Apesar de o título de “cidade do ET” persistir por três décadas, a temática extraterrestre em Varginha se limita atualmente a poucos pontos. É difícil ver na maioria das ruas, especialmente fora do Centro, alusões ao avistamento da criatura relatado por três jovens moradoras em 20 de janeiro de 1996. Mesmo diante do interesse que o assunto segue despertando, até na comunidade internacional, o município no Sul de Minas parece ainda ser tímido em relação ao ET.
Até mesmo em pontos emblemáticos para o episódio, há poucos indicativos da história. É o caso da Rua Doutor Benevenuto Braz Vieira, no Bairro Vila Andere, onde fica o terreno baldio em que a criatura teria sido avistada. A equipe do Estado de Minas foi até a via que, diferentemente de 30 anos atrás, quando era uma área descampada, hoje tem residências no entorno, e não encontrou qualquer referência oficial ao evento.
O terreno, agora cercado, não pode ser visitado pelo público, mas a equipe de reportagem teve acesso. A área continua vazia, com vegetação alta, em meio à qual se podem ver objetos atirados de fora por cima do muro. Mas isso deve mudar: o local foi adquirido pela Prefeitura de Varginha, por meio de uma permuta, em setembro do ano passado.
A secretária municipal de Turismo, Rosana Carvalho, informa que a ideia é transformar o terreno em um ponto turístico, com infraestrutura para os visitantes conhecerem. Uma das propostas é recriar o cenário e o momento em que a criatura teria sido avistada. De acordo com a chefe da pasta, no próximo mês, a prefeitura deve promover um chamamento público para colher sugestões de projetos.
Uma escada para a história
Apesar de na Rua Doutor Benevenuto Braz Vieira não haver referências oficiais e muita coisa para ser vista, Ricardo Pereira Silva, conhecido como Juca Bala, encontrou uma maneira de conquistar os turistas — e lucrar. Ajudante na oficina ao lado do terreno onde a aparição foi relatada, ele oferece aos visitantes uma escada para que consigam ver por cima do muro o ponto exato em que o ET teria sido avistado. “Cobro de acordo com a cara do cliente”, disse, em tom divertido. Ele também avaliou de maneira positiva a ideia de transformar o ponto em uma atração oficial para conquistar turistas, especialmente por ser fora da área central da cidade.
A secretária Rosana Carvalho afirma que as pessoas que vão a Varginha por causa do ET são apenas uma pequena parcela do total de visitantes da cidade, que costuma ser destino principalmente para negociações comerciais. De acordo com ela, isso é reflexo da falta de aceitação que a cidade tinha em relação ao evento. “No começo, houve pânico, depois veio a vergonha, a chacota. Hoje é diferente. A cidade entende que isso faz parte da nossa história e da nossa identidade”, relata.
Influência internacional
Segundo a chefe da pasta de Turismo, essa mudança de postura da cidade não partiu inicialmente dos moradores ou do poder público, mas da influência externa. Pesquisadores, documentaristas e veículos internacionais passaram a olhar para Varginha e a se debruçar sobre o caso. “Essa questão veio muito de fora para dentro. Começaram a vir ufólogos, TVs estrangeiras, os documentários. A TV japonesa esteve aqui, depois vieram outros documentários, e aí as pessoas começaram a se soltar, a falar mais sobre o assunto”, explica.
Rosana também afirma que o turismo ufológico ganhou novo fôlego após a retomada do caso Varginha por produções audiovisuais nacionais e internacionais. “Depois do relançamento do documentário do James Fox, com novos testemunhos, houve um boom de visitantes”, diz. A TV Globo também revisitou o caso neste ano com a série documental “O mistério de Varginha”.
Diante desse cenário de aceitação e retomada do caso, Rosana diz que o objetivo é apostar mais na história do extraterrestre de Varginha, assim como foi feito com a criação da Rota do ET e os investimentos no memorial. Para ela, mesmo depois de três décadas do episódio, ainda é tempo para consolidar Varginha como a Cidade do ET. “Hoje, depois de 30 anos, o caso é mais conhecido e mais discutido do que na época”, afirma.
Ricardo Pereira Silva na escada que aluga para turistas observarem o terreno onde o contato com o ET foi relatado
Objetivo é atrair outros visitantes
Entre os principais desafios para conquistar os visitantes com a temática extraterrestre, Rosana aponta a dificuldade de “segurar” as pessoas no fim de semana. “É um turista que está na [rodovia] Fernão Dias, passa por Varginha para conhecer a cidade do ET, vem ao memorial, almoça no shopping, vai ao parque e vai embora”, relata. O objetivo é garantir mais atrações para que os visitantes fiquem mais tempo e movimentem o setores hoteleiro, comercial e gastronômico.
Para a secretária de Turismo, também é um desafio a ausência de guias especializados e a articulação com estabelecimentos da cidade. “A gente ainda não tem, por exemplo, um monitor que faça essa rota. O turista pega um folder ou entra no site e faz sozinho”, explica.
Opiniões divididas
Assim como a veracidade da história do ET de Varginha divide opiniões até hoje, moradores da cidade divergem sobre a tentativa de tornar o extraterrestre protagonista. Cristiane Costa, de 49 anos, que nasceu e mora na cidade, acredita que o investimento no caso ainda vale a pena. “Falo que é a única coisa que tem em Varginha. Muitas pessoas vêm visitar a nave, a estátua, e gostam muito”, diz ela, que é auxiliar de serviços gerais.
Em contrapartida, Marcos Henrique Benetton, corretor de imóveis e morador de Varginha há 63 anos, não aprova a tentativa de trazer o caso de volta à tona. “Não dá mais tempo. Já era”, acredita. Para ele, apostar na história não faz sentido, por ela não ter sido verdadeira. “Tem que ver para crer. Mineiro tem esse problema”, conclui.
Relembre o caso
Antes mesmo do episódio que tornaria Varginha conhecida internacionalmente, moradores da região já se referiam à observação de objetos luminosos cruzando o céu em baixa altitude. Relatos semelhantes surgiram em cidades próximas, como Três Corações, Campanha, Alfenas e São Bento Abade.
Pesquisadores defendem que esses avistamentos apontam para a queda ou pouso forçado de um objeto não identificado. Autoridades militares, por outro lado, afirmam que não houve qualquer registro anômalo nos sistemas oficiais de monitoramento aéreo.
Fora do radar ou não, 20 de janeiro de 1996 foi o dia em que tudo mudou. Era um sábado, por volta das 15h30, quando as jovens Kátia de Andrade Xavier, Liliane Silva e Valquíria Silva voltavam para casa depois de ajudar com uma mudança nas redondezas. Elas passavam por um atalho quando avistaram algo estranho em um terreno baldio no Bairro Jardim Andere.
As três jovens descreveram uma criatura de aproximadamente 1,5 metro, corpo magro, pele escura e oleosa, olhos grandes e avermelhados, cabeça volumosa e com três protuberâncias. Chegaram a acreditar que se tratava de um demônio. O relato causou pânico imediato e rapidamente se espalhou como fogo pela cidade, pelo estado, no país e fora dele.
Comboios militares
Paralelamente, surgiram relatos de movimentação intensa de viaturas militares na região. O clima de estranhamento já se alastrava pela cidade e foi irrigado com mais combusível. Pesquisadores de fenômenos ufológicos afirmam que uma criatura foi vista nas proximidades do zoológico da cidade, e que animais, entre eles uma anta, uma jaguatirica e veados, morreram de forma considerada atípica no mesmo período.
Na época, relatos de moradores sobre comboios militares circulando entre Varginha e Três Corações, onde fica a Escola de Sargentos das Armas (ESA), aguçaram a curiosidade e alimentaram teorias. Esses deslocamentos se tornaram um dos principais focos da investigação independente. Já o Exército sustentou que as atividades eram rotineiras, relacionadas a treinamentos e manutenção de viaturas.
No fim de 1996, o pesquisador Vitório Pacaccini lançou o livro “Incidente em Varginha”, que narrava os avistamentos e outros relatos de criaturas e objetos voadores não identificados. Em meio às alegações, questionamentos e suspeitas, houve a abertura do Inquérito Policial Militar nº 18/97, concluído em 1997. O relatório final afirmou não haver provas materiais ou testemunhais confiáveis que sustentassem a captura de criaturas, o transporte de destroços ou o envolvimento internacional. As narrativas foram classificadas como baseadas em suposições e depoimentos indiretos.
A principal resposta para o caso é de que o ser visto pelas meninas seria, na verdade, um homem em situação de vulnerabilidade social, com deficiência mental, frequentemente visto circulando pela região, conhecido como “Mudinho”. Agachado, sujo de lama e assustado, ele teria sido interpretado como uma criatura de outro planeta. Mas, 30 anos depois, essa explicação está longe de encerrar o mistério. Assim como qualquer outra.
estátua no Memorial reconstitui criatura descrita por três jovens de Varginha em 1996 e o ambiente em que o avistamento teria acontecido
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Congresso de ufologia com vagas esgotadas
Para marcar os 30 anos do caso, Varginha aposta em programação especial, com destaque para o Congresso Internacional de Ufologia, em 24 e 25 de janeiro, no Auditório do Colégio Fessul. O evento integra as ações promovidas pela prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Turismo e Comércio, e contará com palestras exclusivas, painéis de debate, relatos inéditos e exibições especiais, reunindo pesquisadores, estudiosos, comunicadores e interessados no tema. A procura surpreendeu. “Em uma semana, as inscrições se esgotaram. Tivemos que abrir novas vagas para estrangeiros que já tinham passagem comprada”, relata a secretária municipal de Turismo, Rosana Carvalho.
