VOLTA POR CIMA

Migrante em BH, ele se tornou patrão no interior: "Empreender virou paixão"

Como sonhos de anos têm feito mineiros trocarem grandes centros urbanos por negócios em suas cidades de origem, com aprendizado e dinheiro poupado com trabalho

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Ele partiu para trabalhar na capital com o sonho de conseguir recursos para montar uma padaria no interior, de onde saiu. Aprendeu a fazer pão, juntou dinheiro e realizou o sonho de abrir o próprio empreendimento no interior, mas na terra da sua mulher. A história de Vaney Gonçalves Gontijo, de 44 anos, ilustra a trajetória de ex-migrantes que deixam o seu chão com a determinação de um dia retornar como empreendedores, abrindo um novo caminho rumo a um futuro melhor no lugar em que nasceram.

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Vaney é natural de Riachinho, no Noroeste do estado. Aos 18 anos, deixou a terra natal rumo a Belo Horizonte, onde, durante um ano, pegou no batente como servente de pedreiro. Mas ele se deu bem foi na panificação, na qual trabalhou por 20 anos.


Indicado por um tio, Valdivino Maria dos Reis, que atuava no ramo, conseguiu emprego numa fábrica de pães industrializados, na qual permaneceu por oito anos. Durante mais 12, foi funcionário de outra empresa do mesmo segmento, aperfeiçoando o conhecimento na área.

A caminho do Norte

Em Belo Horizonte, conheceu e se casou com Valéria Francisco de Souza, de 34, irmã da mulher do seu tio – que voltou para Riachinho, onde abriu padaria. Em 2022, Vaney deixou o emprego em Belo Horizonte e, com Valéria, partiu para a terra da mulher, Porteirinha, no Norte de Minas. Lá, conseguiu emprego em uma firma terceirizada da Copasa, fazendo cortes e ligações de água. Mas se manteve no serviço por poucos meses.


“Um dia, fui cortar o fornecimento de água de um ponto que estava fechado. Percebi que o endereço era ideal para abrir uma padaria”, relata o ex-migrante. Em seguida, ele procurou o proprietário, tomou coragem e alugou o imóvel, onde abriu o negócio, tal como fez o seu tio.


“Sempre tive o sonho de voltar para o interior, com o pensamento de abrir uma padaria. Graças a Deus, deu certo”, afirma o hoje pequeno empreendedor. “A vida no interior é mais tranquila. Não tem aquela correria da capital”, ressalta.


Mesmo assim, o empreendedor pega no pesado: acorda às 3h30 da madrugada para iniciar a produção de pães. “No comércio, a gente precisa matar um leão por dia, mas não pode parar. O ser humano precisa seguir na luta sempre. Estou feliz com tudo o que conquistei”, afirma Vaney.


Vaney trabalha na padaria com a mulher, que cuida do atendimento aos clientes. “Aqui é assim: sempre um ajudando o outro. A gente vai conversando e organizando o negócio em família”, descreve ele. Ela divide o trabalho com os cuidados com os dois filhos do casal: Pedro Lucas, de 7; e o pequeno Pedro Henrique, de 4 meses.

Capital no retrovisor

Outro ex-retirante que virou pequeno empreendedor, deixando a cidade grande para trás no caminho de volta ao interior, é Vinícius Meneses Roseno Santos, de 41. Ele é natural da pequena Francisco Dumont, de 4,5 mil habitantes, no Norte do estado. Saiu aos 15 anos, em companhia do pai, em direção a Belo Horizonte. Morou por 17 anos na capital, onde se virou com o serviço na área de segurança e logística.


Aos 32, depois de ficar desempregado, retornou ao Norte de Minas. Por um ano trabalhou na área de paisagismo em Montes Claros, cidade polo da região, até receber uma proposta para administrar o balneário de Francisco Dumont, onde tem um bar.


“Daí, aprendi a gostar de empreender. Surgiu a ideia de abrir uma hamburgueria na cidade, na qual estou até hoje”, relata Vinícius, que completa um ano no seu “Empório Vintém”, instalado em um imóvel antigo da cidade. “O meu negócio se tornou marca consolidada na área de lanches no município”, assegura.

“A saudade falou alto, chamou e avisou que era hora de voltar. Que era momento de estar próximo dos meus pais, filho, da filha recém-chegada, amigos e demais familiares. (...) Voltei com o desejo de encontrar um pouso, de recuperar o tempo longe, de participar dos momentos com a família e, ao mesmo tempo, estruturar alguns negócios”

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“Para mim, foi muito gratificante poder retornar ao meu lugar de origem e me tornar um empreendedor, podendo contribuir com a economia da cidade e apresentando novidades da culinária”, destaca Vinícius. “Empreender se tornou uma paixão. O meu intuito é trazer para nossa cidade o que existe de melhor no fast-food nacional”, planeja.

Marcos Jorge Maciel
comerciante De 49 anos

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“Amo a cidade onde nasci e que escolhi para prosperar. Mas também tive um presente, o meu filho, que se chama Bento e está com 3 meses de idade”, conclui o ex-migrante, hoje comerciante, que é solteiro.

A saudade como guia

“A saudade falou mais alto”, responde o empreendedor Marcos Jorge Maciel, de 51 anos, ao ser perguntado sobre o motivo para voltar à cidade natal, Montes Claros, no Norte de Minas, depois de construir uma carreira vitoriosa fora, trabalhando em diferentes lugares.


Marcos deixou Montes Claros aos 18 anos, em 1993, quando ingressou em curso de engenharia elétrica no Triângulo Mineiro. Formado, foi trabalhar em uma empresa em João Pessoa (PB). Em 2007, retornou à cidade natal para atuar em uma grande indústria. Mas, em 2009, saiu novamente. Trabalhou em Natal (RN) e em Buenos Aires (Argentina). Depois, retornou ao Brasil e morou em Vinhedo (SP), novamente em João Pessoa e em Goiânia (GO).

Harmonização de vinho com estética

Em 2024, aos 49 anos, Marcos Jorge Maciel retornou em definitivo a Montes Claros e montou na cidade um negócio inovador, a “Barberavinoteca”, que reúne no mesmo espaço barbearia, clínica de estética e uma vinoteca, com rótulos para todos os gostos – dos vinhos mais simples aos mais sofisticados – de cerca de 20 países.


“A saudade falou alto, chamou e avisou que era hora de voltar. Que era momento de estar próximo dos meus pais, filho, filha recém-chegada, amigos e demais familiares”, descreve o empreendedor. “Voltei com o desejo de encontrar um pouso, de recuperar o tempo longe, de participar dos momentos com a família e, ao mesmo tempo, estruturar alguns negócios”, completa.


A “Barberavinoteca” segue de vento em popa e passa por uma ampliação dos serviços de estética. Mas Marcos Maciel explica que, ao voltar para a terra natal, continuou atuando em outras atividades, se valendo das novas tecnologias e da sua experiência profissional. Hoje trabalha como consultor em gestão e atua em negócios nas áreas imobiliária, de geração de energia solar e de start-ups.


O ex-migrante afirma que o crescimento de Montes Claros contribuiu para o retorno à cidade, oferecendo um “ambiente mais receptivo ao empreendedor”. “Isso pode ser visto claramente em tantos novos empreendimentos chegando ao município, de todos os portes: das gigantes farmacêuticas, empreendimentos imobiliários de alto padrão e também pequenos negócios”, observa Maciel.

Aprendizado e inovação

Os migrantes que voltam para casa com o objetivo de empreender na terra natal podem aplicar na gestão dos seus negócios o aprendizado que tiveram no lugar distante e trabalhar com inovação. Por outro lado, também podem enfrentar um choque cultural. A avaliação é do analista do Sebrae Minas Walmar Magalhães.


“Essas pessoas, ao retornar aos locais de origem, voltam geralmente com alguma bagagem, sobretudo se houve uma jornada externa longa, se houve uma experiência de visão de mundo mais ampliada do que aquela que teriam se estivessem no interior”, afirma Magalhães. “Esse retorno pode, sim, ser muito favorável, pode trazer aspectos inovadores e também novidades para aquela comunidade na qual ele vai se reinserir”, completa.


Por outro lado, ele pondera: “Ao mesmo tempo, também tem o desafio do choque cultural, porque retornar para o local de origem é também trazer todo um conteúdo absorvido no mundo externo, toda a jornada externa, e colocar diante dos valores ali presentes daquela comunidade. Então, há um aspecto de ganhos e oportunidades, mas também de desafios”, ressalta o especialista.


Entre essas oportunidades está a de aplicar no empreendimento local a experiência adquirida em outros lugares. “Esse indivíduo, esse trabalhador, esse empresário, está voltando com a bagagem cheia de novidades de visão de mundo. E essa visão de mundo hoje pode realmente fazer muita diferença no negócio que ele vai estruturar na comunidade para a qual está retornando”, observa o analista do Sebrae Minas.


E ressalta que as relações construídas no lugar compreendem um ponto positivo para o ex-retirante, agora empreendedor. “Podemos destacar como um dos grandes benefícios para o empreendedor do interior o aspecto da pessoalidade. As pessoas tendem a ser mais amistosas, mais favoráveis à comunicação, à rede de contatos e à interação. E um ponto também que se mostra favorável é a qualidade de vida”, considera.

No caminho inverso

Ao longo de décadas, o fluxo migratório no Brasil se intensificou com as pessoas deixando o interior em busca de emprego e renda nos grandes centros. O empreendedor Gustavo Sathler fez caminho inverso. Em 2015, deixou Belo Horizonte, onde trabalhava com vendas, e se mudou-se de “mala e cuia” com a família para Montes Claros, onde abriu uma venda de cosméticos para barbearia, criando marca própria: “Bicho de Bigode”.


Hoje Gustavo também ministra palestras para donos de barbearia, orientando estratégias para se dar bem no setor. Desta forma, auxilia outras pessoas a se firmarem como empreendedoras. Fundou ainda uma associação de barbeiros, a primeira entidade corporativa no segmento no Brasil.


Sathler afirma que há pontos positivos e negativos no mercado do interior em relação ao panorama da capital. “Um ponto negativo do interior é que existe um mercado mais restritivo. Por outro lado, trabalhando com um público menor, você consegue maior aproximação com o cliente, podendo dar mais atenção a ele”, avalia.


O empresário também ressalta que, no interior, os custos dos negócios são menores do que os da capital, pela maior facilidade de logística e pelo fato de as distâncias serem menores. “O custo das entregas é mais barato”, pontua.

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Sathler dá dicas de sucesso para as pessoas que pretendem empreender no interior, sejam ex-retirantes ou moradores dos grandes centros que buscam um lugar mais tranquilo para viver. “A primeira coisa que a pessoa tem que entender é que, para ter sucesso, ela precisa fazer aquilo de que gosta. Assim, o seu trabalho flui melhor. E tem uma coisa que sempre falo nas palestras para o grupo de barbeiros: o segredo do seu fracasso ou do seu sucesso só depende de você mesmo”, resume, em uma lição já aprendida por muitos dos que voltam para a casa movidos pelo impulso de empreender e pela determinação de prosperar.

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