À medida que o período chuvoso avança, moradores e comerciantes de áreas de risco de inundação em Belo Horizonte enfrentam o medo de terem suas casas tomadas pelas águas – efeito das fortes chuvas registradas na capital mineira, normalmente, a partir de outubro, que duram até meados de fevereiro. A situação é agravada pelo problema causado pela canalização de córregos e ribeirões no município, difícil de ser revertida e observada também em cidades ao redor do mundo.


Na Região de Venda Nova, onde passam importantes afluentes, como os córregos Vilarinho e Nado e o Ribeirão Isidoro, foi construída, em 2021, a Caixa de Captação, conhecida como “bacião”, entre as avenidas Vilarinho e Doutor Álvaro Camargo para prevenir enchentes. A bacia de contenção trouxe alívio, mas os residentes da região ainda temem novas grandes enchentes. Especialistas avaliam que a implantação das bacias é uma solução importante, mas ainda é necessário debater outras medidas, como a recuperação de mata ciliar, intensificada pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) em julho deste ano.


Conforme a Deliberação Normativa nº 111/2025, novas regras de roçagem de acordo com a declividade do terreno para ampliar a preservação da cobertura vegetal é importante para a proteção das encostas, minimizando os riscos geológicos e erosão, sobretudo no período chuvoso. O manejo de vegetação herbáceo-arbustiva de terrenos garante a absorção de água pelo solo e previne o assoreamento dos córregos e nascentes. Especialistas observam que as medidas naturais devem ser aliadas das bacias de detenção.


COMÉRCIO MAIS ALIVIADO


Projetado para receber o excesso de água da chuva e evitar alagamentos, o piscinão é uma estrutura hidráulica de captação dos escoamentos superficiais no estreitamento do Ribeirão Isidoro com área aproximada de 2.500 m² e capacidade de 10 mil m³, isto é, 10 milhões de litros. O investimento de R$ 12,8 milhões tem o objetivo de drenar o excesso de águas sobre as vias durante episódios de chuva intensa, reduzindo o risco de elevação da lâmina d’água na região e o tempo de permanência da água sobre a pista.

Cláudio Augusto da Silva, dono de um ponto de compra e venda na Rua Doutor Álvaro Camargo, diz que houve melhora, mas não é o suficiente

JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS


No entanto, enchentes na região ainda ocorrem quando o volume pluviométrico é elevado e pessoas seguem ficando ilhadas sendo vítimas de enxurradas. Para o proprietário de um ponto de compra e venda na Avenida Doutor Álvaro Camargo, Cláudio Augusto da Silva, houve melhora desde a conclusão da obra, mas não é o suficiente.


“Trabalho aqui há 25 anos. Já vi alagar milhares de vezes. Agora, a piscina (bacião) melhorou, mas continua transbordando ainda. Na minha loja não entra, porque eu tenho uma proteção na porta, mas já aconteceu muita coisa aqui. Os vizinhos sofrem mais do que eu, porque eles não têm proteção. Já morreu gente aqui e tem história. A água subia dois metros de altura, agora só sobe um metro. [A bacia] aliviou, mas é preciso mais”, pondera Augusto.


3 bilhões
de litros de água é A capacidade de armazenamento do conjunto de bacias na capital


De acordo com ele, a ação humana durante os temporais deve ser muito rápida, pois o volume de água é muito grande e, em poucos minutos, os imóveis ficam inundados. O comerciante relata que antes da construção da bacia, o fluxo vinha do sentido contrário, mas, atualmente, vem do bacião. Quando a água baixa, restam apenas o lixo e a sujeira trazida pela água.


Além da região da Vilarinho, outros córregos e ribeirões foram cobertos por grandes avenidas, como a Silviano Brandão, na Região Leste, Teresa Cristina, que corta as regiões Oeste e Barreiro, e Prudente de Morais, na Região Centro-Sul. A canalização nesses locais acaba contribuindo para as inundações recorrentes.


MEDIDAS COMPLEXAS


Para a geógrafa Márcia Marques, coordenadora do Subcomitê Ribeirão Arrudas, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas), há uma grande discussão acerca das bacias de detenção em BH, pois, segundo ela, essas obras servem como apoio para prevenir os problemas causados pelo grande volume de chuva registrado nesse período, mas causam impacto ambiental. Ela reforça que a população no entorno das bacias é quem mais sofre, uma vez que, além de riscos durante as inundações, o número de doenças transmitidas por mosquitos, o acúmulo de lixo e a proliferação de animais urbanos como ratos, escorpiões e baratas, aumenta.

Na Região de Venda Nova, a obra do reservatório Vilarinho 2 deve ser entregue em breve à população

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Na Região de Venda Nova, por exemplo, há outros dois empreendimentos em construção – o Vilarinho 2 e Nado 1, reservatórios subterrâneos com capacidade de aproximadamente 105 milhões de litros d’água cada um, incluindo a laje de cobertura, com um investimento total de R$ 263 milhões. Com funcionalidade desde 2024, o primeiro deveria ser entregue até o fim do ano passado, mas obras foram paralisadas depois de uma auditoria interna da PBH apurar indícios de irregularidades na execução de contratos de obras públicas conduzidos pela Superintendência de Desenvolvimetno da Capital (Sudecap). Já o reservatório Nado 1 está em revisão de projeto, com previsão de reinício no primeiro semestre de 2026. A coordenadora explica que, como já existem muitas bacias na cidade, é necessário cuidar também da vegetação.


“Não adianta você fazer obras se você não cuida da impermeabilização do solo, porque a medida que você vai impermeabilizando o solo, essa água da chuva vai direto para os cursos d'água e quando ela vai direto para os cursos d'água, você vai ter inundação, vai ter enchente. O que está sendo feito no resto do mundo é destampar os rios. Vários países na Europa estão destampando os rios, estão integrando os rios na paisagem e nós ainda estamos fazendo bacia de detenção. A maioria dos córregos do Ribeirão Arrudas, por exemplo, já foram tapados. Então, destampar tudo isso hoje é impossível”, diz a geógrafa.


Para ela, além das obras de apoio, deve-se ter um cuidado com a impermeabilização do solo, pois a água da chuva vai direto para os cursos d'água, causando inundações e enchentes. Ela destaca que a canalização dos rios, problema antigo da cidade, contribui para o problema das chuvas. Segundo Márcia, a rede de drenagem da cidade é muito densa, com muitos córregos tampados no século 19, como uma medida higienista da época. A geógrafa explica que destampar todos esses córregos atualmente, como está sendo realizado em cidades europeias, seria quase impossível. Uma solução palpável, segundo a especialista, seria transformar os córregos principais que integram a paisagem e transformá-los em corredores ecológicos.


MANUTENÇÃO PREVENTIVA


A cidade conta atualmente com 21 bacias, sendo que 19 estão em operação, com capacidade de armazenamento de 3 bilhões de litros de água. De acordo com a PBH, não há obras em andamento para reparar estragos causados pelas chuvas do período anterior (2024-2025). No entanto, a administração municipal realiza ações para minimizar danos causados nesta época, como a manutenção preventiva e limpeza de bocas de lobo em pontos de maior incidência de alagamentos.


Segundo o Executivo municipal, também são realizadas obras de drenagem na cidade. A exemplo, está o reparo no Anel Rodoviário, próximo a entrada da Rua José Cleto, no Bairro Santa Cruz, Região Nordeste, entre outras de tratamento e recuperação de microdrenagem. Também são feitas obras de contenção no trecho próximo à Avenida Bernardo Vasconcelos, no Cachoeirinha, Região Noroeste da capital; Rua Independência, na Vila Cabana do Pai Tomás, na zona Oeste, e na Rua Coroa Imperial, no Vila Pinho, na Região do Barreiro.

Feita sobre um córrego que foi canalizado, a Avenida Prudente de Morais, na Região Centro-Sul de bh, virou cenário de constantes inundações nos últimos anos

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Além disso, a PBH informou que foram executadas ações de recuperação de margens e canais, recomposição de dispositivos de drenagem e instalação de instrumentação complementar para o monitoramento das estruturas. A prefeitura realiza a manutenção das bacias de detenção e barragens na cidade. Até outubro de 2025, 57 mil m³ de sedimentos e detritos foram removidos e mais de 270 mil m² de áreas foram limpas.


DUAS GRANDES INTERVENÇÕES


Além dos reservatórios Vilarinho 2 e Nado 1, BH conta com outras grandes obras de bacias de contenção, como a B5, para o Córrego Ferrugem, a implantação de uma estrutura hidráulica na confluência do Ribeirão Pampulha e Córrego Cachoeirinha e obras de macrodrenagem para aumentar a capacidade de escoamento do Córrego Suzana. Juntos, os empreendimentos somam mais de R$ 500 milhões.

A implantação da B5 e obras complementares no córrego Ferrugem, na Região Oeste, começaram em 2022

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Segundo a PBH, a implantação da B5 e obras complementares no córrego Ferrugem, na Vila Sport Club, entre a avenida Amazonas, nº 9.400, e a linha férrea, Região Oeste, foram iniciadas em 2022. A bacia tem capacidade de 274.245 m³, equivalente a 274 milhões de litros d'água, já em plena capacidade. O valor do contrato é de R$ 66 milhões.


Para o Ribeirão Pampulha, duas obras são esperadas para o próximo ano. A primeira etapa do trecho Praça das Águas prevê a adequação da geometria viária do entorno e o remanejamento do interceptor de esgotos na área do empreendimento, com capacidade de 27 milhões de litros d’água, com o objetivo de captar e amortecer as vazões vindas dos Ribeirões Pampulha, Onça e Córrego Cachoeirinha. O investimento é de cerca de R$ 68 milhões, com previsão de término no primeiro semestre de 2026.


Já a segunda etapa da obra é realizada na interseção das avenidas Sebastião de Brito e Cristiano Machado, para melhorar o escoamento da galeria existente e diminuir o risco de inundações na região do Ribeirão Pampulha e do Córrego Suzana. Será implantado ainda um canal paralelo ao existente do Ribeirão Pampulha, sob a pista sentido Centro/Bairro da Cristiano Machado e o remanejamento do interceptor de esgoto do ribeirão. O custo é de R$ 139,7 milhões, com previsão de conclusão no segundo semestre de 2026. 

Ações da PBH

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A Defesa Civil de BH, que realiza monitoramento diário em toda a cidade, intensifica as ações de vigilância durante o período chuvoso em áreas vulneráveis. O objetivo é prevenir e antecipar alertas diante de risco meteorológico, como chuvas intensas, ventos fortes, granizo e deslizamentos de terra. A PBH tem um Sistema de Monitoramento Hidrológico que subsidia as ações de alerta e enfrentamento do risco de alagamentos bem como aciona planos de bloqueio de vias durante as chuvas de maior intensidade.

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