Dona e chef do hotel Clara Arte, no Inhotim, se rende às delícias mineiras
Formada em administração e gastronomia, Taiza Krueder divide seu tempo entre dirigir as três unidades da rede Clara Resorts e criar receitas
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Ela não se chama Clara. Mas ficou conhecida pelo nome dos três hotéis que administra – um deles fica dentro do Inhotim, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Acelerada, atenta aos mínimos detalhes (e também famosa por ser um meme na internet), a paulista Taiza Krueder virou a cara do Clara Resorts. O que nem todo mundo sabe é que ela é chef de cozinha formada na França e gosta de cuidar pessoalmente de toda a operação gastronômica.
Desde muito pequena, Taiza dava sinais de que seria cozinheira. Ela era a única neta que se interessava em ficar ao lado da avó na cozinha, quando ia passear em Santos. “Lembro de ficar enrolando o nhoque na pia de mármore e fritando depois na manteiga com sálvia. Ela punha um banquinho para eu poder ficar na altura dela. Eu não comia nada, mas adorava fazer.”
Quando não estava com a avó, ela gostava de ir para o restaurante dos pais, em São Paulo. Taiza ficava atrás do balcão servindo sorvete e já fazia mousse de chocolate para vender. Mas nada foi mais decisivo para aprender a cozinhar do que a falta de apetite para a comida de casa. “A moça que ajudava a minha mãe cozinhava muito mal. Ela teve nefrite uma vez e fazia tudo sem sal. Ou começava a aprender a cozinhar ou ia comer comida sem graça até sair de casa.”
Taiza passou a assumir, com gosto, as panelas por onde quer que fosse e era reconhecida pela “mão boa” na cozinha. Na época, não existia a conversa de estudar gastronomia, então ela se formou em administração de empresas. Com o diploma na mão, decidiu realizar seu grande sonho em Paris.
“Fui a primeira brasileira aceita na escola superior de cozinha francesa, a Ferrandi. Isso em 1997. Eles tinham acabado de abrir um curso que começava em inglês e migrava para o francês.” Em um mês, ela já “estava filosofando em francês” e acumulou experiências diversas, dos pequenos bistrôs aos restaurantes estrelados e de hotéis luxuosos.
De volta ao Brasil, Taiza assumiu o restaurante da família, que fecharia mais tarde, na pandemia. Antes disso, quando sua terceira filha nasceu, em 2014, ela decidiu deixar o negócio dos pais para tocar o hotel que tinha com o marido. A propriedade em Dourado, no interior de São Paulo, se tornaria a primeira unidade da rede Clara Resorts – a fazenda que virou hotel se chamava Santa Clara, daí o nome da rede.
“A gastronomia sempre esteve muito interligada à minha história, mas eu era a CEO do hotel. Fazia os cardápios com os chefs, mas lembro que do escritório via o pessoal da cozinha passando e me dava vontade de passar o dia inteiro cozinhando. Eu amava.”
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Não deu. Logo veio a segunda unidade do Clara Resorts, em Ibiúna (SP). Depois, o desejo de ter mais uma. “Queria um outro hotel, mas abrir mais do mesmo? Nunca me encantou. Cheguei a olhar praia, os hóspedes me pedem muito”, conta a chef, que revela estar na fase de prospecção de terrenos no litoral. Mas o destino a trouxe primeiro para Minas.
Obra parada
A ideia surgiu em uma visita à feira SP-Arte. Taiza parou no estande do Inhotim para comprar passarinhos de madeira para os hotéis. Papo vai, papo vem, a atendente comentou: “Estamos procurando investidor para o nosso hotel, tem uma obra parada lá dentro do Inhotim.” Há 12 anos, quando conheceu o museu, a paulista tinha visto essa área. Nessa mesma viagem, ela levou para o seu escritório pôsteres de lá. “Trabalho há 12 anos olhando para essas imagens.”
O grupo comprou a área em 2023 e começou as obras no ano seguinte – o Clara Arte foi inaugurado em dezembro de 2024. A estrutura contempla 46 bangalôs, piscina climatizada, sauna, spa, restaurante, bar, brinquedoteca, academia e espaço para eventos. Tudo isso cercado pelo belo paisagismo do Inhotim e a poucos passos do Espaço Igrejinha, de um lado, e da Galeria Psicoativa Tunga, do outro.
Os hóspedes têm acesso livre ao museu e podem fazer passeios guiados exclusivos às segundas e terças, dias em que ele não abre para o público em geral. Além disso, há obras de arte do acervo do Inhotim lá dentro, como a escultura de Edgard de Souza na entrada, e outras de artistas com exposições lá, adquiridas pelo hotel, incluindo uma série de fotos de Claudia Andujar.
A ocupação do Clara Arte é um reflexo do fluxo de visitantes no museu. “Se lá tem 6%, 7% de estrangeiros, é o que eu vou ter aqui como clientes. Somos um espelho de Inhotim”, aponta Taiza. Segundo ela, a unidade em Minas recebe muitos cariocas e paulistas e tem um público mineiro crescente. No ano passado, o hotel rendeu 43 mil entradas (alguns hóspedes se repetem).
Identidade mineira
Sabendo que o mineiro tem um grande apreço pela gastronomia, lá no início, Taiza contratou o chef Leo Paixão (dos restaurantes Glouton, Ninita e Macaréu e do bar Nicolau, todos em BH) para uma consultoria – por coincidência, ele também estudou na Ferrandi. Como não é daqui, ela pediu ajuda para encontrar fornecedores, montar equipe e pensar os cardápios com uma identidade mais mineira. Foi dele a ideia de construir um fogão a lenha e lá servir pratos típicos.
“Em algum momento, o próprio Leo falou: não tem como mais te ajudar. Você tem uma característica própria de cozinha, a tua maneira de trabalhar, o teu DNA. De fato, o Clara já vinha com 20 e poucos anos de história de gastronomia, com o que meu hóspede espera e que funciona”, comenta Taiza, que, a partir daí, se assumiu de vez como chef do hotel.
Não dá mesmo para passar o dia na cozinha, como gostaria. Mas, quando está em casa, em São Paulo, ela faz questão de cozinhar todos os dias. Sua grande paixão são os frutos do mar. “Nasci em Santos, nunca morei nem um dia lá, mas brinco que tem iodo que corre nas minhas veias”, diverte-se, contando que costuma comer ostra de café da manhã no mercado onde vai comprar peixe.
Normalmente, ela gosta de preparar pratos únicos e com forte influência mediterrânea, entre eles a “histórica” paella, o “magnífico” arroz de polvo e o curioso “risoto” de quinoa com camarão e legumes. Dividindo-se entre a família (ela é mãe de três) e os hotéis, ela ainda encontra tempo para receber amigos em casa, o que faz com frequência. “Solto sozinha um jantar para 80 pessoas em casa assim, ó”, sinalizando com as mãos sua agilidade com as panelas.
Expansão calculada
Já mais ambientada às particularidades de Minas, Taiza faz um balanço desses um ano e três meses de funcionamento do Clara Arte. “Foi um ano de muito aprendizado. Você ter um hotel em outro estado é outro 'bicho'. Minas tem uma cultura muito própria”, destaca a CEO da rede, que se prepara para a expansão da unidade em duas etapas.
O plano é inaugurar mais 30 acomodações no fim de agosto para coincidir com o Anoitecer Inhotim, festa que arrecada fundos para o museu, marcada entre 11 e 13 de setembro. Esta edição celebrará os 20 anos da instituição. Também está prevista a entrega, até o fim do ano, de um complexo de quadras: duas de tênis, uma de tênis de praia, uma de padel e uma de picobol.
A segunda etapa da expansão inclui a construção de mais bangalôs, um spa no meio da floresta e a ampliação da área de eventos, com mais três salões: Party (festas), Foods (jantares privados e experiências gastronômicas) e Music (shows menores). Em 2029, deve ser inaugurado um complexo com mais 150 acomodações em uma área a 700 metros do Inhotim.
Vinhos orgânicos
Outra novidade que promete elevar a experiência gastronômica no Clara Arte é a produção de vinhos. Ainda na fase das obras, Taiza começou a plantar uvas (Syrah e Chardonnay) dentro da área do hotel e a expectativa é lançar rótulos próprios daqui a dois anos. “Aqui até a trepadeira não para de crescer, imagina a videira. Pensa numa planta feliz”, observa, animada com o projeto da vinícola.
Seu plano é produzir com a Chardonnay um “blanc de blancs” (do francês, “branco de brancos”), espumante apenas de uvas brancas (“sou louca pelos espumantes e frisantes. Gosto dessa história da festa, da celebração, faz parte um pouco do meu DNA”) e um bom Syrah. Os rótulos serão orgânicos (a sustentabilidade e o “respeito absoluto ao meio ambiente” são dogmas da rede) e, a princípio, exclusivos para os hóspedes.
Taiza planeja deixar o projeto nas mãos da filha mais velha, Cristina Krueder, que estudou hotelaria e é apaixonada por vinhos. “Por enquanto, estou plantando, cuidando bem das uvas. O que farei de blend no futuro a terra me dirá.”
Ela virou meme
Na pandemia, com os hotéis fechados, Taiza Krueder lançou o projeto “Clara in Casa”. “Já que as pessoas não poderiam vir até nós, nós iríamos até eles”, explica. A proposta era publicar vídeos no Instagram com dicas de decoração, brincadeiras para as crianças, gastronomia, entre outras.
O projeto “bombou” tanto que o perfil do Clara Resorts (@clararesorts) saltou de 80 mil para 800 mil seguidores e resultou em dois livros de receitas. “Virei até meme na internet, porque tenho um bordão em que falo: bem-vindos ao Clara in Casa.” Chamou a atenção dos internautas a entonação peculiar dessa sua frase inicial. “E aí virei um pouco a cara do hotel. Um Mickey”, brinca, deixando claro que se diverte com a história.
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Taiza é reconhecida na rua e muitos visitantes a procuram para abraçá-la e conversar. O projeto “Clara in Casa” continua até hoje, a pedido dos hóspedes.