O Brasil ganhou 35 novas salas de cinema em 2025 - uma delas foi em Belo Horizonte. A boa novidade aos belo-horizontinos não para por aí: o local tem entrada gratuita, fica na região central (Bairro Lagoinha) e se dedica a exibir títulos nacionais e independentes.
Trata-se do Cine Graciano, uma sala com 48 lugares, ar condicionado e funcionamento às terças e quintas. Inaugurado em novembro de 2025, o cinema funciona como válvula de escape para quando bater o cansaço das salas de cinema dos shoppings centers. Ao todo, serão exibidos 90 longas-metragens até julho de 2026.
A iniciativa do coletivo Filmes de Rua foi viabilizada graças a uma emenda parlamentar de R$30 mil da deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL). O nome presta homenagem ao ator Hugo Graciano, integrante do grupo que teve vivência como pessoa em situação de rua e morreu em 2024 aos 26 anos. A PBH estima que o prédio que abriga o cinema é de 1920, um prédio centenário. O lugar foi tombado como patrimônio cultural do município em 2020.
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Neste mês de janeiro, o novo cinema traz uma curadoria pensada para a época de férias, com destaque para o filme “O Último Episódio”, da premiada produtora Filmes de Plástico. A sessão, no dia 22, às 19h, vai contar com a presença do diretor Maurílio Martins, que irá responder perguntas do público após a exibição. No filme, um adolescente de 13 anos se apaixona por uma colega da escola. Para conquistar a amada, ele jura que tem em mãos o episódio final do desenho Caverna do Dragão, sucesso absoluto da audiência nos anos 1980 e 1990.
Para o público infantil, o Cine Graciano disponibiliza nas próximas quintas-feiras (22 e 29/1) duas sessões de curtas da Mostra Udigrudi Mundial de Animação (MUMIA) às 15h.
Também no dia 29, o documentário “Neirud”, dirigido por Fernanda Fay, demonstra uma jornada documental da diretora que visa reconstruir sua história, partindo da investigação sobre uma mulher que cresceu com sua família circense, mas tinha a origem um tanto misteriosa.
Cine Graciano
Escolher o Bairro Lagoinha como sede, região historicamente vulnerabilizada e com intenso fluxo de pessoas em situação de rua, traz ao projeto um caráter particular. O pesquisador e membro do Filmes de Rua, João Perdigão, explica que a escolha do endereço ocorreu devido à história cultural e à contradição geográfica vivenciada nas redondezas. “Apesar de ser próximo à região central, há uma dinâmica meio periférica”, diz.
Foi no bairro Lagoinha onde nasceu a primeira escola de samba de BH (Pedreira Unida) e também o primeiro bloco de carnaval da cidade (Leão da Lagoinha). A região de história boêmia também batizou o copo comumente visto nos bares espalhados pela cidade – o lagoinha.
O coletivo Filmes de Rua surgiu em 2015, quando a diretora e fundadora do grupo, Joanna Ladeira, depois de anos de trabalho com os jovens em situação de rua no Viaduto Santa Tereza, resolveu produzir a obra Filmes de Rua (2017), homônima ao grupo. “A dinâmica do coletivo em conviver com pessoas em situação de rua ou em espaços degradados, e que vão sendo renovados, trouxe o olhar do grupo para o bairro Lagoinha”, aponta Perdigão. No passado, o coletivo manteve um espaço de cinema no Edifício Sulamérica, no Centro da capital.
Membra do coletivo e uma das organizadoras da mostra, Ed Marte, enfatiza a importância da Lagoinha para o cenário cultural do bairro e para a cidade. “É um cinema de rua aberto e gratuito para a população. É muito importante para a galera que passa, que transita por aqui, ter um lugar para assistir um filme”, diz.
Segundo Marte, a intenção é trazer obras nacionais produzidas em Belo Horizonte ou em outros estados. Construir um público cativo de cinema é outro objetivo. “Estamos abertos a quem quiser vir assistir ou até sugerir filmes”, finaliza.
Salas de rua em BH
O Brasil bateu recorde de salas de cinema em 2025 - possui atualmente 3.554 unidades. A maioria delas, no entanto, ficam dentro de shoppings. Em Belo Horizonte, o cinéfilo que se interessa por salas de cinema de rua encontra algumas opções, como o Cine Belas Artes (Lourdes), Cine Humberto Mauro (dentro do Palácio das Artes), Cine Santa Tereza, Cine Cardume (dentro da Rodoviária) e Centro Cultural Unimed-BH Minas. Outros centros culturais, como Cine Theatro Brasil (Praça 7) e CCBB (Praça da Liberdade) também costumam receber eventuais mostras de cinema.
Mas no passado o cenário era outro. Belo Horizonte já contou com dezenas de cinemas de rua (a maioria concentrada na Região Central). Uma razoável expansão pelos bairros ocorreu na década de 1940.
Foram cerca de 15 salas abertas na década, algumas atendendo a bairros como Floresta, Calafate, Santa Tereza e Cachoeirinha. No final dos anos 1970, muitos desses espaços encerraram as atividades.
O fechamento mais traumático possivelmente tenha sido o do Cine Metrópole, em 1983, que foi derrubado para dar lugar a um banco. A sala fez parte da história da capital mineira, com seu estilo clássico e elegante. Recebeu celebridades como a atriz norte-americana Janet Leigh (1927-2004), intérprete de Marion, a famosa loura esfaqueada em “Psicose”, clássico de Alfred Hitchcock.
O cinema em 2025
No Brasil, o ano de 2025 registrou queda de 11,6% no número de espectadores de filmes nacionais - foram 11.938.022 pessoas, menos do que os 13.508.206 ingressos vendidos em 2024. Os dados são da plataforma Filme B, especializada em mercado cinematográfico.
A participação do cinema brasileiro no total de público permaneceu estável em 2025 - cerca de 10,3% do volume total de bilhetes.
No balanço total de ingressos vendidos, que engloba filmes nacionais e estrangeiros, a queda foi de 10% de público, no comparativo com 2024.
Os dez filmes com maior público em 2025 foram todos estrangeiros: “Lilo & Stitch” (mais de 10,2 milhões de espectadores), seguido por “Como Treinar o Seu Dragão” e “Um Filme Minecraft”.
(Com informações de Daniel Barbosa)
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*Estagiário sob supervisão do subeditor Rafael Rocha
