A farmácia de manipulação Biomagistral, em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, distribuiu um kit com medicamentos para moradores de repúblicas estudantis localizadas nas proximidades da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Entre os itens enviados, havia duas caixas de tadalafila, remédio usado no tratamento da disfunção erétil.

A região onde fica a UFOP é conhecida por concentrar repúblicas estudantis, que abrigam estudantes tanto do campus de Mariana quanto do de Ouro Preto.

O kit enviado também incluía suplemento em cápsulas (kit anti-ressaca), três flaconetes de libido feminino, um chocolate funcional e uma goma Silicium Max. Segundo o site da empresa, a rede possui mais de 350 farmácias espalhadas por todo o país. A unidade de Ouro Preto foi inaugurada em novembro, e a abertura foi celebrada pela vice-prefeita da cidade em vídeo publicado nas redes sociais.

Junto com os medicamentos, a empresa enviou uma carta na qual se apresenta como uma das mais tradicionais no ramo de manipulação de remédios e busca, com a entrega desse kit, estreitar laços com os moradores locais.

“Apresentamos à vocês, moradores das repúblicas estudantis de Ouro Preto, a Droga Rede Biomagestral Farmácia de Manipulação, com o objetivo de iniciar uma relação de proximidade, confiança e responsabilidade no cuidado com à saúde”, aponta a empresa na carta.

Diego Reis, um dos donos da Biomagistral, indicou que a intenção era entregar alguns complexos vitamínicos para moradores de algumas repúblicas da cidade. “O kit tinha um mix de chocolate, uma goma, um mix de vitamina e uma maca peruana”, apontou.

O proprietário confirmou a presença da tadalafila no kit e informou que o medicamento foi recolhido junto com os demais itens. A motivação para a inclusão do medicamento não foi divulgada até a publicação da matéria.

No momento em que obteve conhecimento sobre a ocorrência, o Conselho Regional de Farmácias de Minas Gerais (CRF/MG) enviou uma equipe ao local para impedir que a empresa continuasse a fazer a entrega dos medicamentos às repúblicas estudantis. “O uso indiscriminado de medicamentos, especialmente aqueles sujeitos à prescrição médica, pode gerar riscos graves à saúde pública, o que inclui reações adversas, resistência microbiana e até mesmo situações de emergência sanitária”, aponta nota do CRF.

A Secretaria Municipal de Saúde de Ouro Preto informou que a farmácia possui alvará de funcionamento e que não faz parcerias com nenhum estabelecimento farmacêutico para a distribuição de quaisquer kits durante o período de festividades ou em outras ocasiões. Foi indicado que será aberto um processo administrativo para eventuais punições ao estabelecimento.

A vigilância sanitária da cidade informou que o dono da farmácia entregou 25 dos 35 kits distribuídos pela empresa na cidade. Os kits restantes estavam em lugares que não tinham ninguém presente no momento da visita de recolhimento.

Tadalafila 

A tadalafila, também conhecida como Cialis, é um medicamento originalmente destinado ao tratamento da disfunção erétil, hiperplasia prostática benigna e hipertensão arterial pulmonar — sendo esses benefícios comprovados cientificamente. O fármaco age, em média, a partir de 30 minutos e pode ter ação por até 36 horas, segundo sua bula, que enfatiza que não deve ser usado por homens que não apresentam disfunção erétil.

Segundo o médico urologista Rogério Saint Clair, os principais efeitos colaterais do uso do medicamento são cefaleia, dores musculares/lombares e tontura. Há risco de surgirem problemas cardiovasculares nos indivíduos que utilizam o remédio.

“Pode causar queda da pressão arterial, especialmente com o uso associado ao álcool em pessoas com tendência à hipotensão (pressão baixa)”, diz. “Um dos problemas mais negligenciados é a dependência psicológica, em decorrência da perda de confiança na ereção espontânea e o desenvolvimento de uma ansiedade com o próprio desempenho”, aponta o urologista.

O médico ainda indica que o risco aumenta com a utilização de doses elevadas do medicamento e pode levar a lesão permanente no pênis se não for tratado.

“O uso crônico do medicamento não melhora o desempenho sexual em quem já tem função normal, não aumenta testosterona, não ‘previne’ a disfunção erétil e pode mascarar problemas emocionais, hormonais ou relacionais”, diz. “Em resumo, para quem não precisa, o risco supera o benefício”, finaliza o doutor.

Uso em academias 

Alguns atletas utilizam o medicamento para melhorar o desempenho em suas respectivas modalidades esportivas, principalmente em esportes de levantamento de peso. A principal justificativa para o uso indevido é sua ação vasodilatadora.

Em entrevista concedida em fevereiro de 2024, o médico com pós-graduação em nutrologia esportiva, Waldyk Alisson, indicou que o medicamento inibe a enzima PDE-5 e promove um maior fluxo sanguíneo para os músculos. “Isso pode melhorar a entrega de oxigênio e nutrientes, reduzindo a fadiga muscular”, apontou.

Não há comprovação científica de que a tadalafila melhore o desempenho esportivo. Um estudo publicado no “British Journal of Sports Medicine” avaliou os efeitos de uma dose única do medicamento em atletas saudáveis e não encontrou impacto significativo na performance.

A pesquisa indicou, no entanto, um aumento nos níveis de lactato sanguíneo durante a recuperação e uma redução no tempo para atingir a potência máxima, sugerindo possíveis alterações no metabolismo energético. “Embora a tadalafila promova vasodilatação, não há evidências de que isso resulte em ganhos concretos no desempenho físico”, ressalta Alisson.

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Com informações de Nara Ferreira*

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