No Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ), vender todo o estoque é motivo de celebração coletiva. Já é tradição, quando um expositor consegue o feito, os outros participantes dão uma salva de palmas. Neste domingo (8/11), a homenagem começou a se repetir antes mesmo das 11h, sinal de que alguns estandes começavam o último dia do evento no Minascentro com as prateleiras vazias.
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Desde quarta-feira (4/11), a 13ª edição do FIQ contou com extensa programação para incentivar a cadeia de produção, circulação e formação de leitores de HQs no Brasil. Com o tema “Caminhos da leitura: quadrinhos e cidadania”, o festival se propôs a discutir o potencial das histórias em quadrinhos como porta de entrada para a leitura, instrumento de formação de leitores e linguagem capaz de estimular o pensamento crítico. A edição reuniu 400 artistas participantes, 277 expositores e oito convidados internacionais.
“O FIQ é um festival muito forte e muito autêntico, justamente porque tem essa característica de reunir quadrinistas com trabalhos muito autorais”, destaca a diretora-presidente do Instituto Periférico, Gabriela Santoro. O instituto é responsável pelo evento em parceria com a Fundação Municipal de Cultura.
“Muita gente não sabe, mas o festival não aceita trabalhos desenvolvidos com inteligência artificial. Por isso, o FIQ tem uma característica muito autoral, que é algo que envolve todos esses quadrinistas”, acrescenta.
Outra característica que ela destaca são os encontros promovidos pelo evento, dos quais chegam a sair parcerias autorais ou mesmo servem como inspiração para futuras obras. É o caso de João Marcos Mendonça, que lançou a HQ “Doce amargo” neste ano.
O livro nasceu depois que João assistiu a uma mesa de conversa e participou de uma rodada de negócios na edição passada do FIQ. Algo parecido aconteceu com a quadrinista Hyna Comics. Ela lançou “Melonia” depois de ter participado de rodada de negócios na última edição.
HQ NO CINEMA
Entre os destaques internacionais, o FIQ trouxe a chilena Nati Chuleta. Ela está lançando no Brasil “Só não posso dizer o nome” (Miguilim), cuja adaptação cinematográfica feita por Helvécio Ratton está prevista para estrear no circuito comercial na próxima quinta-feira (12/11). Com ironia e humor sofisticado, Nati faz um relato autobiográfico sensível de quando sofreu abusos sexuais na infância pelo padrasto, a falta de apoio da mãe e a busca por justiça.
Nati esteve no festival. Participou do Duelo de Quadrinhos – terminando em terceiro lugar – e autografou exemplares de “Só não posso dizer o nome” no domingo.
Os homenageados do FIQ deste ano foram Sonia Luyten e Marcelo Lélis. A escolha contemplou dimensões diferentes da história dos quadrinhos. Sonia, por exemplo, é jornalista, professora e pesquisadora. Foi uma das pioneiras dos estudos acadêmicos sobre quadrinhos e cultura pop japonesa no Brasil, além de ter sido responsável pela criação do primeiro núcleo brasileiro de estudos de mangá e diretora da Gibiteca do Museu de Imprensa da Universidade de São Paulo (USP).
Já Marcelo Lélis é ilustrador e quadrinista, com trabalhos publicados no Brasil e no exterior, inclusive pela editora francesa Casterman. Ao longo da carreira, recebeu três troféus HQMIX. Cada homenageado ganhou uma exposição e uma mesa de debate dedicada à sua trajetória.
DESAFIO
Novidades deste ano foram a participação do Ministério da Educação, com a plataforma MEC Livros, biblioteca digital que disponibiliza obras gratuitamente; a distribuição gratuita de 3 mil exemplares de histórias em quadrinhos, no último sábado, e o desafio “Quadrinho 24h”, que também começou no sábado (7/11) e seguiu até domingo. Os 15 quadrinistas selecionados pelo evento se trancaram num aquário para fazer 24 páginas de quadrinhos em 24 horas. Eles não pararam em nenhum momento.
“Além de promover encontros, o festival também tem um caráter formativo, porque está muito respaldado neste contexto de intercâmbio e formação”, diz Gabriela Santoro. Ela conta que o FIQ começou a ganhar dimensão internacional a partir de 2018. “A adesão passou a ser muito espontânea. A gente até brinca que chega a ser difícil escolher os convidados hoje, porque são os próprios quadrinistas e ilustradores que nos procuram antes, pedindo para participar”, comenta.
Até a conclusão deste texto, não havia dados oficiais de quantas pessoas passaram pelo Minascentro durante o festival. A julgar pela quantidade de palmas que se ouviu no domingo – cada salva representa um estoque se encerrando –, pode-se considerar que dezenas de milhares foram ao FIQ deste ano.
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