Em um momento em que o país debate temas tão importantes como autonomia financeira de famílias, crescimento econômico pessoal e nacional e geração de renda, um contingente cada vez maior de mineiros vem trilhando o caminho inverso do êxodo rural, movidos pelo impulso de crescer e empreender, ao mesmo tempo em que fazem girar mais rápido as engrenagens da economia de suas cidades.
São trabalhadores como Siziene Cassia Araújo de Deus, que deixou a terra natal, Francisco Sá, no Norte de Minas, e partiu para Ilhabela, no longínquo litoral de São Paulo. Lá, trabalhou como caixa de supermercado durante oito anos. Passado esse tempo, com as economias e aprendizado que adquiriu, voltou ao lugar de origem, onde passou a atuar no mesmo ofício, mas em seu próprio negócio, uma mercearia.
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Como mostrou o Estado de Minas, muitos moradores do Norte do estado e do Vale do Jequitinhonha saíram do semiárido mineiro fugindo da seca, em busca de emprego e renda longe de casa, pegando no pesado no corte de cana, colheitas ou em serviços domésticos. Com o dinheiro que ganharam, voltaram para a terra natal, retomando a produção no campo. Em uma outra vertente desse movimento estão ex-migrantes que, após o retorno, tornaram-se empreendedores, contribuindo com o crescimento do comércio e da economia dos seus lugares de origem.
Siziene, hoje com 50 anos, faz parte desse grupo. Ela partiu para Ilhabela em 1998, aos 22 anos de idade, logo após o casamento, levada pelo marido e conterrâneo Haroldo José de Deus. Quatro anos antes, ele já havia partido para a cidade do litoral, onde teve que se virar como atendente de quiosque de praia, antes de conseguir emprego de frentista em um posto de gasolina.
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Ela afirma que saiu para trabalhar longe de casa por necessidade. Mas sempre quis viver e ter renda no lugar onde nasceu. “Na verdade, sempre fui apegada à minha família. E meu desejo sempre foi de voltar para minha cidade de origem, junto do meu marido”, afirma.
Pé de meia é pé na estrada
O desejo do casal se realizou em 2006. Com o “pé de meia” que fizeram na cidade turística do litoral paulista, eles adquiriram um terreno em Francisco Sá, onde construíram a mercearia. “Começamos com um pequeno estoque, que foi crescendo aos poucos”, afirma Siziene, que comemora 20 anos no comércio, em um negócio hoje consolidado.
A ex-migrante salienta que, durante o tempo que passou em Ilhabela, pegou no pesado, mas também tirou lições do serviço como caixa de supermercado. Hoje aplica no negócio próprio o que aprendeu longe. “Aprendi que, no comércio, a gente precisa ter empatia com as pessoas. Temos que deixar os problemas pessoais de lado, carregar um sorriso e atender bem os clientes, que merecem atenção e muito respeito”, destaca Siziene.
O marido dela relata que deixou Francisco Sá pela primeira vez aos 18 anos. “Saí de casa com o intuito de trabalhar e sobreviver. E não para curtir a vida”, diz Haroldo, hoje com 54. Inicialmente, foi para o Rio de Janeiro, onde aprendeu o ofício de protético. “Mas não agradei da profissão”, confessa.
Passados seis meses na capital fluminense, ele retornou à terra natal. Menos de um ano depois, em 1994, mudou-se para Ilhabela levado pelo tio, João Natalino dos Santos, que até hoje mora na cidade do litoral paulista, trabalhando como mestre de obras.
Depois de um curto período como garçom na cidade turística, foi fichado como frentista, profissão na qual permaneceu por 12 anos. Nesse intervalo, em 20 de agosto de 1998, oficializou a união com Siziene, que também se transferiu para Ilhabela logo após o “sim”. O casal tem dois filhos: Nadson, de 28; e Natiely, de 20.
Hoje o ex-frentista comemora a volta para a terra natal e os resultados que vem alcançando na mercearia aberta com a mulher. “Para nós, trabalhar fora e voltar pra cá foi uma vitória. Temos muita gratidão a Deus. A vida aqui é muito tranquila”, assegura Haroldo.
Uma ponte entre cidades distantes
Separadas por cerca de 1.100 quilômetros, Francisco Sá, de 23,47 mil habitantes, e Ilhabela (34,94 mil moradores) têm perfis bem diferentes. A primeira enfrenta a seca do semiárido mineiro e a escassez de oportunidades; a segunda experimenta a prosperidade fomentada pelo turismo, recebendo milhares de visitantes durante o verão.
No entanto, há uma “ponte” entre os municípios: historicamente, Francisco Sá envia mão de obra para Ilhabela, formada, entre outros profissionais, por garçons, balconistas, frentistas e trabalhadores da construção civil. O movimento teria começado na década de 1950, à base de “um migrante puxando o outro”. Essa ligação fez com que o dinheiro recebido no litoral paulista acabasse por fomentar a economia na cidade do Norte Mineiro.
Resiliência e estabilização
Graças a essa ligação, Luiz Carlos Santos, de 47, tem uma trajetória semelhante à do casal Haroldo e Siziene. Ele deixou Francisco Sá aos 20 anos e trabalhou como garçom por cinco anos em Ilhabela. Em 2003, fez o caminho de volta e, com o que ganhou no lugar distante, montou um bar.
“Eu me sinto muito orgulhoso de ter voltado para minha terra. Meu pensamento sempre foi ter um negócio próprio. Hoje, estou estabilizado”, comemora o pequeno empreendedor. “Acho que a palavra que me define é resiliência”, completa.
Outro ex-retirante que viabilizou seu empreendimento em Francisco Sá com o capital poupado em Ilhabela é Marlon Gonçalves Ruas Moreira, de 59. Em 1989, aos 18 anos, ele migrou para a cidade do litoral paulista, onde trabalhou como garçom. Ficou por lá 18 anos.
Em 2007, voltou ao lugar de origem e montou uma loja de acessórios. “Percebi que era um tipo de comércio que não existia na cidade. Era uma área que eu não conhecia, mas funcionava uma oficina mecânica em frente ao meu ponto, de propriedade de amigos de infância. Eles me ajudaram e deram o primeiro empurrão no negócio”, relembra Marlon.
Atualmente, ele se mantém firme no ramo, mas conheceu os ônus e bônus entre trabalhar como empregado e ser um pequeno empreendedor. “No próprio negócio, a gente tem mais liberdade, mas também mais responsabilidade, pois precisamos pagar os boletos”, ressalta.
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“Hoje, me sinto realizado. Sempre quis voltar para minha terra. Só deixei o lugar porque as coisas eram muito difíceis e a gente era obrigado a sair para ter alguma renda”, acrescenta ele, casado com a servidora pública Edneia Ferreira Colares e pai de dois filhos: Douglas, de 24; e Marla, de 18.
