DAS LAVOURAS ÀS XÍCARAS

Marca do Sul de Minas luta pela presença feminina na cafeicultura

Mulheres transformam grãos especiais em experiências que fortalecem a identidade gastronômica de Santa Rita do Sapucaí

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O café ajudou a escrever parte da história econômica do Brasil e encontrou no Sul de Minas um dos seus principais territórios. Em Santa Rita do Sapucaí, tradição e inovação também caminham lado a lado nas lavouras. Produtores rurais transformaram o conhecimento passado entre gerações em cafés especiais que hoje atraem apreciadores de diferentes regiões e impulsionam o turismo de experiência.

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Mais do que comercializar grãos, propriedades da cidade abrem as porteiras para quem deseja conhecer de perto todas as etapas da produção. É possível agendar visitas guiadas, acompanhar o cultivo, entender o processo de torra, participar de degustações e, em algumas fazendas, até se hospedar em meio às montanhas da Serra da Mantiqueira.


Entre os protagonistas desse movimento, estão as mulheres. Integrantes da Associação Mulheres Empreendedoras do Café da Mantiqueira, que reúne cerca de 180 cafeicultoras da região, elas vêm conquistando espaço em um setor historicamente masculino, agregando valor à produção e fortalecendo marcas próprias.


Uma das pioneiras desse processo é Marina de Castro. Ainda na década de 1970, quando atuava na assistência social da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), ela percebeu que, enquanto os homens recebiam orientação técnica sobre a lavoura, as mulheres permaneciam restritas aos cuidados da casa. Foi então que decidiu aproximar esses dois mundos.


“Via meu colega ir para a lavoura e as mulheres ficavam em casa. Falei: 'Gente, por que não juntar essas duas áreas?'. Fiz esse intercâmbio. As mulheres passaram a participar da lavoura e os homens também passaram a olhar para as melhorias da casa. Deu muito certo”, relembra.


Segundo ela, a mudança também trouxe mais autonomia financeira às produtoras. “Pedia para os maridos darem um talhãozinho de café para elas plantarem. Assim, elas vendiam aquela produção e tinham um dinheiro delas.”

Festivais e livro

A caminho da quinta edição, o livro 'A delícia do café' reúne receitas criadas pelas próprias produtoras, entre doces e salgados
A caminho da quinta edição, o livro 'A delícia do café' reúne receitas criadas pelas próprias produtoras, entre doces e salgados Nara Ferreira/EM/D.A Press


O protagonismo feminino também passou pela cozinha. Em 1978, Marina idealizou festivais gastronômicos que utilizavam o café como ingrediente de receitas doces e salgadas, mostrando que o grão poderia ir muito além da bebida. A iniciativa deu origem ao livro “A delícia do café”, que já caminha para a quinta edição e reúne preparações criadas pelas próprias produtoras.


“Fizemos picanha com sabor café, farofa, arroz-doce, doce de leite... Queria aumentar o consumo do café e mostrar que ele podia estar presente em toda a gastronomia", conta.

Marca própria


Foi dessa trajetória que nasceu o “Café da Chefa”, marca criada por Marina ao lado de Heloísa Inácio, Aline Guidi e Izabelle Carli. A iniciativa reúne cafés especiais produzidos por mulheres da Mantiqueira de Minas e aposta na valorização da origem e da qualidade do produto.

Produzido por cafeicultoras da Mantiqueira de Minas, o Café da Chefa trabalha com grãos especiais que podem ser explorados além da xícara
Produzido por cafeicultoras da Mantiqueira de Minas, o Café da Chefa trabalha com grãos especiais que podem ser explorados além da xícara Nara Ferreira/EM/D.A Press


Para Heloísa Inácio, o café ainda tem um enorme potencial a ser explorado. “O café na xícara representa menos de 2% do potencial dele. Ainda temos 98% de possibilidades, seja na gastronomia, em outros alimentos ou até em produtos esportivos”, afirma. “O café une pessoas, negócios e boas conversas. Ele está presente em todos os momentos.”


As empreendedoras também trabalham para ampliar a presença da marca no mercado nacional e internacional. Além do café especial, o grupo desenvolve produtos como pão de queijo, doce de leite e cachaça, todos com a identidade da Chefa. Enquanto buscam novos mercados, inclusive no exterior, elas mantêm o compromisso de fortalecer a participação feminina na cafeicultura, priorizando a compra de cafés produzidos por outras mulheres.

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Segundo Marina, produzir um café especial exige atenção em todas as etapas, da lavoura à torra. “O café especial não nasce diferente. O que faz ele ser especial são os cuidados durante todo o processo. E é na torra que surgem as notas sensoriais, como chocolate, caramelo ou frutas. É ali que o café ganha identidade.”

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