MEIO AMBIENTE

Serra do Espinhaço: professor da UFMG alerta para consequência da mineração

Segundo Geraldo Wilson Fernandes, a devastação ambiental na região da cordilheira pode colocar em risco títulos concedidos pela Unesco ao Brasil 

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A Serra do Espinhaço, maior cordilheira do Brasil e segunda em extensão na América Latina, é reconhecida como Reserva da Biosfera pela Unesco, desde 2005. Mas este título pode estar ameaçado pela exploração de recursos minerais na região. É o que alerta o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Geraldo Wilson Fernandes. Ele afirma que enquanto grandes mineradoras são alvo de fiscalização e regulamentação, outras menores operam de forma predatória, explorando quartzo e ferro na região. 

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Fernandes, que também é coordenador do Centro de Conhecimento em Biodiversidade da UFMG e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, destaca a importância da serra para o meio ambiente, geração de energia e fonte de recursos hídricos. 

Segundo ele, a cordilheira, que se estende por 1,2 km atravessando Minas Gerais e Bahia, é um santuário ecológico que abriga, aproximadamente, 15% da biodiversidade brasileira em menos de 1% do território do país. Além disso, grande parte das espécies de fauna e flora é endêmica, ou seja, exclusiva desse ecossistema. A estimativa é que mais de 10 mil das 15 mil espécies vegetais do Cerrado estejam presentes na região. 

O professor ressalta ainda que, além do valor ecológico, a Serra do Espinhaço desempenha papel estratégico na geração de energia eólica e fotovoltaica. A cordilheira também é fonte vital de recursos hídricos para o agronegócio e para milhões de pessoas.

“É uma espinha dorsal muito importante, são milhões de pessoas que dependem da serra para produção de água. Tem sítios históricos importantíssimos e muito pouco conhecidos e explorados”, pontua. 

Fernandes lembra ainda que é na serra que nascem importantes rios do estado, como o Velhas, o Jequitinhonha, o Pardo e o Doce. 

“Suas montanhas guardam capítulos importantes da história do Brasil, onde o ouro, diamantes e outros minerais estratégicos continuam abundantes. É também um polo turístico de relevância internacional, atraindo milhares de visitantes todos os anos”, afirma. 

Exploração descontrolada 

Apesar da relevância ambiental, histórica e cultural, segundo o professor Geraldo Fernandes, a falta de fiscalização e a negligência das autoridades têm permitido uma exploração descontrolada dos recursos minerais. 

“São muitas minerações, em geral, pequenas. Empresas saíram da exploração de granito no Espírito Santo e vieram para a região do Espinhaço. Tem cortado pedras, no meu entendimento, sem planejamento macro. Como são pequenas, muitas vezes, não precisam de um relatório de impacto ambiental como o determinado para as grandes empresas”, destaca.  

Fernandes ressalta que, nos últimos anos, a exploração de quartzo tem ganhado força na região. 

“O quartzo tem sido extraído de forma acelerada e devastadora. Blocos gigantescos são retirados e transportados para processamento fora das terras mineiras e baianas, deixando para trás crateras e danos irreversíveis para todos. Antes mesmo da extração, a vegetação nativa é dizimada pelas lâminas dos tratores e por queimadas, eliminando completamente a possibilidade de descobertas de moléculas que poderiam curar doenças que nos assolam, como diabetes, cânceres, viroses, dentre várias outras.”

Os impactos ambientais da mineração do quartzo são vastas, de acordo com o professor. Ele elenca a emissão de resíduos tóxicos, alteração dos cursos d’água, modificação irreversível do relevo e a fragmentação de habitats naturais. 

“Espécies endêmicas e ameaçadas enfrentam a invasão de espécies exóticas e a degradação de seus ambientes. A pressão sobre os ecossistemas extremamente frágeis do Espinhaço pode resultar na perda definitiva de espécies e na deterioração de serviços ecossistêmicos essenciais para a sociedade”, alerta.

Risco de perda de títulos

Para o professor Geraldo Fernandes, a degradação ambiental provocada pela mineração na Serra do Espinhaço é tão grave que poderia colocar em risco o título de Reserva da Biosfera, concedido pela Unesco, em 2005. 

“Suas espécies icônicas e singulares e a sua biodiversidade estão sendo dizimadas sem que nenhuma ação real de proteção e combate às fontes de estresse estejam sendo controladas”, afirma.

Existem condições que devem ser mantidas para que o título seja preservado. “Se a região não mantiver a biodiversidade ou permitir práticas prejudiciais ao meio ambiente, como desmatamento ilegal ou poluição, o título pode ser revogado. Além disso, precisa seguir as diretrizes de desenvolvimento sustentável, promovendo atividades para reverter danos ao ecossistema. Assim, se alterações significativas nas condições ambientais que afetam o equilíbrio ecológico da área se tornarem usuais, a Unesco pode revisar o título”, explica. 

Outra preocupação do professor é com o título de Patrimônio Mundial da Humanidade da cidade de Diamantina (MG), na Região Central. Segundo ele, a cidade histórica está cercada de espécies exóticas de eucalipto e suas montanhas sofrem com a exploração do quartzo. 

“Esse reconhecimento é concedido a locais de valor cultural, histórico ou natural excepcional, mas ele pode ser revogado se o bem não for adequadamente protegido ou se sofrer alterações que comprometam suas características únicas.”

Fernandes cita alguns casos de perda de título, como o Santuário do Órix da Arábia, em Omã, retirado da lista em 2007 devido à exploração de petróleo que reduziu drasticamente a área protegida. Outro é a cidade de Dresden, na Alemanha, que perdeu o título em 2009 porque a construção de uma ponte moderna afetou a paisagem cultural do Vale do Rio Elba.

O turismo na região também pode ser afetado, na visão dele. “Os municípios não estão preparados para entender esse aspecto maior, isso tudo impacta o turismo, que é uma fonte de renda importante”, afirma. 


Mineração sustentável

Segundo o professor, por causa desse cenário, é urgente implementar práticas de mineração sustentável, além de uma rigorosa fiscalização ambiental. 

“É de vital relevância rever os estudos realizados até o momento que permitiram o licenciamento das minerações de quartzo e aplicar as regras, baseadas na ciência. A vegetação e os ecossistemas da Serra do Espinhaço são completamente diferentes daqueles que ocorrem em outras partes do Cerrado, são muito mais frágeis e de difícil recuperação natural.

Ele destaca que o governo estadual e os municípios têm a obrigação de adotar medidas eficientes para a preservação ambiental, mas a sociedade também precisa se envolver. 

“Ela também é responsável, vai ficar calada e só se mexer quando a casa está pegando fogo? Minha função enquanto cientista é relatar o que está acontecendo.”

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O Estado de Minas procurou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad-MG) para saber sobre medidas de fiscalização da exploração mineral e as licenças ambientais concedidas às empresas, mas ainda não teve retorno.

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