Belas e traiçoeiras: como evitar o perigo em trilhas e cachoeiras
Atenção às condições naturais e planejamento são essenciais para driblar riscos, como a cabeça d'água, que assombra banhistas no verão, apontam especialistas
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Mesmo com experiência em trilhas, um grupo de turistas terminou ilhado na Serra do Cipó nesta semana após a subida repentina do nível de um rio – fenômeno comum na temporada de chuvas, conhecido como “cabeça d’água”. Por ocorrer no período de férias de janeiro, quando o fluxo de visitantes aumenta, e no momento em que cachoeiras têm sido interditadas por risco de acidentes, o caso reacendeu o alerta para o fenômeno. Especialistas explicam como identificar sinais de perigo, afirmam que o risco é grande mesmo em dias de sol e dão dicas de cuidados essenciais para evitar acidentes em meio à natureza. O número um: respeito às condições naturais.
O episódio envolvendo quatro turistas paulistas – que ficaram ilhados no domingo e só puderam ser resgatados no fim da tarde de segunda-feira – chama atenção não apenas pelo susto, mas pelo perfil das pessoas envolvidas. O grupo tinha experiência em trilhas e seguia um percurso já conhecido quando foi surpreendido pela força da água. A travessia que antes parecia possível se tornou inviável em poucos minutos. O nível do Rio Jaboticatubas subiu rapidamente, a correnteza ganhou força e a única alternativa foi permanecer ilhado, aguardando que a situação se estabilizasse.
Casos como esse mostram um dos principais riscos das áreas naturais no verão: a rapidez com que o cenário muda. Em ambientes como a Serra do Cipó, decisões que parecem simples — atravessar um rio, seguir por um cânion, descer até uma queda-d’água — podem se tornar perigosas em questão de minutos, sem que haja tempo para reação.
Não à toa, com o volume de chuvas típico do verão, cachoeiras tradicionais de Minas Gerais tiveram a visitação suspensa nos últimos dias. No Parque Nacional da Serra do Cipó, estão fechadas a Cachoeira da Farofa, o Cânion das Bandeirinhas e o Circuito das Lagoas. Já no Parque do Tabuleiro, em Conceição do Mato Dentro, o poço da Cachoeira do Tabuleiro segue interditado há dois anos devido ao risco de deslocamento de rochas. O acesso ao mirante permanece livre, enquanto outras áreas do parque têm abertura ou fechamento definidos diariamente de acordo com o volume de água.
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Na região da Lapinha da Serra, distrito de Santana do Riacho, o alerta também se estende a cachoeiras muito procuradas nesta época do ano, como a do Lajeado, que integra o conjunto de quedas-d’água da região e costuma atrair turistas em busca de trilhas curtas e banhos em dias quentes.
O SOL ENGANA
As interdições costumam gerar questionamentos de visitantes, principalmente durante as férias. Muitos se deparam com o portão fechado em um dia de sol e não entendem o motivo. O que nem sempre fica claro é que o risco não depende apenas do clima no local da visita. A chuva que caiu horas antes — ou que ainda cai quilômetros acima — pode ser suficiente para transformar completamente o comportamento do rio.
A interdição temporária ocorre justamente no período de maior procura. A Serra do Cipó, por exemplo, tem cerca de 33.800 hectares e se estende por nove municípios, com rios, cachoeiras e trilhas que atraem visitantes de todo o país. A grande dimensão do território, aliada ao pequeno número de portarias, dificulta o controle dos visitantes e contribui para situações de risco, especialmente quando pessoas entram por áreas sem fiscalização direta, justamente o que ocorreu no início desta semana.
EXPOSIÇÃO ELEVADA
Esse acesso por áreas não monitoradas amplia a exposição ao perigo, principalmente porque muitas dessas rotas passam por travessias de rios e trechos encaixados, onde a água não tem para onde se espalhar quando o volume aumenta. Nesses pontos, a força da correnteza cresce rapidamente e pode impedir qualquer tentativa de retorno.
“O visitante está no rio, com sol, achando que está tudo tranquilo. Mas, muitas vezes, na cabeceira do rio está chovendo muito”, explica Carla Guaitanele, coordenadora-geral de Uso Público e Negócios do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A fala resume um dos aspectos mais traiçoeiros da cabeça d’água: ela acontece fora do campo de visão. “Esse aumento súbito do volume de água é conhecido como cabeça d’água e pode durar horas, impedindo a travessia e isolando quem está em trilhas ou cânions”, completa.
Segundo Carla, há sinais que podem indicar a aproximação do fenômeno, como a mudança na cor da água, que passa a ficar mais turva, a formação de borbulhas e o aumento perceptível da correnteza. Mesmo assim, ela alerta que nem sempre esses sinais aparecem de forma clara. “Mesmo visitantes experientes precisam ficar atentos”, reforça.
A cabeça d’água é um dos fenômenos naturais mais associados a acidentes graves em Minas Gerais. Em períodos chuvosos, não são raros os relatos de pessoas surpreendidas pela força da água, presas em pedras, ilhadas ou arrastadas por correntezas.
OUTROS PERIGOS
Além desse fenômeno, outros perigos se intensificam nesta época do ano. O solo encharcado altera completamente a estabilidade do terreno. Pedras que costumam ser seguras se tornam escorregadias, trilhas ficam lamacentas e raízes expostas viram armadilhas para quedas.
Outro risco pouco conhecido por muitos visitantes é o choque térmico. Em dias quentes, o corpo está aquecido, e o mergulho repentino em águas muito frias — comuns em rios e cachoeiras de serra — pode provocar uma resposta brusca do organismo. Já houve casos em Minas de pessoas que pularam na água e passaram mal imediatamente, perdendo a força ou a capacidade de reação.
Além da cabeça d’água, vários outros riscos podem gerar uma grande dor de cabeça durante as aventuras de férias. A possibilidade de hipotermia também existe, especialmente quando a pessoa fica molhada por muito tempo ou precisa permanecer parada aguardando ajuda. Também aumentam os riscos geológicos, como deslizamentos e deslocamento de rochas, principalmente após longos períodos de chuva.
Os afogamentos também são comuns nessas áreas e muitas vezes estão ligados a comportamentos de risco do próprio nadador. Em seu site, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais orienta os banhistas a evitar fazer uso de bebidas alcoólicas antes de entrar na água, ficar sempre ao alcance de alguém, evitar salto e a não fazer brincadeiras de mau gosto, como “caldos”, que podem terminar em acidentes. Procurada pelo Estado de Minas, a corporação não deu retorno sobre número e tipos de ocorrências registradas nos últimos dias no estado.
APOIO ESSENCIAL
Em situações de emergência nesses locais, além do Corpo de Bombeiros, brigadistas voluntários atuam como apoio essencial. De Lapinha da Serra, distrito de Santana do Riacho, Bruno Prudêncio, brigadista e instrutor de condução ambiental, conta que o trabalho vai muito além do combate a incêndios. “A brigada atua com educação ambiental, proteção de nascentes e também em resgates”, diz Bruno.
A Brigada Voluntária Guardiões da Serra conta atualmente com cerca de 15 integrantes, todos moradores da região. Em ocorrências, eles auxiliam com informações sobre trilhas, rotas de fuga e logística, fundamentais em uma área extensa e de difícil acesso.
Segundo Bruno, a maioria dos incidentes ocorre quando visitantes fazem trilhas sem guia. “Em 99% dos casos que dão problema, não tem guia envolvido”, afirma. Ele destaca que travessias com múltiplas transposições de rios, cânions e áreas sujeitas à neblina estão entre os trechos mais perigosos. Mesmo trilhas consideradas fáceis podem se tornar arriscadas rapidamente. “Uma trilha simples pode virar uma grande tragédia dependendo da instabilidade do tempo”, alerta.
A orientação dos especialistas é clara: planejamento, informação e respeito às condições naturais são essenciais. Entender que o ambiente muda e que recuar também é uma decisão correta pode evitar acidentes graves. “Nem todo dia é dia de entrar no rio”, resume Carla.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Rachel Botelho