A diversão continua borbulhando, mas agora com um toque de saúde. Bebidas enriquecidas com fibras e prebióticos estão conquistando consumidores que não querem abrir mão do sabor nem do bem-estar. O movimento, impulsionado por um público mais atento aos rótulos, já ultrapassou o universo das marcas “fit” e começa a aparecer até em nomes consagrados.


Nesta edição, contamos a história dessas bebidas, quais são as marcas por trás das embalagens coloridas e explicamos por que a tendência veio para ficar.


Antes mesmo de se tornar um plano de negócios, uma experiência pessoal deu origem à Wondr, de São Paulo. Em 2019, o criador e CEO da marca, André Lee, iniciou a carreira no mercado financeiro, em uma rotina intensa, marcada por longas jornadas e muita pressão.

Prebióticos, suco de frutas, aromas e adoçantes naturais: a Wondr investe em uma receita sem excesso de ingredientes

Wondr/Divulgação


“Nesse período, acabei deixando completamente de lado a minha saúde, me alimentava mal e consumia muito açúcar como uma forma de aliviar o estresse”, relata. O resultado veio rápido: cerca de 10 quilos a mais e uma sensação constante de desequilíbrio.


A virada ocorreu em 2023, quando ele decidiu deixar o setor para cuidar de si. “Voltei a me exercitar, aprendi a jogar tênis, passei a prestar mais atenção no que consumia. Foi uma mudança de estilo de vida, não algo imediato”, conta.


Nesse processo, o interesse por uma alimentação mais equilibrada o levou a importar produtos dos Estados Unidos, inicialmente para consumo próprio. Foi assim que conheceu a categoria de refrigerantes prebióticos. “Aquilo fez muito sentido para mim. Era uma bebida que mantinha o prazer, mas com uma proposta mais alinhada a um estilo de vida saudável”, afirma Lee.

Nova proteína


A ideia da Wondr surgiu exatamente nesse ponto de interseção entre prazer e saúde. “Não nasceu como um plano de negócio, mas como uma tentativa de criar algo que eu mesmo gostaria de consumir no dia a dia”, diz André.


Ao olhar para o mercado brasileiro, ele identificou uma lacuna clara. “Existem produtos funcionais e existem produtos prazerosos, mas poucas marcas conseguem unir as duas coisas. Ou você encontra algo gostoso, mas carregado de açúcar, ou algo funcional, porém pouco convidativo”, aponta.


Para o fundador da Wondr, o crescimento das bebidas com fibras e prebióticos (nome das fibras que alimentam as bactérias boas do intestino) acompanha uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. “Costumo dizer que os prebióticos são a nova proteína”, compara.


Segundo ele, a conscientização sobre saúde intestinal já está mais avançada em outros países, enquanto no Brasil o movimento ainda engatinha. “O surgimento de novas marcas é positivo porque ajuda a educar o consumidor, mas também eleva a régua. Não adianta apenas adicionar fibra prebiótica se o produto continua com alto teor de açúcar”, destaca Lee.

'O surgimento de novas marcas é positivo porque ajuda a educar o consumidor, mas também eleva a régua. Não adianta apenas adicionar fibra prebiótica se o produto continua com alto teor de açúcar' - André Lee, criador da Wondr

Wondr/Divulgação


A proposta funcional da Wondr está centrada na saúde digestiva, com foco no equilíbrio da microbiota intestinal. “A partir desse equilíbrio, é comum que as pessoas percebam outros reflexos positivos no bem-estar, como maior saciedade e mais disposição no dia a dia”, explica o criador.


Ainda assim, Lee reforça que o sabor é decisivo. “Ele é o que faz a pessoa querer consumir de novo. A funcionalidade dá sentido à escolha no longo prazo, mas o consumidor escolhe pelo conjunto: sabor, experiência e valor que o produto entrega”, menciona.


Em fase de expansão cautelosa, a marca enxerga cidades como Belo Horizonte como mercados promissores. “O público é aberto a novidades, especialmente quando envolve comida e bebida, mas também valoriza quando o produto é bom de verdade.”

Extraída da raiz


A fibra prebiótica utilizada pela Wondr é a inulina, extraída da raiz da chicória. “É uma fibra de origem natural, bastante estudada e amplamente utilizada em alimentos e bebidas funcionais”, explica André Lee. Cada lata contém 3,2 gramas da substância, uma quantidade definida para o consumo diário, sem exageros.


Além dos prebióticos, a bebida leva suco de frutas, aromas e adoçantes naturais. “A escolha de cada ingrediente foi pensada para manter a lista simples e fácil de entender, sem excesso de ingredientes ou fórmulas complicadas”, garante o fundador. Vale destacar seu sabor refrescante de maracujá com morango, combinação perfeita para dias quentes.


A fabricação segue padrões rigorosos de qualidade, atendendo às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Agricultura (Mapa). “O cuidado especial está no processo de pasteurização, realizado de forma precisa para garantir a segurança do produto e, ao mesmo tempo, preservar a integridade da fibra prebiótica”, afirma Lee.


Para momentos diferentes


Pensada para atender o público em diferentes ocasiões, a belo-horizontina K-Happy se estruturou como indústria e, desde 2021, segue uma missão. “A K-Happy nasceu com um propósito muito claro: levar bebidas mais leves e saudáveis para o consumo diário”, resume Tatiana Fontes, head de marketing do grupo, responsável pelas marcas K-Happy Kombucha, Shaggy Pop e Lowka (a única alcoólica).


A motivação veio da percepção de uma lacuna estrutural no mercado. “O que sempre nos moveu foi a vontade de oferecer alternativas melhores para o dia a dia. Bebidas que não fossem só uma escolha pontual, mas que pudessem acompanhar a rotina das pessoas com qualidade, frescor e consciência”, diz.


Segundo ela, por muito tempo, saúde e prazer caminharam separados nas prateleiras. “Nosso trabalho é justamente ocupar esse espaço, desenvolvendo bebidas com alta 'drinkabilidade', sabor e benefícios funcionais, pensadas para um consumo mais consciente, equilibrado e, naturalmente, mais feliz”, ressalta.


Com presença crescente na capital mineira, a K-Happy enxerga um mercado estratégico. “BH tem um público receptivo, curioso e fiel. Entendemos que parte do nosso papel é educar, apresentar e traduzir os benefícios de uma vida mais leve com as nossas bebidas.”

"Onda" saudável


Frescor, leveza e ingredientes naturais ocupam o centro da estratégia. “Somos uma indústria 100% voltada para o universo 'wellness', que acredita que beber bem também é uma forma de autocuidado”, afirma Tatiana.

Descrito como 'refri do bem', o Shaggy é uma bebida gaseificada que tem na composição fibras e vitamina C

K-Happy/Divulgação


A história da empresa começa com a K-Happy Kombucha, uma das pioneiras no mercado brasileiro de bebidas funcionais e probióticas. A partir dela, o portfólio foi se expandindo para atender a diferentes momentos de consumo, sem abandonar a mesma filosofia. “A Lowka é um drinque alcoólico pronto, com menor caloria por ml do mercado, e o Shaggy Pop é o nosso ‘refri do bem’, à base de chá, com fibras, limão e vitaminas”, explica Tatiana. A última chegou há quase dois meses.


Para Tatiana, a chamada “onda” das bebidas com fibras e prebióticos reflete uma mudança cultural mais profunda. “Hoje, ter saúde e levar um estilo de vida saudável viraram sinônimo de sucesso. As pessoas entenderam que cuidar do corpo e da mente passa pelas pequenas escolhas diárias, inclusive pelo que se bebe”, alega.

Benefícios


Cada marca do portfólio cumpre uma função específica, seguindo a mesma base: chá e frutas. A K-Happy Kombucha é uma bebida probiótica obtida a partir da fermentação do chá com a SCOBY – cultura viva de bactérias e leveduras. Rica em antioxidantes, auxilia a saúde intestinal, o humor, a disposição e a imunidade.


Já a Lowka aposta em um consumo alcoólico mais consciente e aparece nos sabores tangerina, limão, pitaia, maracujá e mate com rum. “É um drinque pronto para quem quer curtir sem culpa”, explica Tatiana. Com base de chá e polpa de frutas, tem 5% de álcool e baixo teor calórico (39kcal em 473ml).


O Shaggy Pop, por sua vez, posiciona-se como alternativa aos refrigerantes tradicionais. “É um ‘refri do bem’, gaseificado, com apenas 25kcal, vitamina C e fibras que colaboram com a saúde digestiva”, descreve. Ele é encontrado no sabor limão.

Ninguém quer ficar de fora

Outra prova de que as bebidas saudáveis não são apenas uma “moda” passageira é a movimentação de marcas que fazem parte da história do consumo brasileiro. O centenário Guaraná Antarctica, da Ambev, entrou no jogo ao lançar, em novembro do ano passado, uma versão do seu refrigerante Zero adicionada de fibras.


Para a diretora de marketing de bebidas não alcoólicas da empresa, Bianca Parrella, a decisão foi um passo estratégico de inovação. “Identificamos que bebidas com ingredientes funcionais representam uma tendência global em franca expansão. Unir essa funcionalidade a uma marca icônica nos permite liderar essa nova categoria, oferecendo uma opção que complementa a rotina de forma inteligente”, explica.

O maior desafio foi manter as mesmas características do Guaraná Antarctica zero na versão com fibras

Ambev/Divulgação


Se para as marcas menores o desafio é criar um conceito do zero, para o Guaraná Antarctica o desafio era não mexer no que já é sagrado: o paladar do brasileiro. A escolha, então, recaiu sobre a polidextrose, uma fibra selecionada após testes no Centro de Inovação e Tecnologia (CIT) da Ambev, no Rio de Janeiro.


“A polidextrose possui um perfil sensorial muito neutro. Isso é fundamental para que a fibra não interfira no paladar, permitindo que a experiência de consumo seja idêntica à do refrigerante zero tradicional”, revela Bianca.


O refrigerante entrega 4,4g de fibras por lata sem que o consumidor sinta qualquer diferença na viscosidade, na efervescência ou nos chamados off-notes (gostos residuais) dos adoçantes. “Iniciamos as vendas de forma exclusiva pelo Zé Delivery em São Paulo, Sorocaba e São José dos Campos. A aceitação tem sido muito positiva e nosso objetivo é escalar essa inovação para cada vez mais brasileiros”, adianta.

Só no Japão


Desde 2017, a Coca-Cola vende exclusivamente no Japão a versão Plus do seu refrigerante, que é enriquecida com fibras. Agora, o governo do país oriental certificou a bebida como “foods for specified health uses” (alimentos para uso específico de saúde, em tradução livre).


No país asiático, produtos ganham esse selo por conterem compostos que o governo entende que oferecem algum benefício específico, como baixar o colesterol ou prevenir a osteoporose. No caso da Coca-Coca, são 5g de dextrina por garrafa, algo que, teoricamente, faria com que o organismo absorvesse menor quantidade de gordura dos alimentos. Não há previsão de chegar a outros países.

Palavra de especialista


A professora do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Simone de Vasconcelos Generoso, acredita que o crescimento desse segmento está associado ao avanço e divulgação dos resultados de pesquisas envolvendo a microbiota intestinal (microrganismos presentes no nosso intestino) e a saúde humana.


“Antigamente, atribuía-se à microbiota apenas questões como constipação e diarreia. Hoje sabe-se que, além da função intestinal, esses microrganismos interagem e modulam vários sistemas do nosso corpo, como imunológico, metabólico e, mais recentemente, a parte comportamental”, explica.


A especialista ressalta que a microbiota intestinal é formada desde o nascimento até a primeira infância e sofre interferência de fatores genéticos e ambientais. Entre os ambientais, destaca-se o estilo de vida, que pode modular positiva (atividade física e um bom consumo de frutas, verduras e vegetais) ou negativamente (alto consumo de industrializados, cigarro e álcool).


Dose e composição


Nem tudo o que reluz como “saudável” entrega o mesmo resultado. A nutricionista e professora da UFMG Simone de Vasconcelos Generoso alerta que o benefício depende da dose e da composição. Para fibras, o ideal seria um consumo entre 5g e 15g de prebióticos por dia. Já nas bebidas que contêm probióticos (organismos vivos como Lactobacillus), é importante verificar a taxa, que deve ser de 10x9UFC/ml, e a viabilidade da bactéria.

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“Um ponto importante a se destacar é que, se essas bebidas apresentam fibras e probióticos, mas também corantes, adoçante, estabilizantes, o efeito não será como o desejado, uma vez que esses aditivos alteram de maneira maléfica a microbiota”, alerta.

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