados Unidos que não incluía dependentes, precisou organizar campanhas para arrecadar recursos e levar a filha. “Sem minha filha eu não iria”, decidiu. 

Hoje professora universitária nos Estados Unidos, Adriana afirma que ainda não sente que consegue conciliar plenamente maternidade e produção acadêmica. O que ajuda é a flexibilidade do trabalho e o crescimento da filha. “Eu priorizo tarefas burocráticas depois das 21h, quando ela dorme.” 

Iniciativas e caminhos possíveis 

Nos últimos anos, avanços legais buscaram enfrentar parte do problema. A Lei nº 13.536/2017 garantiu a prorrogação de bolsas por maternidade. A inclusão da licença-maternidade no Currículo Lattes também passou a reconhecer formalmente períodos de afastamento. 

Para Licia, no entanto, a existência das normas não assegura sua efetividade. “Sem diretrizes claras e monitoramento, as políticas correm o risco de permanecer no plano simbólico”, afirma. Ela defende que é preciso buscar equidade e não a igualdade de direitos, com mudanças objetivas, como flexibilização real de prazos, qualificações e defesa após licença-maternidade, possibilidade de trancamento parcial ou redução temporária de carga sem prejuízo acadêmico, infraestrutura mínima, como salas de amamentação, possibilidade de levar bebês a atividades quando viável, e incentivo a reuniões em horários compatíveis. 

"Queremos que a maternidade não seja tratada como exceção ou problema, mas como uma condição legítima da vida acadêmica. Quando a pós-graduação se adapta a isso, ela não ‘perde qualidade’ — pelo contrário, ganha diversidade, permanência e produção mais sustentável”, conclui.  

Todas concordam que políticas claras reduzem a dependência da boa vontade individual e ajudam a transformar a permanência das mães na ciência em política institucional, e não exceção. 

O que as universidades têm feito? 

Diante da pressão por mudanças, algumas universidades públicas têm implementado políticas voltadas à equidade de gênero e parentalidade. Em 2025, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) inaugurou uma sala de amamentação e descompressão sensorial. O espaço foi pensado para atender mães que necessitam de local adequado para amamentar, mas também estudantes e servidores que precisem de um ambiente de regulação sensorial. 

A Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) avançou na institucionalização de políticas de equidade. Desde 2019, criou normas de combate à violência contra a mulher e estruturou a Ouvidoria Feminina. Em 2023, lançou o Programa Maternidade e Universidade (ManU), com bolsa específica para estudantes da graduação. Na pós-graduação, a Resolução nº 145/2025 instituiu a Política de Equidade de Gênero e Parentalidade, prevendo flexibilização de prazos, possibilidade de disciplinas híbridas e critérios compensatórios em editais. 

Além disso, a Ufop ampliou a infraestrutura com fraldários e banheiros não binários e desenvolve projetos voltados à promoção da igualdade de gênero na ciência. 

Na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), está em desenvolvimento a Cuidoteca, vinculada ao Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida. O espaço deverá atender crianças de 3 a 12 anos, oferecendo atividades recreativas e alimentação, com previsão de funcionamento a partir de abril deste ano. 

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*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima

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