Filme "O Diabo Veste Prada 2" levanta questões importantes sobre o mercado
Enquanto há 20 anos os brechós e as roupas usadas eram tratados de forma até depreciativa, hoje eles aparecem como opção fashion
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Com o lançamento recente de “O Diabo Veste Prada 2”, que dá sequência à emblemática trama de 2006, novos debates e olhares sobre o mundo da moda emergem. A comparação entre o primeiro longa e o recém-lançado nos mostra algo fundamental: os filmes dialogam diretamente com a realidade em que foram lançados.
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Um dos pontos em destaque, nesse sentido, é o mercado de segunda mão. Enquanto há 20 anos os brechós e as roupas usadas eram tratados de forma até depreciativa, hoje eles aparecem – mesmo que de forma sutil – como uma opção fashion e ideal para quem busca peças vintage.
Não por acaso, no filme, Andy Sachs, personagem interpretada por Anne Hathaway, fala, com orgulho, de um blazer garimpado em um brechó. “Se a gente pensasse no contexto do primeiro filme, o brechó estaria num lugar de depreciação e agora ele já foi tratado como um espaço que reúne, inclusive, peças de colecionador”, destaca a designer e fundadora da Sayuri Escola de Moda, em Belo Horizonte, Elisa Sayuri.
Maturidade nos looks
Para Teresa Campos, professora do curso de design de moda da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), os looks do filme mostram mais que tendências, evidenciam o amadurecimento das personagens. Cada uma tem um estilo muito próprio que, quando comparado com a obra de 2006, se mostra mais sólido.
Andy, por exemplo, que começa com peças nada ou pouco fashionistas, ressurge elegante e segura de si no longa recém-lançado. “Até chegar aqui, ela precisou [no primeiro filme] usar roupas que não eram do estilo dela”, enfatiza Elisa.
Inclusive, os amantes da trama provavelmente notaram uma espécie de “easter egg” com carga de ironia quando a Andy madura aparece usando um suéter “azul cerúleo”, fazendo referência a uma peça parecida usada no primeiro filme. O suéter em questão estrela uma das cenas mais aclamadas de “O Diabo Veste Prada”, em que Miranda, interpretada por Meryl Streep, mostra, por meio dele, que Andy não está fora do “sistema” e que uma simples escolha de uma peça de roupa carrega diversos significados e sentidos.
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Por falar em Miranda, a icônica editora da revista de moda “Runway” também apresenta uma atualização do seu estilo na sequência do filme. “Enquanto no primeiro filme ela usa muitas peças como vestidos e saias, às vezes até mais justos, no segundo ela parte para peças não menos elegantes, mas mais confortáveis, como calças e jaquetas. São roupas que também conversam melhor com a idade dela, agora 20 anos mais velha”, comenta Teresa.
Peças usadas por Miranda retratam, de certa forma, o “embate” com um mundo mais digital e, mais para a segunda metade do filme, com um chefe que parece desconhecer o histórico da revista e o universo da moda – fato evidenciado pelo “deboche” dos personagens que o tratam como um milionário que só usa tecidos sintéticos.
“Num momento em que ela se senta em uma mesa cheia de homens engravatados vestindo um casaco repleto de pingentes de tassel, traz um ponto de diferença”, enfatiza Elisa, ressaltando como as roupas da personagem também se comportam como uma resistência criativa.
Identidade “camaleoa”
Talvez um dos traços mais marcantes da grande vilã da trama, Emily Charlton, interpretada por Emily Blunt, seja o estilo inconsistente. Ela, que trabalhava como assistente de Miranda no primeiro filme, aparece agora atuando em marcas do mercado de luxo – e parece ser uma espécie de “camaleoa”, que muda seu estilo conforme o trabalho. “Ela se tornou alguém que dança conforme a música”, explica Teresa.
Aliás, as roupas de certa forma traduzem a identidade da personagem que “trai” a antiga colega de trabalho e a ex-chefe. Tudo isso ao lado de um milionário que compra tudo que ela deseja – e, inclusive, quase “destrói” o legado de uma revista tradicional.
Mais inclusão
Outro ponto interessante do filme é a sinalização para uma moda mais diversa. Um dos funcionários de Miranda na revista, por exemplo, é um homem plus size (algo bem difícil de se imaginar no primeiro filme).
Amari, a nova assistente de Miranda – que, aliás, é interpretada por Simone Ashley, atriz inglesa de ascendência indiana – é outro reflexo do universo atual da moda. A todo o tempo, ela assessora a chefe nas maneiras de usar ou não determinados termos. Miranda, apesar de revirar os olhos por vezes, acata as recomendações “politicamente corretas”.
Mulheres fortes
Desde o primeiro filme, vemos uma mulher forte como protagonista. Antes, no entanto, essa figura se limitava à Miranda, que, inclusive, diminuía muitas vezes as mulheres ao seu redor. No longa atual, no entanto, a editora da revista se vê num embate com pessoas na mesma ou até em posição superior que a sua. Segundo entrevista de Aline Brosh McKenna, roteirista do filme, à Variety, “ela não está mais batendo para baixo”. Isso a aproxima de figuras que antes eram desprezadas.
Tanto Miranda quanto Andy são tratadas como mulheres independentes e apaixonadas pelo trabalho. “Inclusive, elas nos mostram isso, de uma mulher abdicando de momentos importantes da vida pessoal por conta do trabalho”, diz Elisa, reforçando o momento em que Miranda conta ter perdido boa parte da vida das filhas em casa – uma das cenas em que ela se revela mais humana.
Luta pelo jornalismo
Logo no início da trama, fica escancarada a crise vivida pelo jornalismo mundial. Uma demissão e o reconhecimento de um prêmio, ao mesmo tempo, refletem, em Andy, um pouco do paradoxo vivido por muitos profissionais da área.
Mais adiante, a protagonista também vive o dilema de conciliar pautas que dão audiência no universo digital com matérias de fôlego e interesse público que são, muitas vezes, ignoradas pelos leitores.
“O filme mostra esse mercado editorial que, infelizmente, vai morrendo. É simbólico quando vemos as personagens lutando por algo que está se perdendo. A Andy, por exemplo, escreve textos grandes e importantes que não são nem lidos, as pessoas leem só chamadas”, completa a professora da UEMG.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino