A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) investiga por estelionato uma empresa de investimentos, registrada em Matozinhos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Até o momento, mais de 40 pessoas procuraram a corporação para registrar boletim de ocorrência contra a firma. O grupo, que se identificou como uma organização estrangeira, seria responsável por gerar um prejuízo de, no mínimo, R$ 80 milhões. Em Minas, cerca de 1.500 pessoas foram vítimas.

O caso veio à tona no último fim de semana quando diversas vítimas, que investiram na plataforma em busca de rendimentos, foram pegas de surpresa e não conseguiram acessar suas respectivas contas. Ao procurarem a empresa, as pessoas foram informadas que um “hacker” teria invadido o sistema e alterado dados bancários, o que provocou uma série de “saques indevidos”.

O grupo empresarial, que afirma ter atuação nos Estados Unidos, Índia, África do Sul, Singapura, Brasil e México, promete lucro diário a partir de valores investidos. De acordo com uma das vítimas, um morador de Matozinhos, ele foi contactado pela empresa pela internet oferecendo oportunidade de emprego e depois lucros com investimentos.  

Em um primeiro momento, os repasses foram feitos sem intercorrências, por isso, a primeira vítima recomendou o sistema para conhecidos. A situação parecia promissora, no entanto, a partir de 19 de janeiro deste ano os investidores tiveram suas contas bloqueadas. Três dias depois, a plataforma havia sido retirada do ar.

Em nota, a PCMG orientou que todas as pessoas que tenham sido lesadas, compareçam a uma delegacia para realizar novas denúncias. Para que as ocorrências sejam registradas, a corporação indica que as vítimas levem todos os documentos que comprovem a fraude.

Ameaças

O farmacêutico Dênis Daniel Rodrigues, de Matozinhos, na RMBH, conta que quando soube da empresa ficou desconfiado que os investimentos poderiam ser um golpe. No entanto, depois de um contato com uma representante do grupo e muita insistência, decidiu arriscar. Ele diz que, no começo, o empreendimento afirmava que o valor máximo para aportes era de R$ 10 mil. Depois de um tempo, novos limites foram sendo informados. Rodrigues estima que perdeu R$ 29 mil.

Ele explica que, no início, cem por cento do retorno do investimento era pago em até dois dias. Além do valor aplicado, também poderiam ser sacados o juros da transação. Mas, com o passar do tempo, quando o farmacêutico começou a depositar valores mais altos, apenas os juros eram entregues, o restante era repassado depois de dias.

“Mesmo eu não querendo investir, mesmo com medo, ela (a representante) conseguiu que eu entrasse na empresa. Eu acreditei cegamente”, lamenta Dênis.

Depois que as contas foram bloqueadas, a vítima relata que foi ameaçada pela representante de ter seus dados bancários vazados. Ao Estado de Minas, o farmacêutico afirmou que, em mensagens de texto, a mulher disse que o mataria.

Denúncias fora de Minas Gerais

A Polícia Civil diz ter recebido cerca de 40 denúncias, mas no site Reclame Aqui, um número bem maior de investidores alega ter sido vítima do esquema de fraude. Os relatos são de outras cidades mineiras e até de diferentes estados como Rio Grande do Sul, Pernambuco e São Paulo.

Em uma das reclamações, uma das vítimas detalhou como foi convidada a conhecer a plataforma, e como aos poucos foi percebendo que poderia ter caído em um golpe. Segundo a mulher, que mora em Campinas (SP), ela foi informada sobre o empreendimento com a promessa de obter uma renda extra.

Em um primeiro momento, o grupo incluía os participantes em um grupo chamado de “treinamento”, no qual eram apresentadas informações sobre a suposta origem da empresa nos Estados Unidos e sua chegada ao Brasil. “O principal discurso sempre foi o de que o objetivo da empresa seria ajudar seus clientes a obter lucros estáveis, com risco controlado, por meio de estratégias baseadas em dados, tecnologia e análise automatizada do mercado financeiro”, afirmou a vítima.

A denunciante conta que investiu na empresa por três meses, e que em 13 de janeiro os saques dos membros do grupo não puderam ser feitos. Na sequência, foram anunciadas promoções, no modelo compre um e ganhe dois, com a promessa de que o valor aplicado dobraria.

Em 19 de janeiro, os membros que haviam solicitado retiradas tiveram suas contas bloqueadas. A resposta, por parte dos administradores da plataforma, teria sido um “alto volume de solicitações”. Horas depois, os participantes perceberam que suas contas foram invadidas e seus dados bancários alterados para nomes de terceiros.

No dia seguinte, uma colaboradora informou que a aplicação foi bloqueada e, por isso, não seria possível transferir valores investidos. Em contrapartida, a opção para novos aportes permanecia liberada. Na última quinta-feira (22/1), a plataforma saiu do ar.

“Foi informado, ainda, que para que cada membro pudesse sacar seus supostos rendimentos diários, seria obrigatória a compra de um produto no valor de R$ 900. Caso o membro não realizasse essa compra, o sistema deixaria de reconhecê-lo como membro válido e seus investimentos seriam bloqueados”, afirma a denunciante, de Campinas.

Esquema de pirâmide

No Reclame Aqui, a vítima relatou que durante o tempo que continuou investindo na plataforma sofreu pressão para recrutar novos membros. Essas pessoas, também eram informadas de que deveriam apresentar o sistema para conhecidos. “Sempre que alguém questionava que se tratava de um esquema de pirâmide financeira, a resposta era padronizada, negando qualquer irregularidade”.

A mulher denuncia, também, que a pressão para angariar novos investidores teria aumentado no fim de 2025. Ela afirma que um dos líderes da empresa afirmava constantemente que o grupo não era uma “instituição de caridade”.

“A orientação para recrutamento era clara: convidar apenas familiares e amigos, nunca pessoas desconhecidas, o que aumentava ainda mais a pressão emocional e o constrangimento. Em diversos momentos, senti-me acuada, coagida e sob intensa pressão psicológica. Era exigido que eu estivesse disponível para falar com o líder e com os membros praticamente 24 horas por dia, o que se assemelhava a uma forma de manipulação psicológica”, relatou a vítima.

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A informação também foi confirmada por Dênis. O mineiro explica que depois que decidiu participar da empresa, seus gerentes constantemente afirmavam que ele deveria chamar outras pessoas para também investir. “Ela (a representante no estado) me falava para chamar os meus pais, dizia que o meu pai tinha perfil de investidor e que isso ia mudar a nossa vida”.

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