30 anos de Pokémon: os negócios por trás do sucesso bilionário
Estratégia corporativa, inovação digital e licenciamento internacional explicam como a franquia virou referência em monetização cultural
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Em 27 de fevereiro de 1996, dois cartuchos para um console portátil deram início ao que viria a se tornar o maior fenômeno econômico da cultura pop contemporânea. Pokémon Red e Green nasceram discretos no Japão. Hoje, Pokémon é a franquia mais lucrativa do entretenimento mundial, à frente de gigantes do cinema e da música.
A trajetória da franquia envolve estratégia empresarial sofisticada, disputas por propriedade intelectual, reinvenções tecnológicas sucessivas e a conversão da nostalgia em ativo financeiro global.
Ao longo das próximas linhas, revisitamos as etapas que transformaram um jogo portátil em um império global. Dos bastidores corporativos à expansão transmídia, das crises da indústria às apostas tecnológicas mais ousadas, essa é a história de como Pokémon construiu um modelo de negócio capaz de atravessar gerações e redefinir a economia da cultura pop.
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A aposta na palma da mão
O sucesso inicial só foi possível porque a infraestrutura já estava pronta. Em 1989, a Nintendo lançou o Game Boy, consolidando o mercado de consoles portáteis com cartuchos intercambiáveis. O aparelho carregava no currículo uma das disputas comerciais mais emblemáticas da indústria, a batalha pelos direitos de Tetris, envolvendo negociações complexas com o governo soviético no fim da Guerra Fria.
Foi nesse ecossistema que o criador Satoshi Tajiri encontrou o terreno ideal para colocar em prática sua ideia inspirada na infância colecionando insetos nos subúrbios de Tóquio. Ao lado do ilustrador Ken Sugimori e do estúdio Game Freak, Tajiri transformou um conceito simples de captura e troca em uma experiência social portátil. O Game Boy oferecia a base ideal para a proposta de Tajiri. O cabo link transformou a troca de criaturas em eixo central da experiência e ajudou a consolidar o modelo social que sustentaria a franquia nas décadas seguintes.
Com Mario e Zelda dominando os consoles de mesa, a Nintendo precisava de uma nova linguagem para o portátil. Pokémon trouxe algo diferente: um universo expansível que cabia no bolso e incentivava a troca entre jogadores por cabo link. Era, em essência, uma rede social analógica antes da internet de massa.
Anos 1990: a explosão transmídia
A virada não aconteceu só nos videogames. O anime chegou à televisão aberta, o card game se espalhou pelas escolas e o personagem Pikachu virou símbolo global. A marca se organizou como um sistema integrado, no qual cada produto alimentava o outro.
No fim da década, foi criada a The Pokémon Company, estrutura dedicada exclusivamente a gerir a propriedade intelectual. Diferentemente de outras franquias, Pokémon passou a operar como um produto autônomo dentro do guarda-chuva da Nintendo, com gestão própria de licenciamento, marketing e expansão internacional.
Essa profissionalização foi decisiva para a longevidade.
Anos 2000: consolidação e sustentabilidade
A década seguinte foi de maturidade. A franquia precisava provar que não era uma febre passageira. Vieram os primeiros remakes, como Pokémon FireRed e LeafGreen, relançando a experiência original para novas gerações no console Game Boy Advance.
Também surgiram experimentos que conectavam portátil e console doméstico, como Pokémon Stadium e Pokémon Colosseum. A lógica era ampliar pontos de contato e manter o consumidor dentro do universo.
Nesse período, o card game começou a ganhar valor como item de coleção. O que era brincadeira infantil passou a ser tratado como investimento.
Anos 2010: crise, smartphones e reinvenção
A década de 2010 trouxe turbulência. O avanço dos smartphones pressionou o mercado tradicional de consoles. O Nintendo 3DS, portátil da época, enfrentou dificuldades iniciais e o Wii U, que sucedeu o Wii, que vendeu mais de 100 milhões de unidades, não alcançou as expectativas comerciais.
Nesse cenário, Pokémon foi pilar de sustentação. Títulos como Pokémon X e Y introduziram megaevoluções e gráficos em 3D. Pokémon Omega Ruby e Alpha Sapphire exploraram a nostalgia. Pokémon Sun e Moon reinventaram estruturas clássicas.
Mas o verdadeiro divisor de águas veio em 2016 com Pokémon GO, desenvolvido pela Niantic. Foi a primeira vez que uma grande IP da Nintendo entrou oficialmente no smartphone. A febre reorganizou o espaço urbano por algumas semanas e mostrou como um aplicativo poderia interferir diretamente na economia real. Praças lotaram, restaurantes se tornaram pontos estratégicos e milhões de pessoas experimentaram realidade aumentada pela primeira vez.
Em 2017, o Nintendo Switch marcou a retomada da empresa. O console vendeu 15 milhões de unidades no primeiro ano, número equivalente a toda a vida útil do Wii U. Pokémon foi peça-chave nessa recuperação.
Em 2018, Pokémon Let's Go Pikachu e Let's Go Eevee simbolizou uma estratégia clara de converter jogadores casuais do mobile em compradores de hardware. O jogo simplificou mecânicas, incorporou o sistema de captura de Pokémon GO e criou um ciclo de engajamento cruzado. O usuário capturava criaturas no celular, transferia para o console e desbloqueava recompensas exclusivas, como o mítico Meltan.
Era a lógica de plataformas de streaming aplicada aos games: manter o consumidor circulando dentro do ecossistema. Se a década anterior foi marcada pela realidade aumentada, a atual é definida pela convergência digital e pelo mercado financeiro informal.
Anos 2020: recordes financeiros
Durante a pandemia, cartas raras dispararam de preço e abriram espaço para um mercado colecionável robusto. Esse movimento de valorização continuou nos anos seguintes e, em 2026, um exemplar da carta Pikachu Illustrator foi vendido por US$ 86,5 milhões, recorde no mercado de colecionáveis.
Paralelamente, o jogo Pokémon GO celebra 10 anos desde seu lançamento em julho de 2016, com eventos aniversariantes e novidades dentro do aplicativo que reforçam seu impacto contínuo no entretenimento mobile. Novos títulos principais também sustentam a franquia: Pokémon Scarlet e Pokémon Violet impulsionaram vendas massivas em 2022, e Pokémon Legends: Z-A, lançado em 2025, representou o principal lançamento antes dos 30 anos da marca.
Em 2026, a celebração dos 30 anos de Pokémon ganhou destaque global com anúncios durante o Pokémon Presents do Dia de Pokémon. Entre as novidades estão os novos títulos da série de videogames, Pokémon Ventos e Pokémon Ondas, que serão oficialmente os primeiros a contar com o português do Brasil como idioma disponível. A apresentação também trouxe atualizações para PokémonXP, o Campeonato Mundial Pokémon 2026, Pokémon Champions, Pokémon Estampas Ilustradas e outros produtos da franquia.
Como parte da comemoração, Pokémon FireRed Version e Pokémon LeafGreen Version foram relançados em versão digital para Nintendo Switch, permitindo que novas gerações experimentem os jogos originais em português. Os lançamentos reforçam a estratégia da franquia de conectar nostalgia, inovação e acessibilidade linguística, consolidando Pokémon como fenômeno cultural e econômico capaz de engajar fãs de todas as idades ao redor do mundo.
Essa dinâmica de produtos físicos, digitais e experiências interativas ganhou novo impulso com Pokémon TCG Pocket, versão digital do card game lançada em outubro de 2024. O aplicativo faturou cerca de US$ 1,3 bilhão em seu primeiro ano, superando marcos anteriores como Pokémon GO e fortalecendo a economia do ecossistema. Expansões como Maravilhas de Paldea e a introdução de trocas entre amigos reforçaram o apelo comunitário e econômico.
Ao mesmo tempo, iniciativas como o app Pokémon Sleep exemplificam a convergência entre tecnologia e bem-estar, usando mecânicas gamificadas para engajar usuários. A expansão para aplicações vestíveis e a perspectiva de integração com inteligência artificial indicam um futuro no qual o universo Pokémon continuará influenciando consumo digital, dados comportamentais e experiências tecnológicas em larga escala.
Um estudo de caso da economia da atenção
Pokémon revela uma lógica que vai além das estratégias de jogo ao construir um sistema capaz de monetizar atenção, comunidade e nostalgia. A marca atravessou televisão aberta, cinema, streaming, moda de luxo e mercado de colecionáveis. Sustenta cadeias produtivas que vão de programadores e animadores a fabricantes de brinquedos e criadores de conteúdo digital. É um modelo empresarial que transformou cultura pop em infraestrutura econômica e se consolidou ao longo do tempo.
Três décadas depois, Pokémon deixou de ser apenas entretenimento infantil. Tornou-se linguagem global, ativo financeiro e laboratório de tendências tecnológicas.
Enquanto houver desejo humano de colecionar, competir e pertencer, haverá um Pikachu por perto. E, com ele, uma engrenagem econômica funcionando a pleno vapor.
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