Em 20 de janeiro de 1996, um evento ainda cercado de mistério e perguntas mudava a história de Varginha, no Sul de Minas Gerais. Na época com pouco mais de 100 mil habitantes, a partir daquela data o lugar se tornaria conhecido, nacionalmente e até no exterior, como aquele em que três jovens asseguravam ter avistado um ser extraterrestre (relembre o caso na página 41). Desde então, o município ganhou o imaginário popular como a “cidade do ET”, virou ponto de turismo ufológico e retrata por ruas, monumentos, praças e pontos de comércio referências – mais fictícias ou menos – o emblemático evento. No entanto, ainda que tenham se passado 30 anos, a aceitação desse título ainda é recente entre moradores, e a expectativa é de que o investimento na história que transformou a rotina local aumente nos próximos anos – a começar pela aquisição, pela prefeitura do terreno onde a aparição foi relatada.
Logo na entrada de Varginha, placas dão as boas-vindas à “Cidade do ET” ou até à “ET city”. Quem entra no município, como a equipe de reportagem do Estado de Minas fez neste mês que marca os 30 anos do caso, se depara também com pontos de ônibus em formato que lembra uma nave espacial na extensão da via de acesso.
A temática “de outro planeta” continua pelo Centro da cidade, na Praça Marechal Floriano, onde há duas referências ao caso: a estátua estilizada de um extraterrestre e a caixa d’água em formato de nave espacial. Não por acaso, o ponto se tornou a principal parada de turistas que passam pela cidade e descem para tirar fotos, entre eles Adriana Rosa, de 51 anos. Especialmente para a ocasião, a moradora de Taboão da Serra, em São Paulo, colocou brincos de ET. “Sou uma adepta da ufologia. Adoro essas coisas místicas, ETs e naves”, disse ela, que exibiu a tatuagem de nave espacial que tem na nuca.
Acompanhada da filha, Hannely Kanzawa, de 18, Adriana tirou muitas fotos e contou ter se sentido realizada por ter visitado a cidade. “É algo que tinha que cumprir na minha vida”, afirmou a paulista, que, no entanto, admitiu que esperava uma estátua mais moderna do “visitante ilustre”. E reclamou não haver um bom local para estacionar por perto. Localizado no Centro da cidade, o ponto conhecido como Praça da Nave fica na interseção de uma avenida com ruas movimentadas.
Apresentado à nova geração
O ET de Varginha voltou à cena pela lembrança dos 30 anos completados desde a suposta aparição, e pelo mistério que, tanto tempo depois, ainda cerca o caso. Isso tem permitido que crianças conheçam a história. Jade Rodrigues Silva, de 8 anos, ficou encantada com o assunto e convenceu o pai a levá-la de Itajubá, também no Sul de Minas, a Varginha após ter lido no jornal sobre o episódio de outro mundo. José Carlos da Silva, de 48, contou ao Estado de Minas que dirigiu por cerca de duas horas e meia para realizar a vontade da filha.
Ao lado do irmão, Caio Rodrigues Silva, de 11, Jade ficou empolgada ao tirar foto com o ET, que chama atenção pela cor verde vibrante e o sorriso. No entanto, apesar do interesse, ela declarou que não acredita que a história seja verdadeira. “Acho que é só brincadeira”, disse, em tom decidido.
os irmãos Alice e Antônio Lucchesi, de 12 e 10 anos, diante de uma das estátuas estilizadas: história transmitida por gerações
“Brincadeira” ou não, o fato é que o cenário no Centro de Varginha se tornou também ponto de parada nos roteiros de viagem de quem está de passagem. Os irmãos paulistanos Alice e Antônio Lucchesi, de 12 e 10 anos, estavam a caminho de Capitólio, na mesma região, e desceram do veículo acompanhados da mãe, Beatriz Lucchesi, de 46, para ver de perto o ET, cuja história já conheciam. “Achei bem criativo a cidade cooperar para fazer tudo isso”, observou Antônio.
A poucos metros da Praça da Nave, na Praça Getúlio Vargas, também há duas estátuas de ET. Apesar de elas serem mais fidedignas à criatura descrita pelas três meninas que relataram a aparição — de pele marrom e oleosa, com olhos vermelhos — e não serem carismáticas e lúdicas como o ET verde, as crianças também se divertem tirando fotos com elas.
Na cidade, apesar da fama conquistada pelo ET, não há muitos pontos para comprar lembranças que remetam ao caso. O estabelecimento que é referência para isso é a Papelaria Papel & Cia, localizada no Centro. Logo na entrada do comércio, o visitante é recebido por “ETvaldo”, uma estátua de cerca de um metro, com pele dourada e grandes olhos vermelhos. À venda, há opções para todos os gostos, como chaveiros, imãs, copos estilo lagoinha e até pequenas estátuas de extraterrestres vestindo camisas de times de futebol — há versões atleticana, cruzeirense, flamenguista, corintiana e outros clubes.
O ET viaja por todo o mundo
“Acho que a cidade cresceu muito por meio da história do ET. Aqui na loja a gente sempre vendeu muito, temos clientes de vários lugares, estados e países”, explicou Adriana Guimarães, que trabalha na Papelaria Papel & Cia há quatro anos. Para ela, o caso ajudou a cidade a se desenvolver. Neste ano, com três décadas completas, a comerciante relatou que o interesse pela história aumentou. As vendas decolaram junto.
Thaís Helena Leite, de 28, também trabalha na Papel & Cia e informou que os ETs comprados na loja viajam o mundo inteiro. Ela relembra o caso de uma cliente que comprou dezenas de bonequinhos para levar para Amsterdã, na Holanda, onde ia visitar o filho, que estava fazendo intercâmbio e queria presentear amigos.
Outra opção de local para comprar suvenires do mascote de Varginha é a banca de José Ailton de Carvalho, que expõe opções de chaveiros e bonecos do ET na Praça Getúlio Vargas. No Memorial do ET, localizado no Bairro Vila Paiva, uma associação de artesãos locais também vende produtos que remetem ao caso.
Museu extraterrestre
Um dos pontos mais importantes do turismo ufológico de Varginha é o Memorial do ET. Em formato de nave, o espaço cultural e turístico reúne registros produzidos ao longo das últimas três décadas sobre o episódio. O acervo conta com documentos, reportagens nacionais e internacionais, livros, revistas estrangeiras, vídeos, depoimentos e materiais relacionados às investigações e repercussões da história. Entre os elementos em exposição, há uma reportagem publicada pelo Estado de Minas em maio de 2001, com o título “Igreja não descarta vida fora da Terra”, usada para reforçar a possibilidade de a aparição extraterrestre ter sido verdadeira.
“Aqui não é só para tirar foto. Aqui é uma memória desse caso estranho, em que aconteceu alguma coisa. A gente não está aqui para discutir se é verdade ou mentira. Tudo o que foi falado, o que saiu na imprensa, o que virou documentário, está aqui”, afirma Rosana Carvalho, secretária de Turismo e Comércio de Varginha.
O memorial também tem estátuas variadas do ET, com opções mais lúdicas e versões que seguem a descrição feita pelas três meninas naquele 20 de janeiro de 1996. Há também opções de cenários para tirar fotos, incluindo uma recriação da cena em que o ser extraterrestre teria sido visto, e diversos elementos que remetem à temática intergaláctica, como naves espaciais e planetas. É esse cenário que conquista as crianças.
“Tem aquele turista que vem pelo mistério envolvido, que quer entender o que o Exército nunca explicou, que lê documento por documento. E tem aquele pessoa que está turistando mesmo, que vem pela arquitetura, pelos espaços coloridos, pelos espaços 'instagramáveis'”, detalha a secretária.
No rastro da criatura
O memorial é um dos pontos que compõem a Rota do ET, circuito turístico que reúne lugares emblemáticos e atrações que remetem à história. No roteiro, são destacados os seguintes pontos: avistamento da nave; avistamento da criatura; segundo avistamento da criatura; local da captura da criatura; transporte da criatura; primeiro atendimento da criatura; e segundo atendimento da criatura.
O roteiro consta em totens espalhados pela cidade, como na Praça da Nave e no Memorial do ET. “A ideia é permitir que o visitante percorra a cidade entendendo o caso em ordem cronológica, com informação e contexto”, explica Rosana Carvalho. Segundo ela, o circuito foi pensado para ser uma experiência educativa e imersiva, e não apenas contemplativa. “A gente não está dizendo o que é verdade ou não. O que o roteiro faz é apresentar fatos, relatos e o contexto histórico. O visitante tira as próprias conclusões”, ressalta.
A Rota do ET foi desenhada para narrar os acontecimentos de janeiro de 1996 passo a passo, respeitando a sequência dos relatos que compõem o caso. O percurso começa na zona rural, onde fazendeiros relataram ter visto um objeto voador com fumaça e destroços metálicos dias antes do episódio ganhar repercussão nacional.
O segundo ponto é no Bairro Santana, onde teria ocorrido a captura da criatura, ainda na manhã de 20 de janeiro de 1996. O trajeto segue para o Jardim Andere, ponto mais emblemático do caso, onde as jovens Liliane, Valquíria e Kátia afirmam ter visto a criatura agachada junto a um muro em um terreno que permanece intacto até hoje.
No mesmo bairro, outro totem marca o local onde o policial Marco Eli Chereze teria tido o contato direto durante a captura de uma segunda criatura, em uma noite de chuva intensa. O agente morreu dias depois, vítima de uma infecção bacteriana.
A narrativa avança então para os hospitais da cidade. Primeiro, o Hospital Regional, para onde o ET teria sido levado inicialmente, e depois o Hospital Humanitas, onde, segundo relatos, a criatura teria permanecido sob guarda militar em uma ala isolada, antes de ser retirada de Varginha.
O percurso inclui ainda o Parque Zoobotânico, onde, à época, foi registrada a morte misteriosa de cinco animais — episódio que ufólogos associam ao contato com o ser ou a gases exalados por ele.
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Visitas ao memorial superam os 100 mil
O Memorial do ET (foto acima) foi inaugurado em Varginha em 9 de novembro de 2022, após anos de planejamento e obras iniciadas na década anterior. Em 7 de novembro de 2023, o espaço foi fechado para reforma. Foi reaberto em junho de 2024 e, desde então, já registrou a visita de mais de 100 mil pessoas. A secretária municipal de Turismo e Comércio, Rosana Carvalho, acredita que o número deve ser ainda maior, considerando visitantes que não se registraram.
