Oficinas de gastronomia atraem gerações em busca de saberes e sabores em BH
Instrutores do Senac compartilham conhecimentos que conectam públicos diversos na Serraria Souza Pinto, durante a programação da Semana S
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Até domingo (17/5), Belo Horizonte recebe a segunda edição da Semana S, promovida pelo Sistema Fecomércio MG, Sesc e Senac. São oferecidos serviços voltados aos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, suas famílias e a população em geral. Na programação, há também shows musicais que tomam as ruas da cidade.
No braço da gastronomia, as unidades móveis do Senac promovem aulas de culinária, confeitaria e panificação abertas para quem chega e se interessa. Entre a última segunda-feira (13/5), quando começaram as atividades, até sábado (16/5), são esperadas até 900 pessoas em 48 oficinas, com duração de até duas horas cada.
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As aulas são divididas entre as duas carretas de panificação e confeitaria e outras duas de gastronomia, estacionadas na Serraria Souza Pinto. São recebidas 18 pessoas por oficina, que podem estar no local com até 30 minutos de antecedência e fazer a inscrição na hora.
As unidades móveis do Senac Minas são um ponto alto da semana gastronômica na capital, proporcionando ao público uma imersão de técnica e afetividade. Sob a coordenação de Jefferson Ferreira, instrutor de formação profissional com 20 anos de experiência no setor, as oficinas de panificação e confeitaria buscam não apenas ensinar receitas, mas profissionalizar o olhar do participante.
Raízes
Especialista na área, Jefferson atua no Senac há um ano e meio e destaca que a estrutura levada ao evento tem dois pilares principais: a gestão para o empreendedorismo e a valorização do produto local. Na tarde desta quarta-feira (13/5), a aula com o chef Thiago Alves, com a presença de Jefferson, era para aprender a receita do cookie Romeu e Julieta. "Trabalhamos desde a especificação inicial da massa, analisando custos de insumos como farinha e goiabada, até a definição do preço final de venda para o participante", explica Jefferson.
Outra vertente é a cozinha autoral - técnicas internacionais de alta confeitaria são aplicadas a ingredientes típicos das montanhas mineiras. Entre as preparações que Jefferson ensina, macaron com doce de abóbora e coco, croissant com creme de cachaça e a "rosca de quintal", que utiliza hortaliças como couve e salsinha, além da cuca de vinho mineiro com uva roxa e queijo Canastra.
Para ele, a fusão entre o clássico e o regional é uma forma de preservar a memória gastronômica do estado. "Minas Gerais possui uma gastronomia muito forte e presente. Eu aprendi com a minha avó e com a minha tia e, hoje, meu papel é passar esse conhecimento adiante. É um legado que não podemos deixar que se perca. Minha ideia é trazer as nossas raízes em uma roupagem diferente."
Ponte Minas-Portugal
Entre os nomes à frente das oficinas do Senac, está Gustavo Melo, instrutor de formação profissional da instituição há cinco anos. Gustavo trocou o Direito pelas panelas quando decidiu buscar uma carreira que lhe permitisse viver no exterior. Após uma temporada em Portugal, onde atuou como chef, retornou a Belo Horizonte e trouxe na bagagem a expertise que hoje compartilha com seus alunos.
Para o evento em BH, o chef apresentou uma proposta que une suas raízes e suas vivências internacionais: a cozinha de fusão luso-mineira. Segundo ele, o objetivo é modernizar ingredientes tradicionais através de técnicas contemporâneas.
"Trago frutos do mar, como o mexilhão, com uma pegada mais mineira, utilizando limão capeta e mexerica. É uma abordagem mais moderna, com elementos como espumas e véus de limão, imprimindo uma estética contemporânea para a nossa gastronomia", explica.
Belo-horizontino de corpo e alma, o instrutor não esconde o entusiasmo ao falar sobre o patrimônio culinário de Minas Gerais. Para ele, a cozinha local ocupa um lugar de destaque no cenário global devido à sua complexidade. "Para mim, a culinária mineira é a mais rica em questão de sabor, tempero e complexidade. Não há nada no mundo que se iguale a ela."
Durante a oficina Mar e Pomar: cozinha luso-mineira, Gustavo contou com o auxílio de Mayara Reis e Juliane, alunas do Senac integradas ao programa Prática na Real. A iniciativa visa inserir os estudantes no cotidiano dinâmico de um evento. "É o momento em que trazemos o aluno para dentro de uma cozinha real, para que eles possam aprender, na prática, como funciona o dia a dia e a rotina dessa profissão", pontua o instrutor.
Poder de transformação
A presença do Senac na Semana S propõe ir além do sabor, focando na educação profissional e no aproveitamento integral dos insumos. O instrutor de formação profissional do Senac Minas, Moisés Gonzaga, cuja trajetória na gastronomia é uma herança familiar — seu pai é chef de cozinha há 45 anos —, lembra que a instituição busca unir a tradição mineira à viabilidade técnica e financeira.
Durante as oficinas realizadas na unidade móvel de Gestão e Sustentabilidade, o público pode conferir preparos que exploram a identidade local, como o pavê de queimadinha com café e creme de capim-limão, além de sobremesas que remetem ao afeto, como o brigadeiro e o pudim de goiabada.
"Como estamos em Minas, optamos por utilizar ingredientes que remetem ao interior, como o capim-limão, em uma combinação com o café. A aceitação tem sido excelente", afirma Moisés.
Para ele, a gastronomia é, acima de tudo, uma ferramenta de mudança. "Gastronomia para mim é poder de transformação. É a capacidade de converter um alimento único em uma combinação complexa de sabores. Falar de comida mineira é falar de afeto, carinho e recepção", define.
Um dos focos do Senac nesta edição é o empreendedorismo. As oficinas ministradas na unidade móvel são orientadas pelo mote da sustentabilidade financeira e ambiental, abordando desde a precificação até o uso total dos alimentos para reduzir desperdícios.
"Todas as receitas desenvolvidas aqui são voltadas para custos, pensando tanto em quem deseja abrir um negócio quanto em quem já empreende e busca sustentabilidade através do aproveitamento total do alimento. Teremos, por exemplo, uma ação focada na abóbora em sua totalidade, utilizando desde a casca e a polpa até as sementes", explica Moisés.
O instrutor de formação profissional em confeitaria e panificação, Thiago Alves, apresentou uma proposta que traduz a essência do estado em um formato contemporâneo: o cookie mineiro.
A receita, que substitui as tradicionais gotas de chocolate por queijo meia-cura e goiabada, serve como ponto de partida para uma reflexão sobre o uso de insumos locais. Para Thiago, a gastronomia de Minas Gerais é definida pela força dos ingredientes regionais.
Nascido na Bahia, ele demonstra admiração pela cultura alimentar mineira e defende que o reconhecimento da culinária local como patrimônio é um reflexo do cotidiano da população. Segundo Thiago, a força dessa cozinha reside na sua onipresença e no hábito de consumo que atravessa gerações.
"Falar sobre a culinária mineira é muito gratificante. Quando esses ingredientes se tornam um patrimônio, é porque as pessoas têm o hábito de consumi-los e utilizá-los com muita frequência no dia a dia."
Entusiasmo
Entre os participantes das oficinas, estavam, entusiasmadas, Rosilene Santos, de 47 anos, e a filha Lavínia, de 11. As duas chegaram ao evento por recomendação do filho de Rosilene, que trabalha na instituição, mas o verdadeiro motor para a participação foi o desejo de aprimorar uma aptidão que faz parte do cotidiano da casa.
Mesmo com a pouca idade, Lavínia já demonstra segurança entre panelas e farinhas. A expectativa da jovem para a atividade era clara: dominar novas técnicas e aproveitar os sabores. "Acho muito legal aprender a fazer massas. Em casa eu já costumo cozinhar, faço bolos e muitos doces. Minha expectativa é aprender a fazer massas diferentes e também trabalhar com chocolate", conta Lavínia.
Para Rosilene, o evento é uma oportunidade de incentivar o talento da filha e compartilhar um momento de descoberta. Ela diz que a gastronomia não é apenas um hobby, mas um traço que conecta a família. "Estamos muito ansiosas para aprender e, principalmente, para que a Lavínia possa experimentar o que ela mesma produzir. Eu adoro cozinhar e acompanho minha filha de perto na cozinha. Ficamos sempre experimentando novos sabores juntas."
Aos 52 anos, Simone Gonçalves busca a reinvenção pessoal e profissional através da educação. Após decidir que era o momento de investir em si mesma e retornar ao mercado, ingressou no curso superior de Tecnologia em Gastronomia do Senac - está no segundo semestre.
Para a estudante, a densidade da formação e o suporte oferecido pela instituição são diferenciais que vão além da prática no fogão. "O curso é muito denso e nos prepara não apenas para a cozinha em si, mas para todas as áreas que compõem o setor. Além disso, temos acesso a cursos complementares gratuitos, e procuramos aproveitar todas essas oportunidades de aprendizado."
Com o olhar atento às demandas contemporâneas, Simone tem planos para sua atuação profissional. O objetivo é unir a autonomia do empreendedorismo a um nicho que valoriza o bem-estar e as restrições alimentares. "Minha ideia é empreender como personal chef, com foco específico na gastronomia inclusiva. Pretendo trabalhar com alimentos funcionais e voltados para a saúde, que é um segmento em franca expansão no mercado atual."
A professora aposentada Ana Maria Martins Daher, de 73 anos, participava pela primeira vez de uma oficina do Senac em Belo Horizonte. Natural de uma família com raízes em São João del-Rei, cidade famosa por sua rica doçaria, carrega o gosto pela cozinha no DNA. "Sempre gostei de cozinhar. Fomos acostumados desde cedo. Na nossa casa, cada um assumia a cozinha em um dia e nos reuníamos todos à mesa", recorda.
A motivação para buscar a oficina veio por incentivo familiar e pela curiosidade despertada pela mídia. Segundo a aposentada, o aprendizado tem sido revelador, especialmente no que diz respeito à precisão que a gastronomia exige.
"Estou adorando. Aprendi detalhes que levamos tempo para assimilar, como a importância da gramatura e a ordem correta dos ingredientes no preparo de um cookie, por exemplo. São técnicas fundamentais para que a receita fique saborosa, com a textura ideal, sem passar do ponto ou ficar endurecida."
O sucesso das oficinas do Senac também se reflete no perfil diversificado do público. Entre os inscritos na aula de cozinha luso-mineira, que explora as conexões históricas entre a culinária portuguesa e as tradições de Minas Gerais, estava Fernanda Teixeira de Lima, de 24 anos.
Fernanda, que está em um momento de transição profissional, encontrou no evento uma oportunidade de descobrir novas habilidades. Embora não tivesse o hábito de cozinhar, o interesse pela gastronomia começou a despertar recentemente, com a curiosidade em relação aos preparos regionais. "O que me chamou atenção foi o prato que seria apresentado. Achei muito interessante essa ligação entre a culinária de Minas e a portuguesa", diz.
A jovem tem aproveitado a programação para explorar diferentes frentes da gastronomia - também passou pela área de panificação e confeitaria, em que participou da oficina de bolos afetivos. Para Fernanda, o ambiente das aulas e a didática incentivam a continuidade do aprendizado para além do evento.
"Fiquei sabendo da programação pelo Instagram e estou gostando muito. Minha expectativa agora é aprender as técnicas para conseguir reproduzir essas receitas em casa."
Para esta quinta-feira (14/5), a programação gastronômica da Semana S inclui:
Panificação e Confeitaria do Senac
9h30 às 11h30
Pâte à choux com um toque mineiro
Rodrigo Aparecido Terra
A Mineiridade tem sabor de café e queijo
Agnes Laila e Osnei Cesarino
14h às 16h
Cuca de Uvas Roxas ao Vinho Branco com Creme de queijo e cobertura crocante
Jefferson Ferreira
Do Cacau ao Café: Experiência de harmonização
Priscila Teixeira e Osnei Cesarino
Gastronomia do Senac
9h às 11h30
Minas no Prato: Técnicas e inovações a favor da tradição
Jaime Mario Solares
Cozinha Criativa e Aproveitamento Total dos Alimentos
Moisés Gonzaga
14h às 16h
Minas no Prato: Técnicas e inovações a favor da tradição
Jaime Mario Solares
Os bastidores do custo de um prato
Rodrigo Aparecido Terras
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*As vagas para as oficinas de gastronomia são por ordem de chegada com inscrição até minutos antes do curso