"Assalto à brasileira" é um "microcosmo do Brasil", afirma diretor
A partir de história real de roubo ao Banestado de Londrina, em 1987, José Eduardo Belmonte procurou expor "as contradições e as crises" do país
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É ficção, mas só em parte. “Assalto à brasileira”, novo longa de José Eduardo Belmonte que estreou nesta semana, conta a história real do assalto ao banco Banestado, em Londrina (PR), ocorrido em 10 de dezembro de 1987.
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“O título vem do livro reportagem de Domingos Pellegrini. É um assalto em que você observa um microcosmo do Brasil. Suas estratificações sociais, suas contradições e suas crises. Todo o envolvimento da polícia e do jornalista integra esse microcosmo”, afirma Belmonte.
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Na ocasião, sete assaltantes entraram no banco para realizar um grande roubo, motivado pela revolta com a situação econômica do país. Mais de 300 pessoas, entre clientes e funcionários, ficaram reféns, enquanto o grupo esperava um resgate de 30 milhões de cruzados (cerca de US$ 10 milhões, na época) e um ônibus para a fuga.
Em um final feliz (para a maioria), ninguém além de um segurança ficou ferido e seis dos sete assaltantes foram presos. Dos 30 milhões de cruzados, 25 milhões foram recuperados. Barba, interpretado no longa por Robson Nunes, que comandou o assalto ao lado de Moreno (Christian Malheiros), nunca foi encontrado. O episódio é tema também do documentário “Isso (não) é um assalto” (2018), de Rodrigo Grota.
No longa de Belmonte, o humor dá com o tom, com o retrato de assaltantes claramente despreparados, que passam a seguir as dicas do jornalista Paulo (Murilo Benicio), interessado em que a situação acabe o mais rapidamente possível. Ou interessado em parecer herói.
MEDIADOR
O jornalista se torna o centro da narrativa, alinhavando a motivação dos assaltantes, a situação dos reféns e a atuação da polícia, à medida em que todas elas evoluem. “Esse é mais um dos meus filmes com um jornalista protagonista. Acho um personagem muito interessante, uma espécie de mediador entre as instituições e a sociedade. Temos visto muito o poder da informação nestes últimos anos”, afirma o diretor.
Sobre o tom do projeto, Belmonte cita uma frase que leu pichada em um muro: “Coisas absurdas acontecem quando você não tem dinheiro”. “Eles vão de táxi fazer um assalto, sem um plano de fuga. Isso é absurdo por si só. Não precisei adicionar o humor, ele estava lá. E isso é muito humano e brasileiro. Para nós, fazer piada é uma forma de sobrevivência”, diz Belmonte.
Apesar de se tratar de um crime, cidadãos de Londrina guardam do episódio uma memória entusiasmada, segundo o cineasta. “Das pessoas com quem conversei, não tem ninguém que tenha memória ruim desse evento. É uma certa memória coletiva e eles queriam muito contar essa história. Foi muito bacana esta convivência com quem queria dividir esse momento”, comenta.
As cenas foram filmadas em grande parte no banco alvo do assalto, que ainda existe, mas está fechado. “Tivemos que derrubar um muro para realizar as gravações”, conta Belmonte.
Depoimentos de reféns que visitaram o banco durante a produção são exibidos junto com os créditos. “A inclusão deles foi uma ideia que tive durante as filmagens”, comenta o diretor. “É um ponto de vista que vemos pouco e queria ele também. Então fiz esse apanhado no final do filme para lembrar deles.”
As visitas dos reféns às filmagens levaram a mudanças no roteiro. “Tanta coisa surgiu dessas conversas. Tem uma cena em que os assaltantes compram as roupas dos reféns com dinheiro e isso não estava no roteiro. Quando ouvi esse relato, falei: ‘Vamos colocar!”, diz Belmonte.
SESSÃO COMENTADA
“Assalto à brasileira” esteve na programação da 19ª CineBH, que trouxe José Eduardo Belmonte à capital mineira para acompanhar a sessão do longa no Cine Belas Artes. Na ocasião, o público notou semelhança entre o filme brasileiro e “Um dia de cão” (1975), de Sidney Lumet (1924-2011), que levou o Oscar de Melhor Roteiro Original.
No drama estadunidense, três homens realizam um assalto muito mal planejado. Sonny (Al Pacino) quer o dinheiro não para enriquecer, mas sim pagar a cirurgia de transição de gênero de sua mulher, Leon (Chris Sarandon).
Belmonte comentou que “em setembro de 1987, numa sessão especial na TV, passou ‘Um dia de cão’ e, dois meses depois, realizaram um assalto semelhante. Se uma coisa influencia a outra, a gente fica na especulação. As pessoas de fora falavam: ‘Estamos vendo o filme na vida real”. Em ambos, os reféns saem do banco presos aos ladrões com fita adesiva.
O diretor aproveitou a semelhança para pensar no crime em sua versão brasileira, como o título indica. “Vou me aproximar da mesma lógica em nossa versão. Se o Al Pacino sai heroico, Murilo vai sair com o barrigão de fora, depois de horas de calor no quase verão brasileiro”, brinca.
“ASSALTO À BRASILEIRA”
(Brasil, 2026, 98 min.) Direção: José Eduardo Belmonte. Com Murilo Benício, Christian Malheiros, Robson Nunes e Paulo Miklos. Em exibição em salas das redes Cineart, Cinemark e Cinépolis.
*Estagiário sob supervisão da editora Silvana Arantes.
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