Mineira desaparecida em Caldas Novas: síndico é denunciado por perseguição
Daiane foi vista pela última vez em dezembro. Perseguições teriam acontecido no início de 2025 e, até o momento, não têm relação com desaparecimento
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O paradeiro da mineira Daiane Alves de Souza, de 43 anos, que desapareceu em Caldas Novas, no Sul de Goiás, ainda é um mistério. A corretora foi vista pela última vez em 17 de dezembro de 2025 depois que foi até o subsolo do prédio onde mora para conferir um quadro de energia. Até o momento, a família da vítima não possui nenhuma atualização sobre o que teria acontecido. Em paralelo, na segunda-feira (19/1), o Ministério Público (MP) de Goiás enviou à Justiça daquele estado uma denúncia criminal contra o síndico do edifício onde a mineira desapareceu. A medida é por crime de perseguição com agravamento por abuso de autoridade.
Desde que o desaparecimento de Daiane teve repercussão, seu histórico de conflitos com outros moradores do condomínio, e em especial o síndico, também ganhou os holofotes. Segundo a denúncia do MP, entre fevereiro e outubro do último ano, o responsável pela administração do edifício Amethist Tower “perseguia reiteradamente” a vítima.
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Conforme o documento, o qual o Estado de Minas teve acesso, os episódios começaram em novembro de 2024 quando Daiane alugou dois apartamentos, os quais é proprietária, para duas famílias - totalizando nove pessoas. No entanto, o número de inquilinos temporários ultrapassou a quantidade autorizada pelo condomínio.
O episódio teria sido, conforme a denúncia, o estopim para o desentendimento entre o síndico e a moradora. Desde então, o denunciado teria passado a perseguir a vítima, usando sua condição de poder para dificultar eventuais requerimentos de Daiane. Um dos dificultadores seria exigir que todas as solicitações de manutenção fossem feitas de forma presencial, com apresentação de requerimento com assinatura reconhecida em cartório.
Além disso, segundo o Ministério Público, as discussões entre o homem e a vítima eram frequentes por aplicativos de mensagem ou presencial. Em uma das ocasiões, em fevereiro de 2025, o síndico teria agredido Daiane com uma cotovelada.
“Denunciado também monitorava toda a movimentação de Daiane pelo condomínio, bem como de seus hóspedes, pelo sistema de vigilância por câmeras, enviando as imagens para a irmã da vítima”, aponta o MP-GO.
Expulsão
Em agosto de 2025, quatro meses antes de desaparecer, uma Assembleia Geral Extraordinária, composta por proprietários do empreendimento, optou pela expulsão da vítima. A decisão estipulou que Daiane deixasse o local no prazo de até 12 horas e não se aproximasse da recepção. O documento cita apenas que a medida foi tomada após “ocorrências” envolvendo a moradora.
“Fica desde já o síndico e demais funcionários do condomínio autorizados a tomar quaisquer medidas que foram necessárias para impedir o acesso e permanência da Sra. Daiane”, pontuou a ata da assembleia.
No entanto, meses depois, Daiane pôde voltar a frequentar o endereço após decisão do 1º Juizado Especial Cível e Criminal de Caldas Novas. Na sentença, o juiz André Igo Mota de Carvalho apontou que a corretora não teve direito à ampla defesa e, por isso, suspendeu os efeitos da votação, até que o caso pudesse ser analisado judicialmente.
Energia cortada
Ainda de acordo com a denúncia por perseguição contra o síndico do prédio onde Daiane mora, o Ministério Público de Goiás indica que o homem sabotava serviços de água, internet, gás e eletricidade dos apartamentos geridos por Daiane. Ele seria o responsável por fechar registros, desligar padrões de energia e desconectar cabos. “Com duas condutas, o denunciado ameaçou a integridade física e psicológica de Daiane, que se via monitorada constantemente, perturbada em seus afazeres profissionais, atingindo a liberdade e privacidade da vítima.”
A queda de energia elétrica em seu apartamento foi o motivo que fez a corretora mineira ir até o subsolo do prédio no dia que desapareceu. Em um vídeo enviado a uma amiga, Daiane mostra que seu apartamento está sem luz e diz que vai até a portaria do local confirmar se houve algum problema. Na gravação, é possível ver que apenas o imóvel está no escuro, enquanto as luzes do corredor estão acesas, e o elevador, funcionando.
Ao EM, Nilse Alves Pontes, mãe de Daiane, ao informar os desentendimentos da filha com o síndico, reforçou que a família não está apontando que as ocorrências tenham relação. No entanto, afirma que os parentes estavam sofrendo com as atitudes do administrador.
“Toda a família viveu muitos problemas com o condomínio nos perseguindo. Vários em fase de julgamento pela Justiça”, comenta a mãe de Daiane sobre os problemas anteriores ao seu desaparecimento.
O que aconteceu com Daiane?
No dia em que desapareceu, a mineira foi vista pela última vez às 18h50, quando foi flagrada por câmeras de segurança do edifício. Ela entra em um elevador fazendo um vídeo com seu celular e aperta o botão do térreo e do subsolo. No primeiro andar ela sai, mas, dois minutos depois, volta.
Familiares explicam que Daiane fazia um vídeo para mostrar que houve um pico de energia no prédio. As imagens foram enviadas a uma amiga da vítima. Na gravação, a corretora diz que vai à recepção perguntar se a concessionária responsável pelo fornecimento de energia elétrica em Goiás tinha ido até o prédio, já que suas contas estavam pagas.
De volta ao elevador, a vítima aperta o botão para o subsolo. Ela filma que está entrando no pavimento, sai do elevador e não é mais vista. No entanto, as gravações feitas após ela adentrar subsolo não chegaram a ser transmitidas.
Segundo familiares, as câmeras de monitoramento do edifício não mostraram a mineira saindo do local e seu carro estava em uma oficina mecânica. Além disso, tirando o celular, a mulher não estava com nenhum pertence pessoal.
“Ela saiu de casa nitidamente com a intenção de religar a energia. Saiu sem óculos e deixou a porta do apartamento aberta. A minha filha desapareceu, literalmente, dentro do prédio”, afirma Niles Alves Pontes, mãe de Daiane.
Como estão as investigações?
O caso está sendo investigado pela 19ª Delegacia Regional de Polícia de Caldas Novas. Desde o desaparecimento, segundo a corporação, foi montada uma “força-tarefa” sob a coordenação do Grupo de Investigação de Homicídios (GIH).
“A investigação encontra-se em andamento, com a realização contínua de diligências de campo, oitivas, análises técnicas e demais medidas investigativas cabíveis, visando à localização da desaparecida e à elucidação das circunstâncias do caso”, afirmou a PC-GO.
Além disso, a corporação reforçou que qualquer informação sobre o paradeiro de Daiane pode ser repassada, com garantia de sigilo absoluto, por meio do telefone 197 ou pelos canais oficiais da Delegacia de Polícia de Caldas Novas.
Em entrevista a uma emissora local, o delegado responsável pelo caso, André Luiz Barbosa, informou que as imagens da câmera de segurança do prédio foram apreendidas e serão periciadas para confirmar se houve, ou não, adulteração. “Se existiam imagens que poderiam estar perdidas e que não tenham sido passadas para a Polícia Civil”, disse.
Além disso, Barbosa afirmou que o condomínio que Daiane mora possui vários blocos e inúmeras possibilidades de saídas. Para ajudar nas investigações, itens pessoais da mulher - como uma escova de cabelo, seu notebook e um caderno -, foram apreendidos e levados para a perícia.
Na época do desaparecimento, a corporação fez uma busca com cães farejadores em uma área de mata ao lado do prédio, mas nada foi encontrado. Cartazes com a foto da mulher também foi espalhados pela cidade, pedindo informações sobre seu paradeiro.
Família procura por respostas
Diante da falta de informações sobre a filha, Nilse Alves Pontes conta que a família tem vivido momentos de pânico. Ao Estado de Minas, a mulher lamentou a falta de respostas e a morosidade das investigações.. “Há momentos de pânico, de muita dor. E a gente vai se apoiar em Deus”.
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A vítima tem uma filha de 17 anos, que foi a primeira pessoa a notar seu desaparecimento. Ao chegar em casa, ela encontrou a porta do apartamento da mãe trancada e não conseguiu contatá-la. A adolescente então ligou para a avó, que estava a caminho do endereço. “Nós estamos vivendo uns dias de terror. Se alguém, por acaso, tiver alguma notícia, que seja de verdade, por favor nos ajude”, pede Nilse.