Entre panelas, pincéis improvisados e uma boa dose de imaginação, há quem transforme a cozinha em ateliê e o alimento em obra de arte. Muito além do sabor, esses criadores moldam açúcar como quem esculpe cerâmica, constroem cenários com ingredientes frescos e desenham experiências sensoriais que começam pelos olhos antes de chegar ao paladar. São trabalhos que exigem técnica, estudo, precisão e, sobretudo, sensibilidade – já que cada composição, seja doce ou salgada, carrega horas (e até meses) de dedicação.


Para Agnes Farkasvolgyi, a arte nunca esteve dissociada da cozinha, ainda que ela mesma só tenha percebido isso formalmente anos depois. À frente do bistrô A Casa da Agnes, em Belo Horizonte, do restaurante Chafariz, em Ouro Preto, na Região Central do estado, e do consagrado bufê Bouquet Garni, a chef começou a desenhar ainda criança, influenciada pelo pai arquiteto e pelo acesso precoce a materiais artísticos. Mas só retomou esse caminho nos anos 1990, depois de já ter consolidado a carreira na gastronomia.


A conexão entre os dois universos surgiu quase intuitivamente. Em uma exposição de telas, na mesma época, sua obra de abertura foi uma grande composição feita com verduras e legumes. “Sempre achei que verduras e legumes tinham uma estética e uma cor muito parecidas com a textura da tinta que eu usava. Mas não fiz isso pensando em nenhum tipo de ligação possível. Simplesmente era uma questão de cor e forma”, relembra.


Mais tarde, em 2000, ela ingressou na Escola de Belas Artes, onde a chave virou. Em um trabalho acadêmico, baseado em um livro da Grécia antiga, Agnes montou um banquete sensorial. “Eu tinha velas, incenso, um pote com mel, com castanhas. E falei desse trabalho através do jantar”, contou. Ao fim da apresentação, ouviu do professor a pergunta que mudaria sua trajetória: “Você já pensou que está usando a cozinha como linguagem de arte?”.

'Tem uma pesquisa muito grande por trás. Leva em conta conhecimento de cozinha, de arte, às vezes de música, de dança. É uma performance', explica a chef Agnes Farkasvolgyi

Marcos Vieira/EM/D.A Press

A partir dali, Agnes mergulhou em pesquisas. Descobriu antecedentes históricos nas naturezas-mortas, que utilizavam a cozinha como objeto de observação, e no movimento francês Novo Realismo, cujo expoente, o romeno Daniel Spoerri, dedicou a vida à interlocução entre arte e comida.


“Percebi que tinha em mãos algo muito mais poderoso do que imaginava. Podia falar através da comida. Não era brincadeira, era estudo. Comecei a explorar todas as possibilidades estéticas e conceituais”, diz a chef, que também se formou como artista plástica. Desde 2002, ela calcula ter realizado mais de 50 jantares que define como “eat art”, nos quais a comida é utilizada como linguagem.

Processo criativo


O processo criativo segue rigorosamente o método de um artista visual. Agnes desenha, escreve os ingredientes que deseja investigar, testa combinações, refaz caminhos. “Desenho o prato antes de montar. Não é sempre que dá certo”, reconhece. Quando provocada com temas aparentemente abstratos – como a voz – ela pesquisa, busca traduções sensoriais, pensa em som, textura, atmosfera. “É uma pesquisa igual a qualquer outra área de conhecimento”, acrescenta.


Para isso, a artista cria artifícios. “No caso da voz, por exemplo, você começa a perceber que alguns alimentos são mais graves e outros agudos. Isso tem a ver com o tempero, a maneira de preparo. Você vai criando categorias e classificando os sabores que você quer usar”, explica.


Entre suas inspirações, estão artistas brasileiras que também tensionam os limites entre alimento e linguagem, como Rivane Neuenschwander, Nydia Negromonte e Simone Matar, nomes que exploram comida, temperos e efemeridade como matéria poética.

Trabalho performático


A partir disso, Agnes Farkasvolgyi deu à luz a trabalhos marcantes ao longo da sua trajetória. Em 2005, na então Galeria Celma Albuquerque (hoje Albuquerque Contemporânea, em BH), montou telas comestíveis inspiradas em nomes consagrados da história da arte – releituras de Frida Kahlo, Beatriz Milhazes e Klimt que, após um período de contemplação, foram literalmente devoradas pelo público.

Na abertura da galeria de Yayoi Kusama no Inhotim, toda a comida era em formato de bolas, em referência à obra da artista japonesa

Arquivo pessoal


No Museu de Arte da Pampulha, realizou o performático “Jantar de Gala”, um jogo de palavras que remetia à musa de Salvador Dalí, Gala Dalí, e aos célebres banquetes surrealistas do artista. Ela também já promoveu experiências na roda-gigante do Parque Guanabara, jantares sobre arco-íris, morte e análise combinatória, cada qual com seu enredo. “Como artista plástica, a provocação é sensorial. Como chef, quero explorar o que o prato pode trazer para a pessoa”, define.


Território pouco explorado


Por outro lado, a “chef-artista” destaca que o ramo ainda é um território vasto e pouco explorado no Brasil. “Aqui você conta em uma mão as pessoas que trabalham com isso. Lá fora já existem pesquisas acadêmicas, faculdades, estudos de todo tipo”, observa. A incompreensão, segundo ela, é quase inevitável. “Todo mundo acha que a gente está fazendo uma brincadeira”, menciona Agnes.

Meses de preparação


Pratos e jantares temáticos que deslocam o público do lugar-comum provocam encanto imediato, mas, antes disso acontecer, há meses de investigação. “Tem uma pesquisa muito grande por trás. Leva em conta conhecimento de cozinha, de arte, às vezes de música, de dança. É uma performance”, afirma.


Segundo ela, produzir um banquete pode demandar quatro ou cinco meses de preparação. E esbarra, quase sempre, na limitação de recursos. Sem patrocínio fixo, Agnes equilibra ambição e viabilidade. “Um banquete completo, com projeção, música, espaço adequado, é praticamente uma exposição. É caro. Faço por conta própria, da melhor forma que posso, mas gostaria de ter mais recursos para isso”, comenta.

Cercada por arte


A confeiteira Adriane Toledo nasceu cercada por arte dentro de casa. Filha de artista plástica e neta de uma avó “super prendada”, ela passou a infância vendo a comida ganhar formas delicadas. “Minha mãe fazia flores de legumes, era uma apresentação linda”, conta.


Criada praticamente dentro de um ateliê de cerâmica e formada em arquitetura, Adriane passou anos dividida entre maquiagem, aulas de modelagem e outros trabalhos, até que a pandemia a levou de volta às origens – e aos suspiros recheados da mãe, que “todo mundo pedia”, e que mais tarde dariam origem à marca Suspirô.

Candelabro de açúcar da Suspirô

Suspirô/Divulgação


A transição para a confeitaria profissional foi natural, mas o olhar artístico já estava ali. “Acho que ninguém cria do nada”, observa. Suas referências vêm principalmente de confeiteiros estrangeiros – russos, ucranianos, ingleses, tailandeses, coreanos –, nomes que acompanham tendências e experimentações que, segundo ela, demoram a ganhar espaço em Minas Gerais.

Movida a desafios


A confeiteira admite que não gosta de seguir modismos. Prefere o desafio, o diferente, mesmo que isso signifique enfrentar resistência de um público mais tradicional.


Algumas criações exigem cuidado e leveza. Uma delas, o cisne de açúcar – inteiro moldado em suspiro – foi produzida em temporada de chuva e umidade e levou uma semana para ficar pronto. “Suspiro não pode ver água, ele absorve, começa a melar. Não tenho cozinha climatizada”, conta Adriane.


Antes de chegar ao resultado final, houve planejamento estrutural, testes, estudo. “Sempre tem o pensar, mas algumas ideias surgem na hora”, resume. Outras produções podem ficar prontas em um ou dois dias, mas peças mais elaboradas, como o candelabro de suspiro, demandam quase uma semana de trabalho.


Resgate da essência

Para Marina Mendes, a confeitaria é uma tradução. Traduzir uma joia em sobremesa. Uma peça de roupa em textura. Um sentimento em sabor. Formada em direito, mas sempre “fazedora de coisas empíricas”, a baiana pintava móveis, reinventava roupas, transformava objetos. Em uma temporada na Alemanha, teve um contato mais intenso com o universo das artes e ampliou seu repertório visual.


Logo depois, ela foi estudar pâtisserie na França. Ali, percebeu que a confeitaria dialogava profundamente com outras linguagens artísticas. “Os chefs com quem eu mais me identifiquei falavam da fusão entre cerâmica, pintura e pâtisserie. Inclusive, os utensílios partilham muito disso”, destaca.

Marina Mendes utiliza pincel para dar cor aos elementos dos seus doces

Natália Campos/Divulgação


A constatação não criou algo novo, mas deu nome ao que ela já fazia intuitivamente. À frente do ateliê Sá Marina há cerca de quatro anos, a confeiteira passou por uma espécie de acerto de rota. “Eu me perguntei: quem são minhas referências? Não quero restaurante, não quero franquia, não quero produção em série. Então, o que eu quero?”, questionou.


A resposta estava na própria prática: desde a primeira tartelete de limão, ela já pensava em paleta de cores, estrutura, textura, narrativa. “Sempre criava uma história ali”, relata. No último ano, Marina decidiu assumir essa identidade de forma consciente – a confeitaria se transformou em galeria de arte efêmera.

Outras artes para inspirar


O processo criativo começa longe da cozinha. Diante de um projeto, Marina conversa, anota e depois se afasta. Trabalha com as mãos em silêncio, faz guirlandas, ouve música clássica instrumental. “As ideias vão maturando”, explica. Só depois vêm os sabores, que ela conecta a partir de um repertório já consolidado. “Busco outra arte para conseguir chegar à confeitaria”, menciona.


Sua maior referência histórica é Marie-Antoine Carême, o lendário chef francês do século 19 que elevou a pâtisserie ao estatuto de bela arte, aproximando-a da arquitetura e da escultura. “Ele já fazia isso lá atrás. Não é uma nova onda”, afirma Marina. No campo dos sabores, ela cita nomes como Philippe Conticini e Pierre Hermé, mestres na construção sensorial das sobremesas.


Fora da gastronomia, inspira-se na poesia da cantora Maria Bethânia, na estética do designer de joias Carlos Penna e até na amiga Agnes Farkasvolgyi.

Assinatura brasileira


Se a técnica é francesa, o sotaque é assumidamente brasileiro. Formada na base clássica da pâtisserie, Marina domina massas, cremes e estruturas que vêm da tradição europeia, mas faz questão de tensionar esse repertório com camadas de brasilidade. “Utilizo a técnica da pâtisserie, mas minha assinatura sempre vai encontrar a nossa brasilidade em algum processo”, garante, com orgulho.


Sua proposta não é trabalhar os sabores brasileiros de forma óbvia e fácil, ela escolhe deslocar sabores conhecidos, reinventar formatos e provocar surpresa sem perder identidade. Goiabada pode surgir de outro jeito. Doce de leite pode ganhar nova leitura. Cupuaçu, novas texturas. Além disso, ela carrega no repertório afetivo ingredientes do Norte e do Nordeste.

Pâtisserie para beber


A arte de Marina já foi celebrada em diversos trabalhos. Entre eles, a inauguração da segunda loja em São Paulo do designer mineiro de acessórios Carlos Penna, conhecido por seu estilo arrojado, refinado e provocativo. Para acompanhar o universo visual do artista, surgiu uma pâtisserie para beber – um drinque que revisita a clássica torta francesa de maçã tarte tatin em uma taça coupé aberta.

Com detalhes em ouro comestível caramelizado, a sobremesa em forma de drinque é inspirada na clássica torta francesa de maçã tarte tartin

Breno da Matta/Divulgação


A releitura aposta em camadas aromáticas e em elementos que evocam luxo e profundidade. Castanhas de caju foram banhadas em ouro comestível caramelizado, trazendo detalhes metálicos que remetem às obras de Penna. No interior da taça, a esfera com brilho intenso ganha destaque com a redução de licor de jenipapo, criando reflexos densos e sofisticados.


Outras criações dela são um cisne de chantili, apresentado em uma edição do encontro de mulheres Conexão Cobogó, que tinha como tema “O patinho feio”, e um piano com marcas do tempo e da vida em homenagem a Chiquinha Gonzaga.


Vida em cores


O contato de Renata Penido, que comanda a Ambar Chocolate, com o universo açucarado ocorreu cedo, aos 11 anos, vendendo brigadeiros na escola. Mas foi o hiato entre a faculdade de psicologia e a especialização em chocolateria que revelou sua verdadeira vocação: a pintura em chocolate. Na época, os bombons pintados eram uma raridade no Brasil, o que a instigou a mergulhar em um estudo autodidata e profundo.


Sua busca pela perfeição estética a levou a estudar a teoria das cores primárias para criar sua própria paleta. “Fui criando um sistema, um caderno de receitas de cor. Eu queria as minhas. Comecei a estudar a parte de arte, das cores primárias para ter o domínio completo da paleta que eu quisesse criar”, explica a chef.

Dentro da concha de chocolate de maracujá, reluz uma 'pérola', que nada mais é que uma trufa de avelã com coco caramelizado

Ambar Chocolate/Divulgação


Sua inspiração é orgânica, vinda de caminhadas na mata ou do degradê de um pôr do sol. Essa liberdade criativa permite que ela transite entre tons de magenta, púrpura e verdes profundos, garantindo que cada vitrine seja uma exposição visual única.


O impacto da arte na vida de Renata foi transformador, operando uma mudança "de fora para dentro". Antes acostumada à sobriedade do preto e do branco, a vivência com os corantes e a pintura no chocolate transbordou para sua própria identidade. “Vestia essa capa de estar sempre com cores básicas e o chocolate fez com que a minha vida colorisse”, reflete.

Por dentro do bombom


Para Renata, a estética e o sabor são indissociáveis, mas é a narrativa que eleva o chocolate ao status de arte. Ela acredita que “dentro de um bombom cabe o mundo” – seja ele a representação geográfica de um país distante ou uma memória afetiva guardada na memória.


Um dos exemplos mais sensíveis de seu trabalho é o bombom “Maria Maria”. Visualmente, ele emula um céu clarinho; no paladar, carrega uma história pessoal da chocolatier. “É de uma pessoa muito importante para mim que já partiu. O sabor é de café com leite com biscoito Maria, algo que vivíamos juntas no café da manhã. Ele conta uma história pessoal, traz o céu onde acredito que ela esteja e o sabor da minha infância.”


A precisão artística de Renata também flerta com a escultura. Embora utilize moldes de acetato e instrumentos variados, ela busca em estudos de escultura em madeira e argila a base para entender a maleabilidade do chocolate e criar peças fluidas em sua loja.


Entretanto, a experiência artística só é completa se o espectador (ou consumidor) respeitar a natureza da obra. Renata ressalta a importância da temperatura do chocolate, idealmente entre 18°C e 21°C, até para consumo próprio, para que o doce desmanche junto com o recheio. O erro da geladeira gera uma resistência indesejada na boca.

É de comer?


Entre as peças artísticas da Ambar, destacam-se a ostra feita de chocolate de maracujá, guardando uma “pérola”, que nada mais é do que uma trufa de avelã com coco caramelizado. O trabalho foi feito para a coleção de verão deste ano.


Também não ficam de fora as ágatas. As pedras conhecidas pelas faixas coloridas e translúcidas parecem tão reais que fica difícil descobrir se é comestível. Renata pinta a mão as placas de chocolate, que podem ser personalizadas ao gosto do cliente, assim como os bombons, que formam um arco-íris na vitrine da loja.


Serviço


A Casa da Agnes (@acasadaagnes)
Rua Paulo Afonso, 833, Santo Antônio
(31) 98738-7066

Suspirô (@sus.pirou)
(31) 99804-2588

Sá Marina (@samarina.br)
(31) 98393-0613

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Ambar Chocolate (@ambarchocolate)
Rua Bernardo Guimarães, 229, Funcionários
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