A cadeia produtiva da banana, por meio de suas associações e cooperativas de produtores, tem se mostrado preocupada com a possibilidade da entrada no mercado brasileiro do fruto vindo do Equador, país onde foi identificado o fungo Fusarium TR4, que ainda não pode ser controlado. A agrônoma Hilda Loschi explica que a entrada desse fungo no território nacional poderia comprometer a produção da banana nanica, que, apesar da variação entre as regiões, é justamente a mais difundida no Brasil.
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De acordo com Fernando Haddad, agrônomo e pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o Fusarium TR4 é um fungo habitante do solo que penetra na bananeira pela raiz e entope os vasos do xilema, que é a estrutura responsável por levar a água e os nutrientes para as folhas. Com o colapso desse sistema vascular, a planta acaba morrendo.
Hilda Loschi, que também é presidente da Comissão Técnica de Fruticultura da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e diretora técnica da Associação Central dos Fruticultores do Norte de Minas (Abanorte), explica que o setor tenta dialogar com o governo federal para sensibilizar sobre o perigo que a aprovação da importação da banana do Equador pode representar para a agricultura brasileira. Em março, ela fez parte de uma comissão composta por representantes de vários estados produtores, que foram até o ministério da Casa Civil para discutir o assunto.
“Existe uma questão diplomática entre estes países, já que temos uma balança comercial muito desequilibrada em relação ao Equador. Nós exportamos muito mais do que importamos deles“, explica Hilda. Ela conta que o Brasil é autossuficiente em relação aos principais produtos que aquele país tem para exportar, sendo que alguns são responsáveis por gerar emprego e renda para muitos pequenos produtores, como o camarão, que promoveu uma transformação social, sobretudo para o pequeno produtor do Ceará.
A banana segue essa mesma linha. Mesmo que o Equador produza 17 milhões de toneladas por ano do fruto, as 7 milhões de toneladas produzidas pelo Brasil são suficientes para atender as necessidades do nosso mercado interno. Ainda de acordo com a agrônoma, 82% da produção de bananas do Brasil estão nas mãos de pequenos produtores ou agricultores familiares.
Risco da praga
A cadeia produtiva da banana propôs que o governo federal faça uma Análise de Risco de Pragas para o fruto vindo do Equador, que é um processo de avaliação biológica ou com outra evidência científica para determinar se um organismo é uma praga, se ele deve ser regulamentado e as medidas fitossanitárias necessárias para adotá-lo.
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De acordo com Hilda, essa análise está em andamento dentro do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mas, apesar de não ser sigilosa, o acesso ao seu conteúdo não é direto, devendo passar pela pasta para ser apreciado. “A banana do Equador também recebe uma alta carga de fungicidas para controlar doenças foliares. E isso faz a banana brasileira mais sustentável também“, considerou.
Para a presidente da Comissão Técnica de Fruticultura da Faemg, a importação de bananas do Equador também coloca em risco o consumidor, que pode acabar pagando mais caro pelo produto. “O Equador é um país que pratica dumping. Então, o fruto pode chegar mais barato aqui no começo, por meio de subsídios, mas, e depois? […] A decisão pela importação vai privilegiar os grandes produtores de banana, acabando com o comércio local, que será o primeiro a morrer”, afirmou.
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7 milhões
de toneladas de banana são produzidas no Brasil por ano
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A agrônoma garante que a banana produzida no Brasil é acessível: “Há quatro ou cinco semanas, o produtor estava vendendo o quilo por R$ 1. Hoje, melhorou um pouco, e estão pagando R$ 2. Você pode até pagar mais no mercado, mas o produtor recebe esse valor.” O Brasil é o quarto maior produtor de bananas do mundo, totalizando 470 mil hectares plantados. Os principais estados produtores são São Paulo (13,7%), Bahia (12,7%) e Minas Gerais (11,9%).
“Existe um desejo diplomático para que recebamos produtos deles, mas são coisas que produzimos em quantidade, preço e com dispersão no país inteiro. Imagina a que preço essa fruta vai chegar no Mato Grosso? É preferível consumir do produtor que está próximo. Isso, sem considerar a questão do TR4”, analisa Hilda.
Resistência
De acordo com Fernando, o Fusarium tem três raças: TR1, TR2 e TR4. No Brasil, o fungo está presente nas raças 1 e 2. No entanto, já existem muitas variedades de banana prata e maçã resistentes a elas. O pesquisador fala do trabalho mais recente de criar variedades da banana nanica imunes ao TR4. Este projeto conta com a colaboração da Colômbia e o Equador.
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“Nós agregamos nossa expertise em melhoramento genético para desenvolver uma variedade do tipo nanica. A grande vantagem desses projetos internacionais é que esses países já têm ocorrência da doença no campo, onde conseguimos testar nossos materiais gerados para o TR4. A contrapartida é que nós vamos gerar essa tecnologia antes mesmo que o fungo avance para o nosso território”, explicou.
De acordo com o pesquisador, a Embrapa já conta com variedades de banana prata e maçã testadas na Colômbia que são resistentes às raças 1, 2 e 4. Fernando afirma que a pesquisa está evoluindo, e já existem variedades da banana nanica sendo testadas na Colômbia resistentes à raça 4.
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“Causa estranheza à cadeia da banana a oferta de US$ 1,5 milhão feita por uma associação que importa bananas do Equador, um fundo privado, para que a Embrapa compartilhe seu trabalho de genética que vem sendo desenvolvido. Não era para o governo brasileiro fazer esse investimento, já que isso é tão importante para a nossa segurança alimentar? Não que isso seja de todo ruim, porque diminui a chance de dispersão da doença aqui”, finalizou Hilda.
