Alerta nas férias

Do lazer ao risco: afogamentos aumentam nas águas de Minas

Combinação de altas temperaturas com temporada de viagens eleva perigo em rios, lagos e cachoeiras no estado, que registrou alta de 18% nas mortes até novembro

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As cachoeiras, rios e lagos de Minas Gerais são atrações certas nos meses de férias de fim de ano e janeiro, sobretudo com o calor que costuma marcar esta época no estado. Mas a diversão na água envolve riscos, e cuidados são indispensáveis para não transformar o lazer em tragédia. O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) já registrava 18% de aumento nas mortes por afogamento no estado nos 11 primeiros meses do ano passado. De janeiro a novembro de 2025, 246 pessoas perderam a vida dessa maneira, contra 209 em período equivalente de 2024.

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Para mapear esses perigos, a equipe de reportagem do Estado de Minas analisou dados do Ministério da Saúde para revelar quantas pessoas morreram nos municípios de Minas Gerais que concentram mais atrações como balneários, mananciais e quedas d’água.


Os registros são referentes a afogamentos em águas naturais por queda ou entrada voluntária. Entre 2022 (fim do período mais restritivo de isolamentos devido à pandemia do novo coronavírus) e 2024, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do ministério registrou 605 mortes por afogamento em Minas Gerais. Os meses com mais vítimas foram março, com 74 registros, janeiro e fevereiro, com 64 cada.


Qual o impacto dos feriadões?

Nesse intervalo, o ano de 2022, quando teve início o relaxamento do distanciamento social devido à pandemia, foi o de menos registros de mortes por afogamento no estado, com 178. O pior ano da série foi 2023, quando foram computados 227 óbitos. “O ano de 2023 foi atípico, devido a uma conjunção de fatores como o fim do isolamento por causa da pandemia e também as fortes ondas de calor registradas”, salienta o tenente Henrique Barcellos, porta-voz do Corpo de Bombeiros.


Em 2024, um total de 200 pessoas se afogaram e morreram em águas naturais do estado. “O ano de 2024 teve menos feriados prolongados e isso tem impacto na disponibilidade de dias de lazer ao ar livre. Quando se tem muitos feriados nas segundas-feiras e sextas-feiras, mais pessoas buscam essas atrações e o risco aumenta”, afirma Barcellos.


Os municípios com mais mortes por afogamentos no período avaliado foram Felixlândia, com 15 óbitos. Em seguida aparecem Governador Valadares e Uberaba, com 12; Divinópolis (11); Juiz de Fora e Uberlândia (9); Boa Esperança e Patos de Minas (8); Betim, Conceição do Mato Dentro, Januária, Muriaé e Pompéu, com 7 cada uma.


A faixa etária com mais vítimas foi a de 40 a 49 anos, com 109 mortes, seguida pelas faixas de 30 a 39 anos (100), 20 a 29 anos (99), 50 a 59 anos (83), 15 a 19 anos (68), 1 a 14 anos (63), 60 a 69 anos (56) e 70 anos ou mais (26).


Homens morrem mais. Por quê?

A maior parte dos mortos por afogamento no período avaliado eram homens, somando 534 óbitos (88%), enquanto 71 (12%) eram mulheres. Entre as vítimas, 26 chegaram a ser levadas para um hospital, mas não resistiram. Outras 12 foram conduzidas a outros estabelecimentos de saúde e 91 morreram em via pública, provavelmente a caminho de socorro.


“Pessoas do sexo masculino estão em 90% das ocorrências de afogamentos, por uma característica, até os 30 anos, de quererem se mostrar mais ousadas. Isso leva a análises de riscos equivocadas. A maioria se expõe a riscos desnecessários, quer fazer um salto mais difícil ou chegar a uma distância maior a nado”, afirma o tenente Barcellos.


“O álcool também é um grande vilão. A bebida inibe a percepção de riscos, propicia coragem na hora errada e também prejudica o reflexo, a reação. A habilidade de nadar se perde ou diminui”, destaca.


O levantamento do Ministério da Saúde também incluiu a escolaridade de 72% das vítimas, revelando que a maior parte dos mortos por afogamento em Minas Gerais tinha entre 8 e 11 anos de estudo, somando 187 vítimas; 137 frequentaram salas de aula de 4 a 7 anos; 53 tiveram educação formal por um a três anos; 20 estudaram por mais de 12 anos e 38 não tinham nem um ano de escolaridade.


A situação civil de 84% das pessoas que perderam a vida por afogamento revela que os solteiros morreram mais, chegando a 351 vítimas, seguidos pelos casados, com 100, separados judicialmente, com 38, e 17 eram viúvos.


Observando os municípios pertencentes a alguns dos polos turísticos mais importantes do estado para banho em cachoeiras, lagoas, rios e praias fluviais, as cidades do circuito do Lago de Furnas registraram um número maior de afogamentos no período avaliado, somando 56 vítimas. Contudo, é importante destacar que esse é o destino com maior número de municípios, com 39% do Sul e Centro-Oeste de Minas Gerais.

Ameaças na bacia do São Francisco

O segundo circuito com mais registros de vítima é o do Lago de Três Marias, represamento do Rio São Francisco entre as regiões Central, Centro-Oeste e Noroeste de Minas Gerais, com seus nove municípios computando 33 óbitos. As praias do São Francisco também são grandes atrativos, sobretudo no Norte de Minas, em Januária, Pirapora e Buritizeiro, e no Centro-Oeste, em Vargem Bonita. Cidades que somaram a perda de 15 vidas nesse período (confira mais circuitos na tabela ao lado).


Um estudo de 2025 sobre a gestão de risco para redução de afogamentos do 4º Comando Operacional de Bombeiros (COB), com foco nas Áreas de Interesse Operacional dos municípios de Felixlândia (maior número de mortes por afogamentos) e Januária (entre os nove municípios com mais mortes) revela quadros diferentes.


Enquanto os turistas são as mais numerosas vítimas em Felixlândia, sobretudo frequentadores do Lago de Três Marias, em Januária os afogamentos se dão predominantemente nas praias do Rio São Francisco entre a população local, envolvendo pescadores e gente embarcada.


Chamado “Gestão de Risco para Redução dos Afogamentos no Quarto Comando Operacional de Bombeiros”, o trabalho foi feito por Luis Otávio Costa Silva para a obtenção do título de tecnólogo em segurança pública, com foco em gestão e gerenciamento de catástrofes.


O levantamento estima que 90% das mortes por afogamento poderiam ser evitadas com medidas simples, como respeitar os próprios limites ao entrar na água, usar equipamentos de segurança, como o colete salva-vidas, garantir supervisão adequada, especialmente em locais com maior fluxo de pessoas, e conhecer noções básicas de resposta a situações de risco.


Em Felixlândia, 80,85% das vítimas de afogamentos eram visitantes ocasionais. Os casos de afogamento concentram-se em períodos de alta estação, com picos nos meses de janeiro, fevereiro e dezembro, especialmente nos fins de semana. Os fatores de risco mais destacados foram o uso de álcool (por turistas) e a precariedade da sinalização/demarcação.


No município de Januária, 67,4% das vítimas eram moradores locais, nativos ou residentes no entorno. A maioria era composta por homens (87,5%) e jovens com menos de 29 anos (55,8%). Entre as ocorrências, 76% se deram diretamente no leito do Rio São Francisco e 75% foram presenciadas por terceiros, sendo que 50% dos óbitos ocorreram entre ocupantes de embarcações desprovidos de colete salva-vidas. Fatores de risco que predominaram foram o uso inadequado de embarcações, a negligência quanto ao uso de colete salva-vidas e a falta de conscientização da população local e ribeirinha.


O trabalho propõe formas de reduzir os afogamentos, como a realização de campanhas educativas e de conscientização para disseminar a cultura de autoproteção por meio da mídia, redes sociais e escolas, adaptando a mensagem para moradores locais ou turistas.


Sugere ainda a instalação de placas de advertência em pontos de risco e demarcação de áreas seguras para banho com a utilização de boias. Outras sugestões incluem formar e treinar guarda-vidas civis para reforçar a vigilância em períodos de alta temporada, orientar e fiscalizar o uso obrigatório de coletes salva-vidas em embarcações, combatendo a negligência que é causa frequente de óbitos, além de promover abordagens em rodovias que dão acesso a balneários, especialmente em feriados e férias, para alertar os visitantes sobre os perigos da região.


Os riscos ocultos nas cachoeiras

Dos 1.073 afogamentos em que o Corpo de Bombeiros atuou de 2022 a 2025, a maioria estava relacionada a salvamentos em cachoeiras. “A cachoeira é campeã nesse aspecto, pois não tem somente o fator de afogamento pela água, tem a queda, seguida pelo afogamento. Há pessoas que buscam fazer selfies mais arrojadas nas beiradas e podem cair. Outros mergulham em locais mais rasos, batem a cabeça e podem ficar inconscientes e se afogar”, detalha o porta-voz da corporação.

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“Nas grandes unidades de conservação, há uma grande concentração de cachoeiras, como na Serra do Cipó e na Serra do Gandarela. São lugares que inspiram cuidados, porque nas férias, pessoas que fazem essas trilhas não são de maneira geral acostumadas. Muitas vezes são famílias. É preciso ter cuidado e conhecer o local onde se vai nadar. Dar preferência a locais com salva-vidas e ter sempre as crianças supervisionadas de perto”, alerta o tenente Henrique Barcellos. 

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